Efeito payroll

Relatório de emprego nos EUA surpreende e reforça visão de alta de juros mais forte pelo Fed

Para economistas, criação de vagas e alta de salários diminuem preocupação com recessão, mas aumentam preocupação com inflação

Por  Lara Rizério -

Enquanto alguns dados apresentados nesta semana elevaram as preocupações no mercado de uma desaceleração da atividade econômica, o relatório de emprego dos Estados Unidos divulgado na sexta-feira (5) acabou por diminuir esse temor – mas também reforçou a possibilidade de uma alta de juros mais forte pelo Federal Reserve na próxima reunião, de setembro.

A economia dos Estados Unidos criou 528 mil empregos em julho, em termos líquidos, bem acima do consenso de mercado, que previa criação de 250 mil vagas. A taxa de desemprego dos EUA recuou para 3,5% em julho, ante 3,6% em junho, voltando ao nível de fevereiro de 2020, antes da pandemia de covid-19. Neste caso, a previsão era de que a taxa permaneceria em 3,6%.

Além disso, o Departamento do Trabalho revisou para cima os números de criação de postos de trabalho de junho, de 372 mil para 398 mil, e também de maio, de 384 mil para 386 mil. Em julho, o salário médio por hora teve alta de 0,47% em relação a junho, ou US$ 0,15, a US$ 32,27, superando a previsão de alta de 0,30%. Na comparação anual, houve acréscimo salarial de 5,22% no último mês, também acima da projeção de 4,90%.

Com isso, segundo dados do CME Group, a probabilidade para uma elevação de 0,75 ponto percentual (p.p.) na próxima reunião do Fed foi para 63,5% (ante 34% ontem), enquanto a probabilidade de uma alta de 0,50 p.p. caiu para 36,5% (frente à possibilidade de 66% no dia anterior).

Para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, o relatório surpreendente reforça a leitura de mercado de trabalho forte, o que coloca na mesa de discussão para a próxima reunião do Federal Reserve, de 21 de setembro, de mais uma vez subir o juro em 0,75 ponto percentual, após duas altas seguidas desta magnitude.

Ele sublinha que uma taxa final de 4% nos EUA é “muito mais razoável” diante do atual contexto. “A taxa de desemprego caindo de 3,6% para 3,5% mostra que qualquer americano que busque trabalho hoje nos EUA consegue, e além disso tem aumentado o salário médio, o que não mostra uma tendência de desaceleração”, reforça. “A inflação não dá sinais de que vai desacelerar rapidamente”.

O Morgan Stanley aponta que os ganhos de folha de pagamento foram generalizados. Houve desempenho consistentemente forte no setor de serviços, com aceleração em lazer e hotelaria, e educação e saúde. O emprego no governo também aumentou. O comércio varejista, que registrou um grande declínio nas vagas de emprego em junho, ainda registrou ganhos constantes de empregos.

“Para o Fed, a combinação de um forte crescimento da folha de pagamento e dos salários, juntamente com quedas contínuas na participação e na taxa de desemprego, é um sinal claro de que o aperto monetário seguirá sendo apropriado. Também fortalece a crença defendida pelos integrantes do Fomc (comitê de política monetária do Fed) de que a economia claramente não está em recessão, apoiando o caminho de aperto monetário acentuado do Fed pelo resto do ano”, avalia o Morgan.

O Goldman Sachs aponta que o relatório de hoje indica um mercado de trabalho superaquecido e que continua em uma tendência resiliente. Os economistas do banco seguem esperando aumento total de 100 pontos-base (ou 1 ponto percentual) na taxa básica de juros do Fed nas próximas três reuniões, com avanço de 50 pontos-base em setembro e de 25 pontos-base em novembro e dezembro (fechando o ano a 3,25%-3,5%), mas reconhecem que os riscos estão inclinados para aumentos maiores.

O Citi aponta que o payroll deve reforçar a preocupação do Fed com a inflação de salários e diminuir a discussão sobre recessão. Os economistas do banco mantêm a visão de uma alta de juros de 0,75 ponto na próxima reunião, de setembro, com os juros terminando o ano na casa dos 4%.

Eles apontam ainda que há dados de inflação e o relatório de emprego de agosto a serem observados pelo Fed até o próximo encontro do mês que vem. “Se o núcleo da inflação subir 0,5% na base anual e os dados de emprego mostrarem ao menos a criação de 100 mil vagas, é provável uma alta de 0,75 ponto. Um outro payroll muito forte ou inflação com alta de 0,7% na base mensal pode levar o Fed a subir os juros em 1 ponto em setembro ou subir em 0,75 ponto [na próxima reunião] e indicar altas adicionais de 0,75 ponto nos próximos encontros”, projeta o banco.

Na avaliação do Bradesco, o payroll o reforça o cenário de mercado de trabalho aquecido, sem alívio dos salários. Assim, os vetores para o consumo das famílias seguem presentes, reforçando as preocupações com a inflação.

“Esses resultados contrastam com as sondagens e indicadores de confiança que apontam para uma desaceleração rápida da atividade. Em nossa avaliação, a economia americana caminha para uma recessão, mas de forma lenta. A ambiguidade dos dados deve trazer volatilidade aos mercados ao longo do segundo semestre”, avalia.

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