Copom: XP vê Selic a 14,25% e alerta para freio nos cortes, mesmo com fim da guerra

Queda do petróleo não compensa pressão inflacionária e estímulos do governo; Banco Central deve adotar tom hawkish e pode sinalizar pausa nos juros nesta semana, dizem economistas

Élida Oliveira

(Imagem: Kamil / Unsplash)
(Imagem: Kamil / Unsplash)

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A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, nesta terça e quarta-feira, deve levar a Selic a 14,25%, com um corte de 0,25 ponto percentual. Mas, mesmo com o recuo do petróleo impulsionado pela sinalização de um acordo entre Estados Unidos e Irã sobre o fim do conflito no Oriente Médio, a decisão deverá vir acompanhada de um comunicado mais duro, de tom hawkish. A XP projeta que a autoridade monetária deve sugerir a possibilidade de uma interrupção no ciclo de afrouxamento, refletindo a piora no cenário de inflação. 

O relatório “Esquenta do Copom”, assinado pelos economistas Caio Megale, Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, mostra que as projeções de inflação do Banco Central devem se distanciar ainda mais da meta oficial. A corretora avalia que a expectativa para o índice oficial da inflação, o IPCA, no quarto trimestre de 2027 — o atual horizonte relevante de política monetária — subirá de 3,5% para 3,6%. 

Apesar da piora no balanço de riscos, a XP avalia que o nível atual de juros permite a manutenção do ciclo de cortes. “Entendemos que, na avaliação do Comitê, os juros ainda estão excessivamente elevados e, portanto, podem ser reduzidos. Especialmente à luz da queda recente nos preços do petróleo, os quais vêm merecendo destaque na comunicação do Copom”, escrevem os economistas. 

Câmbio pressionado e reaceleração da demanda

A cautela do Copom deve ser motivada pela composição da inflação e a taxa de câmbio, que acenderam sinais de alerta. O real deixou de ajudar a conter as projeções inflacionárias e sofreu uma depreciação de cerca de 2% nas últimas semanas, com a cotação de referência subindo para a faixa de R$ 5,10. Além disso, a média dos núcleos do IPCA tem oscilado em torno de 5,5%, patamar que beira o dobro da meta central de 3% perseguida pelo Banco Central. 

Essa pressão sobre os preços ocorre em meio a uma expressiva reaceleração da demanda. O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre registrou um crescimento anualizado superior a 4,0%. Segundo os analistas, esse avanço é explicado, em grande medida, pelo amplo conjunto de medidas fiscais e parafiscais implementadas pelo governo desde o final do ano passado. Tais estímulos possuem um impacto potencial estimado em 1,5 ponto percentual sobre o crescimento anual, limitando a ociosidade da economia. 

Choques externos e gargalos de oferta

No cenário internacional, os choques globais de oferta persistem. O documento destaca o aumento da inflação ao produtor na Ásia, reflexo da pressão nos custos de insumos tecnológicos gerada pela forte expansão dos investimentos atrelados à Inteligência Artificial (IA).

Adicionalmente, as chances de um fenômeno climático El Niño severo cresceram, o que pode resultar em menor produção agrícola e elevar os preços dos alimentos a partir do segundo semestre deste ano. 

O futuro da Selic e a comunicação

O foco das atenções do mercado financeiro deve se voltar ao comunicado pós-reunião. A XP avalia que o Banco Central evitará indicar explicitamente o término do ciclo de flexibilização monetária, optando por manter espaço para cortes adicionais caso o cenário evolua de forma favorável. No entanto, a expectativa é que o Comitê retire de seu texto oficial a tradicional menção aos “próximos passos da calibração dos juros”, sinalizando que uma pausa pode ocorrer em breve. 

O cenário-base inclui mais duas reduções de 0,25 p.p. na taxa Selic, segundo a XP, o que levaria os juros a 14% até o fim do ano. Contudo, considerando os desafios à frente, os economistas alertam que o Comitê pode optar por interromper o ciclo após a redução desta semana, pausando a Selic em 14,25%. 

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A retomada dos cortes mais sólidos ficará restrita ao próximo ano e estará condicionada ao avanço de reformas que coloquem as contas fiscais brasileiras em uma trajetória mais sustentável. Sob essa hipótese, e considerando a postura mais conservadora de curto prazo para conter as pressões correntes, a corretora projeta que a taxa Selic encerrará 2027 no patamar de 11,50%.