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O crescimento de 0,1% em março da indústria brasileira reflete uma economia resistente frente aos juros altos e aos impactos da guerra no Oriente Médio. O resultado divulgado nesta quinta-feira (7) pelo IBGE, que representou a terceira expansão consecutiva no ano, mostra que o setor avançou 1,4% no primeiro trimestre de 2026 comparado ao final do ano passado, revertendo a queda de 0,6% observada no último trimestre de 2025.
O avanço ficou ligeiramente acima das estimativas do mercado, que projetava uma retração de 0,1% para o período. Na comparação interanual, a produção da indústria registrou uma expansão de 4,3% em março, a maior desde outubro de 2024, acumulando um ganho de 3,1% nos três primeiros meses do ano civil.
Segundo economistas, o desempenho da indústria corrobora a projeção de que o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar acima de 1,0% no primeiro trimestre. Contudo, o ambiente ainda segue desafiador, especialmente para a indústria de transformação, que enfrenta o peso de taxas de juros elevadas, condições de crédito restritivas e o aumento nos custos das matérias-primas provocado pela volatilidade geopolítica externa.
| Produção Industrial | |
| Março 2026 / Fevereiro 2026 | 0,10% |
| Março 2026/ Março 2025 | 4,30% |
| Acumulado no ano | 1,30% |
| Acumulado 12 meses | 0,40% |
| Média móvel trimestral | 1,00% |
O relatório do Goldman Sachs sobre o desempenho do setor aponta que a indústria vem enfrentando dificuldades desde meados de 2024, mas “parece ter dado a volta por cima no primeiro trimestre de 2026″.
“Para o futuro, espera-se que o setor industrial encontre apoio em significativas transferências fiscais para as famílias, na expansão da massa salarial real da economia e em políticas industriais patrocinadas pelo governo, mas continue a enfrentar dificuldades devido às condições monetárias e financeiras restritivas”, diz o documento.
Na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, a indústria brasileira continuará crescendo nos próximos meses, mas a restrição monetária e os custos mais elevados de energia e matérias-primas (causados pela guerra no Oriente Médio) devem trazer algum impacto ao setor. Ainda assim, Margato avalia que o mercado de trabalho aquecido e as medidas de estímulo do governo devem sustentar a demanda no curto prazo.
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Para Rafael Perez, economista da Suno Research, o desempenho da indústria neste início de ano é marcado por uma “recuperação expressiva”, reflexo do crescimento mais forte da atividade econômica, reaceleração da demanda, um cenário internacional mais favorável para a indústria extrativa e a base de comparação mais baixa herdada do final de 2025.
Guerra no Oriente Médio impulsiona indústria extrativa
A maior contribuição para o nível de atividade da indústria não veio da demanda por bens manufaturados, mas das cadeias globais de energia.
O segmento de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis registrou alta de 2,2% em março, sua quarta alta seguida, acumulando ganhos de 11,5% de dezembro até o fim do primeiro trimestre. Esse movimento ocorre, principalmente, devido à expansão da produção nacional de petróleo e gás natural.
Essa dinâmica atrelada às commodities e aos conflitos geopolíticos no exterior, no entanto, introduz um forte risco inflacionário ao setor produtivo.
Thiago Figueiredo, diretor de investimentos da Intra, destaca que o resultado de março teve maior relação com a recomposição de cadeias específicas, estimuladas por tensões no Oriente Médio, do que com um consumo robusto. “O risco do petróleo, hoje, com Brent acima de US$ 107 por causa do impasse entre Estados Unidos e Irã, é a frente mais dinâmica e perigosa, porque pressiona custos de produção, encarece insumos químicos e fertilizantes e ameaça a margem das empresas que já operam pressionadas”, afirma André Matos, CEO da MA7 Negócios.
Consumo das famílias e a retomada dos bens duráveis
Apesar da pressão de custos, a indústria pode reagir a estímulos vindos do mercado interno. Sustentado por um mercado de trabalho aquecido, a produção de Bens de Consumo Duráveis exibiu uma recuperação de 3,5% no primeiro trimestre em relação aos três meses anteriores, liderando as grandes categorias econômicas. Em março, isoladamente, o segmento avançou 1,7%, destaca Margato.
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Ele avalia que a expansão desse grupo foi puxada pelo avanço do segmento de Veículos Automotores, que reportou alta de quase 6% em relação ao trimestre anterior. O programa governamental Carro Sustentável, focado em fomentar o comércio de carros elétricos, tem sido o catalisador dessa expansão setorial, segundo o economista da XP.
| Produção Industrial por Categorias Econômicas | ||||
| Categorias | Março 2026 / Fevereiro 2026* (%) | Março 2026 / Março 2025 (%) | Acumulado Janeiro-Março (%) | Acumulado nos últimos 12 Meses (%) |
| Bens de Capital | 0,6 | 6,5 | -6,3 | -4,1 |
| Bens Intermediários | 0,5 | 2,9 | 1,7 | 1,6 |
| Bens de Consumo | 0,5 | 6,7 | 1,7 | -1,3 |
| Duráveis | 1,7 | 18,7 | 1,6 | 0,3 |
| Semiduráveis e não Duráveis | 0,4 | 4,6 | 1,8 | -1,6 |
| Indústria Geral | 0,1 | 4,3 | 1,3 | 0,4 |
Simultaneamente, os bens de consumo semiduráveis e não duráveis garantiram alta de 0,4% em março, ajudando a assinalar crescimento de 1,5% no primeiro trimestre devido a uma retomada gradual no setor farmacêutico e de bebidas.
Vale destacar a reação pontual da produção de Bens de Capital, que avançou 0,6% em março, configurando o terceiro resultado mensal positivo. Apesar dessa surpresa positiva no dado mensal, a categoria ainda encerrou o primeiro trimestre de 2026 com recuo de 1,1%, impactada pelas altas taxas de juros e pelo alto endividamento das corporações, aponta Margato.
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Projeções para o PIB de 2026
O primeiro trimestre de ganhos na indústria consolidou as revisões das instituições financeiras em relação à trajetória de crescimento do Brasil neste ano.
Com a leitura da aceleração dos insumos típicos da construção civil e a resiliência na produção de veículos, a equipe econômica do Bradesco estima um avanço no PIB de aproximadamente 1% no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses de 2025, traçando uma meta de 1,6% de expansão em todo o ano de 2026.
A equipe da XP projeta expansão do PIB em 1,1% no começo de 2026, com uma manutenção de projeção anual estimada em 2,0%.
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O Bradesco projeta avanço de 1,6% no PIB do ano, com investimentos ainda enfraquecidos.
A Suno Research estima que o PIB deve variar 1,8% no ano.
A sustentação dessa trajetória dependerá da calibragem da política monetária e da absorção do choque de custos que assola a oferta global. “A Selic em 14,50%, ainda em patamar contracionista, é hoje o principal vetor que freia investimento, encarece capital de giro e desestimula consumo de bens duráveis, e isso pesa especialmente na indústria de transformação”, aponta André Matos.
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Segundo as análises, a atividade industrial alcançou uma resiliência operacional, mas ainda precisa de vigor para acelerar seu ciclo de investimento de forma homogênea.
“Com juros elevados, não existe espaço para expansão desorganizada”, alerta João Kepler, CEO da Equity Group. Para ele, o resultado não aponta para uma arrancada da economia, mas para um cenário em que o crescimento virá sobretudo da “execução, inovação e eficiência operacional”, enquanto o Brasil passa por juros altos locais e a complexidade energética do cenário global.