Preços sazonais afetam prévia do IPCA de janeiro, mas serviços ainda preocupam

Alimentos tiveram alta, puxados por preços de tubérculos e carne, cuja oferta tem característica cíclica; habitação teve deflação, por conta de menor pressão de energia elétrica

Roberto de Lira

 (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Publicidade

Métricas de inflação captadas em janeiro sempre sofrem a influência da sazonalidade natural do início do ano, além da variação de preços muito voláteis — e não foi diferente em 2026. O primeiro IPCA-15 do ano, divulgado hoje pelo IBGE ficou em 0,20%, abaixo tanto do índice de dezembro (0,25%) como da mediana das projeções. Mas o indicador acumulou alta de 4,50% nos últimos 12 meses, acima dos 4,41% observados em dezembro.

“O resultado cheio relativamente mais ameno não deve ser confundido com uma composição essencialmente benigna do indicador de inflação, que contou com resultados difusos de seus principais grupos para alcançar o resultado em questão”, pondera Matheus Pizzani, economista do PicPay.

A primeira prova de que a sazonalidade interferiu no indicador vem do grupo Alimentação e Bebidas, que tem o maior peso no índice, e acelerou na passagem de dezembro (0,13%) para janeiro (0,31%).

Aproveite a oportunidade!

E houve uma interrupção da sequência de sete meses consecutivos de queda na alimentação no domicílio, que subiu 0,21% em janeiro. Contribuíram para esse resultado as altas do tomate (16,28%), da batata-inglesa (12,74%), das frutas (1,65%) e das carnes (1,32%).

Leia também: O que esperar da inflação de Serviços em 2026? Preços devem desafiar o IPCA

Para Pizzani, a composição do resultado contou com alta tanto de componentes cuja volatilidade em termos de preço se dá em curtos espaços de tempo, como tubérculos, raízes e legumes (+10,17%), quanto por alimentos cuja oferta possui característica cíclica, caso da carne.

Continua depois da publicidade

“Para fins de projeção para o mês de janeiro, esta composição leva a crer que o grupo como um todo tende a apresentar algum arrefecimento, embora um cenário de deflação, como visto em boa parte do segundo semestre de 2025, está praticamente descartado em função da alta dos elementos cíclicos”, comenta.

Altas e baixas

O comportamento heterogêneo dos preços foi destacado em comentário de André Valério, economista sênior do Inter. Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, apenas Habitação e Transportes apresentaram deflação, de 0,26% e 0,13%, respectivamente. A deflação em Habitação refletiu a mudança da bandeira tarifária de amarela para verde, o que gerou uma queda de 2,91% em energia elétrica residencial.

Em Transportes, por sua vez, a deflação ocorreu a despeito da alta de 1,25% em combustíveis, puxada pela alta de 1,01% na gasolina. A deflação foi reflexo da queda de 8,92% na passagem aérea e de 2,79% em ônibus urbano.

Para Valério, na análise qualitativa, no entanto, o resultado de hoje aponta para uma piora na margem, assim como aconteceu com o IPCA cheio de dezembro. A média dos núcleos saltou de 0,32% para 0,43%, enquanto a inflação de serviços recuou de 0,7% para 0,15%, neste caso muito influenciada pela queda em passagens aéreas. Excluindo esse item, a inflação de serviços teria sido de 0,36%.

Leia também: Inflação no intervalo da meta e renda fixa: hora de travar taxa ou manter a proteção?

Na opinião de Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o alívio vindo das passagens aéreas ajuda a conter o número cheio, porém não altera o diagnóstico central: “os núcleos seguem resilientes, com serviços subjacentes e bens industrializados mostrando persistência”.

Continua depois da publicidade

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, concorda com essa leitura. “Do ponto de vista qualitativo, observou-se uma leve piora na margem, com avanço de indicadores relevantes acompanhados de perto pelo Banco Central. Na variação mensal, houve uma aceleração dos serviços subjacentes, dos serviços intensivos em mão de obra, da média dos núcleos e do índice de difusão, sinalizando uma composição menos favorável do resultado corrente”, comenta.

Ele destaca ainda que a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada, que captura melhor a tendência subjacente da inflação, registrou deterioração tanto na média dos núcleos, que passou de 3,50% para 3,58%, quanto nos serviços intensivos em mão de obra, que aceleraram de 7,45% em dezembro para 8,02% em janeiro.

“Permanece a preocupação com os serviços intensivos em mão de obra, que seguem refletindo o dinamismo persistente do mercado de trabalho e constituem um dos principais focos de atenção para a condução da política monetária.”

Continua depois da publicidade

A leitura de Heliezer Jacob, economista do C6 Bank também é de que os preços dos serviços subjacentes — que excluem itens mais voláteis, como passagens aéreas — continuam rodando em nível elevado, com alta de 5,6% até janeiro. “Essa diferença ajuda a explicar por que, apesar de algum alívio pontual no índice cheio, o controle da inflação segue sendo uma tarefa difícil”.

Os economistas citados não acreditam que os dados divulgados hoje possam ter influência na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira. A maioria dos especialistas opina que decisão será de manutenção da taxa Selic em janeiro, com o início dos cortes previsto para março.