Por que a queda de preços no atacado demora a chegar no varejo? Os economistas explicam

Preços industriais recebem impacto benigno de commodities e câmbio, mas incerteza econômica freia repasse mais rápido e intenso

Roberto de Lira

(AndreyPopov/Getty Images)

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A inflação dos produtos no atacado vem em tendência acelerada de queda desde meados do ano passado, mas os preços no varejo, embora também experimentem um momento de desinflação, não têm acompanhado essa velocidade. Por que essa defasagem acontece? Especialistas apontam que há, naturalmente, diferenças na natureza da coleta de informações, mas que as incertezas sobre o comportamento da economia ao longo do ano e fatores conjunturais também têm interferência no descasamento.

Um exemplo dessa diferença é na comparação do comportamento entre o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), calculado pela FGV, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação, divulgado pelo IBGE.

O IGP-M, indicador com forte presença de preços ao produtor, mostrou deflação de 0,95% em abril, atingindo queda de 2,17% em 12 meses. Isso após o indicador ter batido numa alta de 8,59% em agosto do ano passado. Já o IPCA saiu de uma alta acumulada de 8,73% para 4,18%, na mesma comparação.

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As explicações para essa lacuna que impede o repasse total da queda nas duas pontas são variadas. Ariane Benedito, economista e responsável pela área de relações com investidores da Esh Capital, destaca em primeiro lugar a diferença de cálculo de um indicador para o outro. “Dentro do IPCA, tem apenas 30% da base (de produtos) do IGP-M, que é o IPA. Essa diferença de cálculo dificulta que eles tenham a mesma magnitude, o mesmo sentido imediatamente”, afirma.

Segundo a economista, é quase como se o IGP-M fosse uma proxy (aproximação) do IPCA. “A gente espera o efeito, mas no curto prazo tem uma defasagem do repasse de um para o outro, porque a base de cálculo é diferente”, afirma.

Isso explica, por exemplo, porque os choques de preços têm um impacto mais forte e imediato do IGP-M e demoram um pouco para chegar ao consumidor final e, muitas vezes, numa dose menor. O recente reajuste para baixo nos combustíveis pela Petrobras, por exemplo, deve ter peso forte sobre o índice de inflação a FGV por contaminar toda a cadeia produtiva e vai impactar primeiro no produtor, lembra Ariane. Depois, tende a ser corrigido chegará ao consumidor final com defasagem. E com peso ainda menor dentro do IPCA.

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Nesse ponto, outros fatores passam a exercer forte influência parta conter um repasse maior e mais rápido entre os preços ao produtor e ao consumidor. Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, destaca que preços de itens como alimentos, medidos no IPA-Agro, fazem essa transferência mais rápida, entre um mês e um mês e meio, mas com os preços industriais isso demora mais um pouco por outras influências.

“A incerteza de cenário faz com que o repasse da inflação no atacado demore mais para acontecer no varejo. E tem esse fator de incerteza no cenário muito presente hoje. Isso é grande explicação do porquê a gente ainda não viu movimentos mais significativos de queda de industriais no varejo”, explica.

Alex Agostini, economista chefe da Austin Rating, diz que a manutenção da incerteza também é responsável por movimentos de alta dos IGPs mostrarem mais velocidade rumo aos IPCs do que quando há uma tendência de queda, como atualmente. “No momento de desaceleração econômica, dificilmente há um repasse, fica represado”, afirma. A explicação é que, como o varejista acredita que vender menos, dá uma segurada no repasse e mantém sua margem, uma vez que as expectativas são de o PIB vai desacelerar.

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A economista da Galapagos concorda com essa visão. “A incerteza do cenário influencia sim a formação de preços. Esse é um exemplo claro de como as expectativas futuras influenciam a formação de preços corrente. Está tendo uma queda de custos no atacado que está sendo repassada muito tenuamente no varejo. A expectativa do futuro é tão incerta e você tem um pé atrás tão grande que faz com que não repasse a melhora de custos tão fortemente no curto prazo”, justifica Tatiana Pinheiro.

Ela explica que os varejistas tiveram alguns anos de baixo faturamento, de resultados ruins, e agora provavelmente estão se aproveitando de resultados melhores, enquanto a demanda forte ainda sanciona o preço que ele está colocando para a venda no varejo.

Commodities em queda

Mas também há movimentos recentes que colabora para a forte queda de preços industriais. Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, cita como exemplo a queda nas commodities em dólar, por conta da desaceleração do crescimento global e das últimas surpresas negativas com a atividade econômica chinesa.

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A visão de Andrea Damico é que essa queda nas commodities em reais que está sendo observada na ponta nas últimas semanas ainda nem apareceu nos IGPs com toda a magnitude, o que “contrata” indicadores mais tranquilos nos próximos meses. “Va facilitar o processo de desinflação de bens industriais”, prevê.

Um componente externo que exerce forte impactos nesse momento é exatamente o enfraquecimento do dólar no mundo, lembra Andrea, que acontece por conta de os Estados Unidos estarem próximos de interromper o ciclo de alta dos juros. Isso num momento em que o país está com um problema de crédito nos bancos e lutando para impedir uma recessão.

“O real está se apreciando e isso não é muito comum. O que normalmente acontece quando as commodities caem, é que o real se deprecia, porque somos exportadores de commodities. Ou as commodities sobem e o real se aprecia. E o que a gente está vendo agora é uma queda de commodities, em dólar, com uma apreciação cambial. Isso é extremamente poderoso e desinflacionário”, afirma.

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Ariane Benedito, da Esh Capital, também cita a flutuação da moeda como fator que contribui para o recuo mais forte e rápido nos preços do atacado. Ele lembra que isso ocorreu com mais nitidez também em 1999, quando o Brasil passou a ter uma política de câmbio flutuante, e em 2020, no início da pandemia.

“Teve uma apreciação muito forte por base de risco e também por política monetária lá fora, o que fortaleceu o dólar”, comenta, destacando que nessas fases, o real acabou ficando bastante depreciado. “Agora, a gente está vivendo o inverso: tem a moeda se apreciando e uma lentidão para impacto de produtos e serviços que tem maior ligação com a moeda”, diz.

Agostini também destaca a pressão de queda nos preços de commodities nos IGPs, especialmente entre os produtos básicos. “No caso dos IGPs, o que tem feito esse número ficar no negativo são os preços do atacado, principalmente a parte de commodities, como minério de ferro, e também agrícolas, como soja, milho e carne bovina”, lista. Ele explica que, quando esses itens são processados e industrializados, seguem para o varejo e suas variações não aparecem muito no IPCA cheio porque o peso dos serviços no indicador é muito forte. E esses preços estão muito resilientes no momento.

O economista da Austin aponta que é possível observar a diferença nos comportamento dos grupos de preços do IPCA numa conta de média simples: no primeiro quadrimestre do ano, os preços livres dentro do indicador oficial de inflação subiram, em média 0,51%, enquanto os preços administrados avançaram 1,19% e os de serviços tiveram média de 0,70%.

“A transferência dos preços, da deflação do atacado, não está chegando no varejo e não está trazendo o IPCA para baixo justamente porque o que está segurando são administrados e também os preços dos serviços”, conclui.

Expectativas

Uma questão que fica é se essa movimentação para baixo dos preços no atacado terá poder de reduzir as expectativas de inflação, ao menos no curto prazo.

Isso não significa, claro, que os preços industriais não estejam em movimento de queda também dentro do IPCA. Tatiana, da Gapagos, conta que tem acompanhado um núcleo dos chamados “tradebles” (bens comercializáveis externamente) industriais em 12 meses, que está atualmente mostrando uma alta em torno de 6%. A inflação de industriais estava em 10% no quarto trimestre do ano passado e recuou para 7,5% em abril.

Mas existe uma perspectiva que boa parte dessa queda chegue até os consumidores. Andrea Damico acredita que sim. “Não tem muita escapatória. Tem uma desaceleração contratada dos bens industriais, tendo em vista o que a gente está vendo no varejo. Vai aparecer ainda. Isso irá acontecer ali nos próximos meses, ainda mais com os juros restritivos”, afirma. “A tendência estrutural é muito favorável para esse processo de desinflação dos bens industriais”, complementa.

Ariane Benedito concorda, mas diz que isso também vai depender de outros fatores, voltando a citar a redução da incerteza como ponto a observar. “Tem a questão fiscal, que é o principal vetor hoje de risco e de volatilidade para todas as projeções e que tem um peso muito grande”, comenta. Ela destaca que notícia como a aprovação da urgência da votação do projeto do novo arcabouço fiscal melhora as expectativas para a inflação.

Para ela quanto mais desidratado pelo Congresso for o texto original apresentado pelo governo for, melhor para o mercado, pois mais confiança vai ser gerada. A volta da âncora da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no relatório foi um dos pontos elogiados.

Outra questão citada que tende a contribuir bastante para a expectativa de inflação mais baixa é o reajuste para baixo dos combustíveis, uma vez que contamina a cadeia de preços. “Se eles mantiverem essa medida para o prazo mais longo, vai ter um impacto de desaceleração um pouco maior no IPCA”, afirma.