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Embora os dados de inflação nos Estados Unidos e de seu núcleo ainda estejam distantes da meta buscada pelo Federal Reserve, de 2% ao ano, a divulgação do PCE de abril começou a dar sinais de perda de força, segundo a análise de economistas e de bancos de investimento. A leitura cheia do índice de inflação do consumo, o preferido pelo Fed para definir a taxa de juros, ficou em 0,40%, enquanto o núcleo da variação de preços foi de 0,2%.
O Morgan Stanley destaca que as revisões de alta para os meses anteriores e a leitura de abril apontam que inflação do núcleo do PCE está rodando a uma taxa anualizada em 3 meses de 3,78% (ante 4,56% em março), a uma taxa em 6 meses de 3,79% (ante 3,76% um mês antes), e a uma taxa em 12 meses de 3,29% em abril (ante os 3,24% em março).
“Achamos que abril — a menor leitura do núcleo do PCE até agora neste ano, apesar do efeito de devolução do shutdown em aluguel/abrigo (shelter) — marca o início de uma trajetória gradual de desinflação à frente”, diz o Morgan. “Projetamos a inflação do núcleo do PCE em 2,9% no critério q4/q4 em 2026”, complementa.
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O banco de investimentos pondera que, se o choque de petróleo se mostrar mais persistente do que o esperado, os transbordamentos de custos de energia mais altos para a inflação subjacente podem se tornar mais relevantes e atrasar esse processo de desinflação.
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, diz que o PCE de abril trouxe um sinal ambíguo, porém ela concorda com a narrativa sobre o estado da desinflação americana.
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Ela destaca que o índice cheio acelerou para 3,8% ao ano, maior patamar desde 2023, puxada essencialmente por energia. “O conflito no Oriente Médio elevou os preços de gasolina de forma abrupta em março e o repasse ainda contaminou abril. Essa parte é, em alguma medida, exógena.”
Porém, o núcleo, por outro lado, desacelerou no mês. “E tem serviços como vetor persistente: habitação, recreação e alimentação fora de casa seguem pressionados, com o componente de moradia ainda acima de 3% ao ano, longe de convergir.”.
Ela também detalha que, no lado dos bens, houve reversão clara em veículos após meses de antecipação de compras motivada pelo medo de tarifas – a queda reflete a normalização de um pico artificial.
“O dado não recoloca uma discussão de alta de juros, mas também não abre espaço para afrouxamento acelerado. Com o núcleo a 130 pontos-base acima da meta e a inflação de serviços persistente, o Fed segue sem as evidências necessárias para validar um ciclo de cortes mais consistente”, comenta.
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A economista do PicPay acrescenta um detalhe importante em sua análise, sobre um dado que vai além da inflação: a renda pessoal ficou estagnada, o gasto real desacelerou para 0,1%, e a taxa de poupança caiu para 2,6%.
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“Isso significa que, o consumidor está gastando mais do que ganha para sustentar o consumo nominal sob pressão inflacionária. Isso pode ser desinflacionário à frente pela via da demanda, mas também sugere que um eventual ciclo de afrouxamento pode vir motivado por fragilidade do consumidor e não por meta cumprida, se o Fed seguir a tradição de priorizar atividade”, explica.
Para ela, o cenário nos próximos meses é de desinflação lenta e não linear. O risco de alta vem do petróleo, com o Brent acima de USD 100 o barril e o conflito no Estreito de Ormuz ainda ativo, qualquer escalada contamina diretamente o índice cheio. “As tarifas também ainda não se transmitiram integralmente aos preços ao consumidor, o que mantém pressão latente sobre bens. Do outro lado, a combinação de poupança comprimida e renda real em queda tende a moderar a demanda à frente, o que pode ajudar na desinflação de serviços.”
Surto inflacionário cedendo
Na opinião de Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, apesar dos riscos para a atividade, o PCE de abril trouxe um alívio marginal, embora ainda sustente uma composição desafiadora.
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Ele destaca que, por dentro, a inflação ainda reflete pressões estruturais: bens saltaram 0,7% (puxados por +5,5% na gasolina), e habitação subiu 0,5%, maior ganho desde o início de 2025. Em contrapartida, o setor de serviços excluindo energia, alimentos e habitação trouxe alívio ao desacelerar para 0,2%.
“Esse cenário sugere que o surto inflacionário mais agudo começa a ceder, mas as métricas anuais continuam persistentes e distantes da meta de 2%. Em paralelo, o mercado de trabalho segue em estabilização gradual, com os pedidos iniciais de auxílio-desemprego em 215 mil, levemente acima do esperado (213 mil).”
Assim, Lobo diz que o cenário permanece nebuloso, uma vez que os números dão algum respaldo ao novo chairman do Fed, Kevin Warsh, que defende a possibilidade de juros menores, mas a persistência inflacionária deve enfrentar forte oposição no restante do Fomc.
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“Diante desse balanço de riscos, a tendência é de manutenção de juros elevados por mais tempo, com o mercado descartando cortes até o fim de 2026 e já precificando o risco de uma elevação residual no início do próximo ano.”
Para Leonel Oliveira Mattos, analista em inteligência de mercado da Stonex, a alta ligeiramente menor da inflação PCE de abril e do PIB do primeiro trimestre diminuíram as preocupações com pressões inflacionárias nos EUA, bem como reduzem o rendimento dos títulos do Tesouro americano, favorecendo um enfraquecimento do dólar.
Andressa Durão, economista do ASA, comentou que, apesar do ambiente inflacionário, o núcleo do PCE de abril veio abaixo do esperado pelo mercado, com surpresas principalmente em serviços de saúde.
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“A segunda leitura do PIB do primeiro trimestre trouxe revisão de baixa, puxada por um consumo de serviços e investimentos mais baixos, que levou a uma pequena revisão do indicador de demanda final. Ainda que os dados tenham vindo mais fracos que o consenso, o cenário ainda é de risco inflacionário com atividade forte, que sugere política monetária restritiva”, adverte.
Na opinião de William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a inflação ainda está “quente” nos Estados Unidos e continua afetando as carteiras e os bolsos dos americanos, porém num ritmo menor. “Também teve também a revisão do PIB para baixo, então eu diria que no net, o dado de hoje PIB mais PCE, mostram que a economia americana está resiliente: está crescendo, mas talvez um pouco menos do que aquilo que inicialmente se previa”, analisa.
“A inflação é um problema, mas talvez um pouco menor do que o que estava sendo esperado, e isso pode trazer uma certa calma para os yields que vinham subindo bastante, especialmente na semana passada.”