Para Zylbersztajn, preço baixo do petróleo pode atrasar a transição energética

Ex-diretor da ANP lembrou no InfoMoney Entrevista que fatia de fósseis caiu apenas 5 pontos percentuais desde 1990 e que preços do petróleo estão competitivos ante os renováveis

Roberto de Lira

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O grande foco que tem sido dado na exploração de combustíveis fósseis e os preços do petróleo em patamares que podem ser considerados baixos nos últimos anos pode, objetivamente, reduzir a velocidade da transição energética em direção a fontes renováveis, avaliou no InfoMoney Entrevista o pesquisador e professor da PUC-RJ David Zylbersztajn, que foi o primeiro diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

O especialistas destacou na entrevista que os grandes movimentos ambientalistas no mundo batem sempre na tecla da redução progressiva da dependência de combustíveis fósseis. Mas Zylbersztajn afirmou que, embora isso esteja acontecendo o movimento é muito lento que o citado.

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Ele lembrou que, em 1990, o mundo tinha uma dependência de 85% dos combustíveis fósseis, enquanto no ano passado, essa conta tinha baixado para 80%. “Mesmo que que essa velocidade aumente, nós chegar daqui a 25 anos dependendo de 60%”, calculou, lembrando que a oferta da commodity não deve cair muito, enquanto a demanda será crescente. A expectativa, disse é que petróleo pode perder participação nas matrizes energéticas, mas uma participação percentual – em termos de volume, essa queda não se materializará nos próximos anos.

E a questão do preço ainda competitivo é outro fator a considerar, disse Zylbersztajn. A explicação é que, mesmo quem enxergar uma oportunidade de trocar seu óleo combustível ou seu diesel por um combustível com menor teor de carbono, vai fazer uma conta e enxergar a  competitividade da fonte fóssil.

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Margem Equatorial

Sobre a licença ambiental que a Petrobras (PETR4) obteve para explorar a chamada Margem Equatorial, Zylbersztajn afirmou que as críticas foram exageradas, até porque a questão ambiental já havia sido resolvida com o Ibama. Ele disse que viu muito dogmatismo, má fé ignorância, especialmente quando se fala em explorar a Foz do Amazonas. “Não é na Foz do Amazonas, foca a 600 quilômetros de lá”, esclareceu, reforçando que a área chamada de Bacia Sedimentar da Foz do Amazonas se estende.

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Outro ponto citado por Zylbersztajn é que os investimentos para a exploração na região poderiam resolver questões de injustiça social, porque o Amapá, por exemplo, é estado que tem apena 7% de cobertura de saneamento, com muito a avançar ainda em indicadores de saúde, educação e infraestrutura, como estradas. “Não vai ser com o dinheiro dos nossos impostos diretamente que isso vai acontecer”, frisou.

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Do ponto vista econômico, essa exploração também é benéfica, disse o pesquisador, porque  não faz sentido o Brasil, daqui a 10 anos, importar um petróleo que poderia estar produzindo por aqui. E transferir riqueza para outro país, para outra sociedade, que já é normalmente bem rica.

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