Nobel da Economia trata de inovação; mas quão inovador afinal é o Brasil?

Brasil inova em petróleo, aviação e farmácia, mas há gargalos, como as altas taxas de juros no país; veja o que diz especialista do Ipea

Élida Oliveira

Rio de Janeiro (RJ), 28/09/2023 - Vista aérea do navio-plataforma P-71, instalado no campo de Itapu, no pré-sal da Bacia de Santos, a 200 km da costa do Rio de Janeiro. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 28/09/2023 - Vista aérea do navio-plataforma P-71, instalado no campo de Itapu, no pré-sal da Bacia de Santos, a 200 km da costa do Rio de Janeiro. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

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O Prêmio Nobel de Economia, anunciado nesta segunda-feira (13), destaca a importância da inovação como motor essencial para o crescimento e desenvolvimento econômico. No Brasil, setores como petróleo, aviação e farmácia são apontados como destaque em inovação, mas as altas taxas de juros que freiam o investimento e a falta de prioridade à ciência com contingenciamentos e poucos recursos são gargalos ao nosso desenvolvimento. 

A análise é de Graziela Zucoloto, coordenadora-geral de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Ipea. 

A inovação na economia brasileira

Apesar de o Brasil ser uma economia de renda média com investimentos moderados em pesquisa e desenvolvimento (P&D), Zucoloto destaca que o país já apresenta avanços significativos em setores estratégicos como petróleo, aviação e, mais recentemente, no setor farmacêutico.

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Em petróleo, o país se destaca nas inovações do pré-sal. Na aviação, os investimentos na Embraer tornaram a empresa imune até ao tarifaço de Donald Trump. No setor farmacêutico, ela destaca o avanço dos genéricos. 

“Se a gente olhar o nosso investimento versus PIB histórico, ele era sempre próximo ao que a gente encontrava em países da OCDE, por exemplo. A distância entre o que a gente investia aqui e os países da OCDE investiam era muito baixa”, afirma Graziela Zucoloto.

“O que está por trás disso é política pública, não só para inovação stricto sensu, aquela que é para o mercado mundial, mas estamos falando de uma inovação que é feita também para o Brasil”, pontua. “Não são necessariamente medicamentos novos para o mundo, mas são medicamentos que melhoram as condições sociais e a produção aqui dentro”, analisa.

Inovação em sustentabilidade

A discussão sobre a “destruição criativa”, conceito abordado no Prêmio Nobel, é particularmente relevante para o Brasil, especialmente na relação com a sustentabilidade e tecnologias ambientais, na análise de Zucoloto.

Ela destaca que a destruição criativa implica em substituir processos e tecnologias existentes por modelos novos, o que é exatamente o que as tecnologias ambientais promovem. “O que está por trás desse conceito? É destruir o que existe, destruir os tipos de processo, os tipos de tecnologia que existem para substituir por um modelo novo. E é exatamente o que as tecnologias ambientais fazem”, explica a coordenadora. 

Neste contexto, o Brasil possui um grande potencial em segmentos sustentáveis, como a energia. Mesmo que a tecnologia em si (como placas solares ou pás eólicas) não seja brasileira, a capacidade de difundir essas tecnologias internamente altera os processos de produção, tornando-os mais sustentáveis. 

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“Na área ambiental, nem sempre a tecnologia em si é nossa, mas a nossa capacidade de difundir essas tecnologias aqui dentro faz com que os nossos processos de produção se alterem e a gente consiga produzir de uma forma mais sustentável. Então, a difusão também tem que ser algo central nesse debate”, ressalta Zucoloto.

Barreiras e gargalos

Apesar dos pontos positivos, o Brasil enfrenta barreiras que limitam seu potencial inovador:

Inovação não garante desenvolvimento social

Embora a inovação seja fundamental para o crescimento econômico, ela não garante necessariamente a diminuição da desigualdade ou o desenvolvimento social, pontua. 

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“Não necessariamente toda inovação promove o desenvolvimento social”, enfatiza Zucoloto. 

É possível ter inovações que promovam a concentração de renda ou que sejam mais poluentes. “Você pode ter inovações que sejam mais poluidoras, mesmo no setor de petróleo, que ajudem a poluir mais, que ajudem que não promovam o desenvolvimento, mas promovam a concentração de renda”, explica. 

O ideal é que as políticas públicas apoiem inovações que aumentem o bem-estar social, sejam ambientalmente sustentáveis e melhorem as condições de saúde da população.