Relatos da guerra

“Não sabemos como voltar”: a jornada de uma mãe pela Ucrânia invadida

Quase 400.000 pessoas fugiram para a Europa central até domingo, com filas nas passagens de fronteira que se estendem por quilômetros.

Por  Reuters -

BUCARESTE (Reuters) – Um dia antes de a Rússia invadir a Ucrânia, Iryna Kyrychenko e seu marido foram dormir pensando que levariam suas duas filhas pequenas para visitar a avó no dia seguinte.

Em vez disso, eles acordaram em sua casa em Kiev com sons de explosões de mísseis, arrumaram algumas roupas às pressas e fugiram.

Primeiro eles foram para casa de amigos em uma vila próxima, depois para uma cidade no oeste da Ucrânia, depois cruzaram a fronteira romena, deixando para trás o marido de Iryna, que aos 38 anos está em idade de alistamento.

Três dias depois, Iryna Kyrychenko, gerente de operações de 37 anos de uma empresa de tecnologia, e suas duas filhas, Xenia, de 11 anos, e Alisa, de 7, chegaram à capital romena, Bucareste, a quilômetros de distância de uma vida em Kiev que ela descreve como “muito simples, muito boa”.

Quase 400.000 pessoas fugiram para a Europa central até domingo, com filas nas passagens de fronteira que se estendem por quilômetros.

“Quando estávamos dirigindo, alguns foguetes explodiram perto de nós”, disse ela no quarto que Reservou em um hotel perto da principal estação ferroviária de Bucareste.

“Estava muito perigoso… as crianças agora estão com medo de aviões aqui e se em algum lugar da rua houver um grande barulho, elas ficam com medo.”

Ela contou que a viagem de 500 km do vilarejo não muito longe de Kiev até a cidade de Chernivtsi, no oeste da Ucrânia, perto da fronteira romena de Siret, levou 14 horas, e que nem todos os postos de gasolina tinham combustível.

O marido de Iryna as levou o mais próximo possível do posto de fronteira, mas a longa fila de veículos fez com que ela e suas filhas percorressem os últimos 6 km a pé.

Após uma espera de duas horas, elas cruzaram para a Romênia na manhã de sexta-feira, sendo recebidas por voluntários que carregavam comida, bebidas quentes e ofertas de transporte e hospedagem.

A voz dela falhou ao lembrar como “as crianças estavam chorando porque deixaram o pai”.

Depois de descansar por algumas horas na casa de um voluntário, Iryna Kyrychenko, que é russo-ucraniana, seguiu para Bucareste, onde agora passa horas nos canais do Telegram vendo fotos de sua cidade natal devastada e notícias de prédios civis sendo atingidos, incluindo um hospital infantil.

“Estamos com medo por nossos maridos, nossos irmãos e outros homens que ficam”, disse ela. “A vida em Kiev antes era muito simples, muito boa. Kiev é uma cidade muito bonita, muito antiga, tenho medo de que eles a destruam. Não sabemos como voltar.”

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