Mercado de trabalho caminha para “lenta” estabilidade, diz economista do FGV/Ibre

Análise de Daniel Duque, pesquisador associado do FGV Ibre, aponta lenta, mas consistente, desaceleração nos dados de emprego

Élida Oliveira

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O mercado de trabalho está caminhando para uma lenta, mas consistente, desaceleração na criação de vagas. Segundo o economista Daniel Duque, pesquisador associado do FGV/Ibre, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados nesta terça-feira (16), apontam uma força de trabalho abaixo da tendência de alta, o que seria um efeito do juro alto, da redução de produção de algumas indústrias penalizadas pelo tarifaço, e da redução de gastos públicos.

“Em termos de aumento da população ocupada formal, a gente tem visto uma lenta, mas consistente desaceleração. Ainda estamos no cenário positivo, mas como a PNAD Contínua é medida em trimestre móvel, significa que estamos vendo dados de julho, junho e maio. É um indicador que demora para mudar. Isso mostra que o mercado de trabalho ainda está no campo positivo, mas parecendo caminhar para momento de maior estabilidade, com tendência de parar de melhorar”, afirma Daniel Duque.

No gráfico abaixo, divulgado pelo IBGE, é possível observar a mudança no ângulo da linha que aponta a taxa de desocupação entre os trimestres de abril, maio e junho e maio, junho e julho.

Viva do lucro de grandes empresas

Fonte: Pnad Contínua / IBGE

O que isso mostra do andamento da economia?

Segundo Duque, os dados ainda não estão mostrando nada que faça o Banco Central (BC) reverter a tendência de aperto monetário. “No entanto, indicam que depois de muito tempo, de fato, os juros estão tendo algum efeito sobre o mercado de trabalho para aliviar a inflação de serviços”, explica.

Nesta quarta-feira (17), o BC deve anunciar a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 15%.

Esse aperto ocorre porque a economia ainda está aquecida, com dados recordes de emprego e renda. Na avaliação de Duque, isso ocorre porque as políticas fiscais do governo vão no sentido contrário à política monetária, causando uma disputa de forças – uma pressiona a inflação para cima, outra tenta segurar a alta.

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“Por que isso acontecia de fato? Porque a gente estava com a economia muito aquecida por políticas fiscais do governo indo no sentido contrário à política monetária, com aumento de transferências, obras públicas, crédito. O que está acontecendo agora é que devido ao cenário de maior esforço do governo de reduzir gastos e o choque de tarifas que afetam emprego em algumas indústrias, agora sim estamos vendo um cenário caminhando para o campo benigno em termos inflacionários”, diz o economista.

Taxa de desocupação recorde

Os dados da Pnad Contínua apontam uma desocupação de 5,6% no trimestre encerrado em julho, a menor taxa para a série histórica, iniciada em 2012. No trimestre móvel anterior, a taxa foi de 6,6% e no mesmo período do ano passado, foi de 6,9%.

A população ocupada também cresceu e somou 102,4 milhões de pessoas, outro recorde da série histórica. O rendimento real habitual de todos os trabalhos ficou em R$ 3.484, mais um recorde, crescendo nas duas comparações: 1,3% no trimestre e 3,8% no ano.

O número de trabalhadores por conta própria atingiu um recorde de 25,9 milhões de pessoas, e a taxa de informalidade ficou em 37,8% da população ocupada, estável em relação aos 38% do trimestre anterior e 38,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

O indicador de população subocupada por insuficiência de horas ficou estável no trimestre, chegando a 4,6 milhões de pessoas.

População fora da força de trabalho

A população fora da força de trabalho somou 65,6 milhões, também mantendo a estabilidade, segundo o IBGE.

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Segundo Duque, esta variável indica que não houve avanços comparado ao cenário pré-pandemia. “Todas as outras variáveis, como renda, formalidade, ocupação, tudo está melhor do que o período pré-pandemia, menos esta variável, o que demonstra que essas pessoas não voltaram ao mercado de trabalho”, afirma.

O risco, avalia, Duque, é essas pessoas terem saído do mercado de trabalho permanentemente, o que impactaria na perda de capacidade de produção da economia.