“Lua de mel” com a inflação acabou e BC deve cortar Selic “cautelosamente”, diz XP

Segundo economistas, as perspectivas permanecem sob pressão e a inflação acumulada em 12 meses voltará a ultrapassar o limite superior da faixa da meta no 4º trimestre; mas câmbio favorável pode ajudar o BC

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(Foto: Sasun Bughdaryan/Unsplash)
(Foto: Sasun Bughdaryan/Unsplash)

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Após uma sequência de surpresas baixistas na inflação que vinha desde maio, o IPCA-15 mostrou uma alta de 0,70% na comparação mensal de setembro, num sinal de “a lua de me acabou”, segundo análise do boletim Brasil Macro Mensal, que a XP divulgou nesta quarta-feira (7). Também é feito o alerta de riscos para a inflação estão se acumulando para 2027, mas a projeção é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) continuará a reduzir a taxa Selic cautelosamente (em 25 pontos-base) nas próximas reuniões.

A análise sobre o cenário para a inflação, assinada pelos economistas Basiliki Litvac e Alexandre Maluf, destaca que a aceleração já era esperada, refletindo o rebote do fim do crédito do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica.

No entanto, também foram citados outros aumentos antecipados, como na alimentação no domicílio e itens voláteis de serviços de transporte, como passagens aéreas, transporte por aplicativo e seguro de automóvel, que superaram as estimativas iniciais. “Da mesma forma, a inflexão esperada na trajetória de queda das medidas de inflação subjacente refletiu esses movimentos de forma um pouco mais forte do que o antecipado”, disseram.

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Para o IPCA cheio de setembro, os economistas esperam  um aumento semelhante ao da prévia, impulsionado pelo rebote nos preços de energia elétrica, pela incorporação de surpresas altistas recorrentes e pela retomada dos aumentos de preços de alimentos in natura — devido às chuvas acima da média histórica na região Sudeste — e da carne.

“As perspectivas permanecem sob pressão. A inflação acumulada em 12 meses voltará a ultrapassar o limite superior da faixa da meta no 4º trimestre. Os preços dos alimentos aumentarão ainda mais, refletindo condições climáticas adversas sob a influência do El Niño, que pode se intensificar até o final do ano, combinadas com sazonalidade menos favorável e preços mais altos da carne”, listaram.

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Segundo Litvac e Maluf, esses aumentos devem superar significativamente os observados no 4º trimestre de 2025. E a inflação de serviços, especialmente em categorias intensivas em mão de obra, deve permanecer resiliente, dado o mercado de trabalho ainda robusto e as medidas de estímulo fiscal e quase fiscal anunciadas.

A projeção é de que os preços do petróleo permanecendo próximos a US$ 100 por barril — acima da premissa da XP, de US$ 85 para este semestre — pressionam os reajustes dos preços dos combustíveis, que devem novamente se refletir nos custos de insumos de bens industriais e nos preços das passagens aéreas. “As chuvas mais intensas interromperam a moagem da cana-de-açúcar, revertendo grande parte da queda nos preços do etanol nas usinas observada entre o final de março e agosto — uma fonte adicional de pressão sobre os bens industriais e os preços da gasolina na bomba”, explicam.

Sobre os preços regulados, a análise é que os subsídios estão domando o repasse. Assumimos que os subsídios e as isenções fiscais serão renovados mensalmente até o final do ano, impedindo que as flutuações nos preços internacionais da gasolina e do diesel cheguem aos consumidores”, estimaram, acrescentando que está mantida a projeção de bandeira tarifária verde para as contas de energia elétrica em novembro e dezembro.

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Por conta dessa análise, a XP elevou a previsão do IPCA para 2026 de 5,0% para 5,1%, incorporando as recentes surpresas inflacionárias. E a projeção de inflação para 2027 foi elevada de 4,2% para 4,4%, uma vez que os riscos permanecem inclinados para cima.

El Niño e combustíveis

Sobre a possibilidade de um fenômeno climático El Niño mais forte e persistente do que o antecipado, a avaliação é de que isso pode afetar a oferta de alimentos por um período mais longo, tornando tanto o momento quanto a magnitude da reversão dos aumentos de preços mais incertos.

“Nesse caso, nossas estimativas apontam para um aumento de 0,20 a 0,25 p.p. no índice cheio. Segundo, tarifas de energia elétrica: as condições hidrológicas podem se tornar mais desfavoráveis se o El Niño for mais intenso, acionando bandeiras tarifárias com custos adicionais para os consumidores. Por exemplo, uma bandeira tarifária amarela em dezembro de 2027 adicionaria 0,10 p.p. à inflação”, escreveram.

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Sobre os preços dos combustíveis, os economista da XP acreditam que um período prolongado de conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, com instabilidade nos fluxos de transporte de petróleo e danos à infraestrutura de refino, pode ampliar ainda mais a defasagem entre as referências internacionais e os preços domésticos dos combustíveis.

“Se essa situação persistir, um realinhamento dos preços nas refinarias será inevitável. Um aumento de 10% nos preços da gasolina e do diesel nas refinarias adicionaria 0,16 p.p. e 0,01 p.p. ao IPCA, respectivamente.”

Outra fonte de incerteza a ser monitoradas pela XP é a implementação da nova estrutura do IPCA a partir de janeiro de 2027, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada entre 2024 e 2025. “Um aumento no peso dos serviços pode adicionar 0,10 a 0,20 p.p. à inflação cheia do próximo ano”, advertem.

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Eles também citam outro fatores a serem observados: a possível mudança no regime de jornada de trabalho semanal e os estágios iniciais da reforma tributária, que podem afetar os preços de serviços e bens.

Sobre os fatores atenuantes, são citados um Real (BRL) mais forte, refletindo um ajuste crível da política fiscal, uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica e a possível manutenção de uma postura de política monetária mais restritiva do que a assumida em nosso cenário base.

Copom “cauteloso”

Sobre as decisões de política monetária, a XP continua projetando cortes graduais nas taxas de juros nos próximos meses. Isso apesar dos sinais contrários, adverte o economista Rodolfo Margato. “Considerando o recente fortalecimento da taxa de câmbio e as indicações do Banco Central de efeitos de segunda ordem limitados — sobre preços e salários — decorrentes do choque energético global, não esperamos mudanças relevantes em seu “plano de voo” de cortes de juros.”

A XP, portanto, mantém suas projeções para a taxa Selic em 13,25% até o final de 2026 e 11,50% em 2027. Esse cenário considera reduções de 25 pontos-base nas próximas três reuniões do Copom (novembro, dezembro e janeiro), seguidas por cortes de 50 pontos-base até o final do primeiro semestre do próximo ano (março, abril e junho).

Na avaliação de Margato, tanto o ambiente doméstico quanto o global apresentam vetores opostos para as perspectivas da política monetária no Brasil.

Em relação ao front doméstico, ele cita que o enfraquecimento da atividade econômica está se tornando mais claro. “A desaceleração econômica é cada vez mais evidente e generalizada entre os setores. O baixo dinamismo da demanda doméstica e o aumento dos custos de produção dificilmente serão revertidos tão cedo”, afirma

Segundo o economista, espera-se que o PIB permaneça estagnado (ou se contraia moderadamente) no semestre atual, e que o próximo ano provavelmente será marcado por um crescimento econômico abaixo do potencial, “empurrando o hiato do produto para território negativo, o que contribui para o afrouxamento da política monetária.”

Por outro lado, os riscos de inflação estão aumentando, conforme a análise e as projeções da XP para 2026 e 2027.

Além dos fatores cíclicos, é citado o debate eleitoral e seu impacto sobre as perspectivas de reformas fiscais podem levar a diferentes trajetórias de taxas de juros, especialmente no médio prazo — a partir do segundo semestre de 2027).

É feita a ponderação de que, se a dinâmica cambial continuar favorável e as expectativas de inflação recuarem, o Copom poderia optar por acelerar o ritmo de afrouxamento monetário (para 50 pontos-base) já na reunião de dezembro.

“De acordo com nossas simulações, o modelo de projeção do Banco Central mostraria inflação em 2,9% no horizonte relevante atual para a política monetária (2º trimestre de 2028) se a taxa de câmbio permanecer em torno de 5,00 reais por dólar. Assumindo 4,80, por exemplo, a projeção de inflação do IPCA cairia para 2,7%. Tudo o mais constante, essa dinâmica permitiria uma queda adicional de cerca de 100 pontos-base na taxa básica de juros”, escreve Margato.

Segundo ele, as perspectivas de uma taxa Selic terminal mais baixa podem ganhar impulso se houver progresso na agenda de ajuste fiscal. “O cenário de continuação do afrouxamento monetário até meados de 2027 tem sido sustentado, por vários meses, pela expectativa de crescimento econômico abaixo do potencial e pela resiliência da taxa de câmbio em meio à turbulência global. Na ocorrência de medidas robustas de ajuste fiscal e uma consequente redução nos prêmios de risco, acreditamos que o Copom encontraria maior espaço para cortes de juros ao longo de 2027”, conclui.