Banco Central vigilante: por que liquidações não abalam sistema financeiro

As liquidações recentes de instituições como Will Bank e Banco Master refletem um ajuste de rota do Banco Central. Especialistas explicam por que o BC está mais conservador.

Élida Oliveira

Sede do Banco Central, em Brasília 18/12/2024 REUTERS/Adriano Machado
Sede do Banco Central, em Brasília 18/12/2024 REUTERS/Adriano Machado

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As recentes liquidações do Will Bank e do Banco Master podem dar a impressão de que o Banco Central (BC) está “demonstrando força” ao agir contra essas instituições. Mas, na verdade, não é exatamente isso que está acontecendo. Para economistas ouvidos pelo InfoMoney, o BC está vigilante.

As liquidações do Banco Master e Will estão interligadas, já que as instituições fazem parte do mesmo grupo operacional. Assim, trata-se de uma mesma liquidação, dividida em duas etapas – uma tentativa do BC em vender as instituições ou parte das operações, para minimizar as perdas. Não é, portanto, um colapso do sistema financeiro.

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Sistema sólido

Segundo Roberto Troster, que atuou como economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), e sócio da consultoria Troster & Associados, as liquidações não abalam a estrutura do sistema financeiro, nem tampouco representa uma “força” do BC. 

“Acho que o sistema financeiro é sólido. Não é estável, não é sustentável, não é eficiente, mas é sólido”, diz.

BC mais vigilante

Para o economista Alexandre Jorge Chaia, professor nas disciplinas de gestão de riscos financeiros e produtos bancários no Insper, o BC está “mais atuante” e “mais rigoroso” após um período de maior “leniência”. Ele se refere ao período de abertura do mercado para as fintechs, o que permitiu o maior acesso das pessoas desbancarizadas ao sistema.

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Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado quando a flexibilização completou dez anos, apontou que, naquele período, houve um aumento de 16,8% de novos participantes no mercado financeiro. A concorrência diminuiu os custos com tarifas bancárias e trouxe mais brasileiros para o sistema financeiro. Hoje, a popularidade das fintechs nas favelas é maior em relação aos “bancões”, de acordo com a pesquisa “Persona Favela – Bancarização”, divulgada em novembro do ano passado.

“Caiu a ficha do Banco Central de que, no momento da abertura da economia, ele foi mais leniente para fazer o sistema bancário crescer e permitir a entrada de mais pessoas na bancarização”, diz. Segundo Chaia, isso ocorreu porque o impacto das fintechs na economia geral é menor do que dos grandes bancos e, por isso, a vigilância e exigências de governança nestas instituições são menores também.

“Agora, o BC está mais atuante, mais rigoroso. Esse movimento vem ocorrendo desde as fraudes do INSS, da operação Carbono Oculto. O BC está mais conservador”, avalia Chaia.

Andre Trein, CIO e sócio do Clube do Valor, empresa de gestão, consultoria e educação financeira, também afirma que as liquidações não representam maior “rigor”, mas sim uma atuação do órgão regulador frente às irregularidades.

“O banco tinha de fato ali uma operação um tanto quanto arriscada e, no caso do Master especificamente, teve também alguns requintes policiais em torno de fraudes cometidas pelo banco, vínculos com políticos e talvez até com ministros do STF”, diz.

“As liquidações simplesmente reafirmam o papel do Banco Central de ser o xerife do mercado e cuidar para que riscos muito elevados não se formem, ou para que instituições do sistema financeiro não produzam riscos sistêmicos. Nestes momentos, obviamente o pessoal entende isso como um sinal, mas na verdade é rotina do Banco Central fazer essas análises e tomar todo dia decisões técnicas”, avalia.

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Para os economistas, o sistema financeiro não está “ruindo”. É exatamente o contrário que está acontecendo. A instituição está atuando para evitar que maiores rombos possam afetar o país – basicamente, está ajustando a rota após a recente flexibilização.

Sólido, porém lento

Para Troster, no entanto, o BC faz isso em uma velocidade menor do que a ideal. Ele critica a burocratização do sistema, e defende uma reforma para unificar a atuação do BC e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

“O sistema é muito sofisticado em muitos aspectos, mas ainda é devagar em outros. Eu acho que deveria haver uma reforma institucional no sistema. Banco Central e CVM deveriam ser uma instituição só”, defende.

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