Juros nos EUA: como o choque do petróleo pode impactar a decisão do Fed?

Com a inflação resiliente e os impactos de conflitos no Oriente Médio, o mercado prevê a manutenção da taxa de juros pelo banco central americano; atenções se voltam para o mercado de trabalho e as projeções de cortes.

Élida Oliveira

Sede do Federal Reserve, em Washington - 16/09/2025 (Foto: REUTERS/Aaron Schwartz)
Sede do Federal Reserve, em Washington - 16/09/2025 (Foto: REUTERS/Aaron Schwartz)

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Os Estados Unidos vão anunciar a definição do próximo ciclo de juros nesta quarta-feira (18) em meio a um cenário complexo que envolve inflação, mercado de trabalho e incertezas devido ao conflito no Oriente Médio.

A expectativa é que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, mantenha a taxa básica de juros inalterada no intervalo entre 3,50% e 3,75% – aposta de 99,1% do mercado, de acordo com a Ferramenta CME FedWatch nesta segunda-feira (16). 

Se, na reunião de janeiro, o presidente americano Donald Trump pressionava pela queda do juro, agora a ofensiva militar dos EUA sobre o Irã é o maior vetor da pressão pela manutenção do risco inflacionário em um ambiente em que os preços ainda estão longe da meta.

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Para o Bank of America (Bofa), a reunião vai ocorrer sob a sombra dos riscos do petróleo e da estagflação — quando há inflação alta e estagnação econômica.

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A manutenção dos juros e o alerta da inflação

Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, destaca que, apesar de alguns sinais, a atividade econômica nos Estados Unidos não demonstra desaceleração tão intensa quanto o esperado para juros tão altos. Já a inflação é considerada incômoda, porque está longe da meta de 2%.

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Jorge Ferreira, professor da ESPM e consultor especializado em negócios internacionais, destaca que o mercado de trabalho nos EUA entrou no modo “no hire, no fire” que, na tradução livre, significa “sem contratações, nem demissões”, ou seja, está congelado. “No entanto, o dado de desemprego surpreendeu, mas ainda não está em uma condição que leve o Fed a estimular a economia por receio de um lado recessivo”, avalia.

De olho nos números, o índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE) avançou 0,3% na comparação mensal em janeiro, registrando uma desaceleração ante os 0,4% de dezembro. Contudo, o “core PCE” (núcleo da inflação), principal métrica perseguida pelo Fed, continuou em 0,4% no mês e acelerou no acumulado de 12 meses, passando de 3,0% para 3,1%.

Andressa Durão, economista do ASA, destaca que as projeções econômicas mais atualizadas apontam para uma inflação mais alta no curto prazo e para o aumento da probabilidade de desaceleração da atividade – o que coloca mais incerteza na condução da política monetária.

O choque do petróleo e o conflito no Irã

Neste caldeirão, somam-se os ataques dos EUA e Irael contra o Irã, sem previsão de término. Essa incerteza externa atua sobre o preço do petróleo, variável que tem muito impacto na inflação dos EUA e que ainda não se refletiu nos dados de atividade doméstica.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, destaca que caso o conflito se prolongue ou se intensifique, o processo de desinflação pode se tornar mais lento, o que tende a manter a postura cautelosa do Fed.

O Morgan Stanley destaca que o Fed não deverá responder ao choque com risco de aumento de juro. “A política apropriada exige que o Fed ignore as pressões sobre os preços da energia e mantenha as taxas inalteradas ou corte se a atividade enfraquecer”, avalia o banco, em relatório.

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Comunicado cauteloso e fala do Powell

A expectativa é que a decisão venha acompanhada de um comunicado cauteloso, indicando todo o cenário. 

Para o Morgan Stanley, a declaração sobre a decisão dos juros deve ter mudanças mínimas. O banco destaca que o Fed deve citar a taxa de desemprego, que subiu levemente, mas ainda é baixa, em vez de “mostrando sinais de estabilização”. O banco também projeta uma citação sobre a inflação “um pouco elevada”.

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Em relação aos riscos do petróleo, a instituição estima que a declaração pode vir em um tom semelhante ao apresentado na Primavera Árabe, em 2011, quando o texto reconheceu que “preocupações com o fornecimento global de petróleo bruto contribuíram para o aumento dos preços do petróleo”.

O Bofa também espera mudanças mínimas na declaração, e indica a inclusão da frase “a incerteza sobre as perspectivas econômicas aumentou devido ao conflito no Irã”.

Para a coletiva de imprensa de Jerome Powell, presidente do Fed, o Bofa espera que ele cite o risco de estagflação enquanto enfatiza a postura de “esperar para ver”. Para a instituição, será crucial se ele tentar dissipar a preocupação do mercado de que o aumento do petróleo será inevitavelmente um sinal de austeridade na política monetária. 

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Projeções de cortes (Dot Plot) e dissidências

Apesar de o recuo imediato não ser o cenário-base em março, o mercado financeiro continua apostando no viés de flexibilização da autarquia. Espera-se que o gráfico de pontos (dot plot) atualizado mantenha a orientação futura de um corte de 25 pontos-base neste ano e mais um no próximo, consolidando uma taxa terminal entre 3,0% e 3,25%. Esta é a projeção do Morgan Stanley, por exemplo, que afirma em relatório que espera um corte neste ano e outro em 2027.

Ainda assim, a decisão desta quarta-feira não deve ser unânime. As projeções apontam que pode haver até três votos divergentes (dissidências) exigindo um corte de juros de forma imediata. 

Entre os favoráveis à redução mais acelerada está o diretor Stephen Miran, que já havia discordado em prol de juros menores em janeiro. Miran – que foi indicado ao Fed pelo presidente Donald Trump – apontou que um ciclo de quatro cortes em 2026 seria “apropriado”, ressaltando categoricamente a urgência do movimento: “prefiro tê-los mais cedo ou mais tarde.”

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No mercado brasileiro, as projeções divergem. Para Sung, da Suno Research, a projeção da casa ainda é de dois cortes em 2026 – um no final do segundo trimestre e outro no segundo semestre.  Sartori, da Austin Rating, mudou a estimativa e projeta somente um corte em 2026.