IPCA de 2025 é o menor desde 2018, mas inflação de serviços preocupa economistas

Ano acabou com a inflação oficial dentro da banda de tolerância, mas especialistas dizem que avaliação qualitativa aponta para preços de serviços muito estressados, especialmente os intensivos em mão de obra

Roberto de Lira

Cafeteria no Rio de Janeiro (Foto: REUTERS/Sergio Moraes)
Cafeteria no Rio de Janeiro (Foto: REUTERS/Sergio Moraes)

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Com a divulgação nesta sexta-feira (9) pelo IBGE de que o IPCA de dezembro fechou o mês em alta de 0,33%, a inflação oficial do país concluiu 2025 com variação de 4,26%, dado que não só ficou dentro da banda de tolerância da meta buscada pelo Banco Central, como também representou o menor patamar desde 2018, quando os preços gerais subiram 3,75%.

Mas os economistas advertem que o dado do ano ainda está longe do centro da meta de 3% e que os serviços, em especial os mais sensíveis ao custo de mão de obra, continuam a exercer pressão, exigindo prudência do Banco Central  num provável início do ciclo de cortes de juros em 2026.

Alexandre Maluf, economista da XP, chama a atenção exatamente para esse ponto em sua análise. “Como já antecipado pelo IPCA-15, as métricas de serviços aceleraram em dezembro, enquanto os preços de alimentos e de bens industrializados permaneceram em patamares benignos”, comentou.

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Ele destacou e específico a inflação de serviços subjacentes – uma métrica que exclui os preços mais voláteis e sujeitos a choques temporários, como passagens aéreas e hospedagem. Esses preços avançaram 0,56% na comparação mensal, um pouco acima da projeção da XP (0,54%). “ Com isso, a média móvel trimestral anualizada com ajuste sazonal acelerou de 4,0% para 5,1% em dezembro. Como indicado pelo IPCA-15, essa aceleração decorreu da dissipação da queda expressiva observada no seguro de automóveis em setembro”, citou.

Outro dado preocupante, segundo Maluf, é que os serviços intensivos em mão de obra subiram 0,77% no mês (a projeção era de 0,71%), com a média trimestral anualizada acelerando de 6,8% em novembro para 7,9% em dezembro.

“Esses resultados são consistentes com o quadro de mercado de trabalho aquecido, evidenciado pelos dados do CAGED e da PNAD Contínua. Em nossa avaliação, a inflação de serviços deve desacelerar em 2026, ainda que de forma moderada (de 6,0% para 5,3%), refletindo melhora no quadro das expectativas de inflação e impacto defasado da taxa Selic”, previu Maluf.

Para o economista da XP, a composição do IPCA de dezembro reforça a visão de que o Copom deve iniciar o ciclo de flexibilização monetária em março. O motivo é justamente que as métricas de serviços voltaram a acelerar na margem, em linha com os dados robustos do mercado de trabalho. “Mantemos nossa projeção de IPCA em 4,0% em 2026”, disse.

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Alertas para o BC

Em sua análise sobre o comportamento da inflação mensal, André Valério, economista sênior do Inter, lembrou que, em dezembro, apenas o grupo Habitação apresentou deflação, de 0,33%, influenciado pela mudança na bandeira tarifária de energia elétrica de vermelha patamar 1 para amarela — isso retirou 0,05 ponto percentual do índice, segundo seus cálculos.

Na ponta oposta, o destaque de alta foi o grupo de Transportes, com alta de 0,74% e impacto de 0,15 ponto percentual no IPCA, influenciado pela alta de 13,8% em transportes por aplicativo, de 12,6% nas passagens aéreas e de 0,45% em combustíveis.

Valéria citou ainda as variações do grupo Saúde e Cuidados Pessoais (alta de 0,52% e impacto de 0,07 p.p), refletindo a variação de 0,49% nos planos de saúde e de 0,52% nos artigos de higiene pessoal. Já a inflação de Alimentos e Bebidas foi de 0,27%, com impacto de 0,06 p.p e que reverteu uma sequência de meses de inflação moderada. Essa alta espelhou elevações dos preços da cebola e de carnes, além da alimentação fora do domicílio.

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E economista do Inter também comentou que, no aspecto qualitativo, o resultado de dezembro não foi positivo. “A média dos núcleos saltou de 0,23% para 0,46%, levando a média móvel de 3 meses a 0,31%. Embora em parte a elevação seja sazonal, observamos que é o maior valor mensal desde abril de 2025. Com isso, o núcleo encerrou 2025 com alta acumulada de 4,61%, ainda acima do limite superior da meta”, comparou.

Para Valério, apesar da boa notícia da desinflação observada em 2025, com a inflação ficando dentro da banda de tolerância, o dado de dezembro deixa um gosto amargo, indicando uma piora no aspecto qualitativo. “Dezembro é um mês com inflação sazonal, tipicamente mais forte, entretanto, considerando a cautela do Copom na condução da política monetária e comunicação mais dura, vemos esse resultado como suficiente para eliminar a chance de corte na reunião de janeiro”, disse.

O Inter ainda espera o corte da Selic pelo BC no primeiro trimestre, na reunião de março, tendo em vista a recomposição do câmbio e a perspectiva de uma inflação mais fraca no 1º trimestre, com o acumulado em 12 meses devendo convergir rapidamente para abaixo de 4%.

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Uma explicação para essa estimativa que o banco digital espera que a tendência de acomodação da inflação continue refletindo os efeitos defasados da política monetária e um dólar ainda depreciado, apesar de haver pouco espaço para novas apreciações do real. “Assim, esperamos que o IPCA encerre 2026 com alta acumulada de 3,90%.”

2026 desafiador

A avaliação de Matheus Pizzani, economista do PicPay, é que o IPCA não trouxe grandes surpresas frente ao padrão sazonal histórico do período. O destaque, segundo ele, foi a reversão sofrida pelo grupo de Alimentação no Domicílio (de -0,01% para 0,27%), que teve seu resultado impulsionado por preços que apresentam maior demanda no período, casos de carnes (+1,48%) e frutas (+1,26%).

“Outra reversão importante veio do grupo de Bens industriais, cujo resultado saiu de uma deflação de 0,29% para alta de 0,48% no último mês de 2025, virada provocada pelo fim do efeito de baixa provocado pelos descontos da Black Friday”, explicou.

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Prospectivamente,  o PicPay segue com uma projeção de 4,20% para o IPCA em 2026. “Após um período de comportamento mais ameno na segunda metade de 2025, o IPCA deve voltar acelerar no primeiro trimestre do ano em função de fatores sazonais relacionados ao consumo de serviços e o impacto dos reajustes de diversos preços administrados, com destaque para a majoração do ICMS sobre combustíveis e o botijão de gás e reajustes das tarifas de transporte público, já aplicadas em capitais com participação relativa elevada no indicador, como São Paulo.”

Passado este período, a expectativa de Pizzani é que o IPCA volte a apresentar comportamento mais ameno, tendência alinhada ao cenário de arrefecimento da atividade, afrouxamento do mercado de trabalho e fechamento do hiato do produto.

Na opinião de Rafael Perez, economista da Suno Research, o resultado do IPCA de 2025 não altera o cenário para o início do ciclo de queda de juros no Brasil. “O índice veio muito em linha com o que o mercado esperava, praticamente no centro do consenso, e a desaceleração observada nos últimos meses já era aguardada. Esse movimento tem sido sustentado por um conjunto de fatores, como a valorização do câmbio, a queda nos preços de commodities e a retração nos preços de alimentos”, comentou.

Ele também alertou que a inflação de serviços permanece muito elevada, acima de 6% e bem acima do limite superior da meta. “As diferentes componentes dos serviços, incluindo serviços intensivos em mão de obra e serviços subjacentes, continuam registrando níveis de inflação elevados, o que está diretamente associado ao mercado de trabalho aquecido e aos estímulos ao consumo”, reforçou.

Dada a provável intensificação desses estímulos, com o início da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, deve acontecer uma ampliação das pressões inflacionárias, sobretudo sobre o setor de serviços.

“Esse cenário já estava precificado e não representa uma mudança relevante em relação ao resultado fechado de 2025. A leitura é de que o Banco Central deve manter seu plano de voo, sinalizando o início do ciclo de cortes na reunião de janeiro e efetivando o primeiro corte de meio ponto percentual em março”, disse Perez, que acredita em cortes graduais de meio ponto percentual por reunião, aproximadamente até setembro, totalizando um ajuste de dois pontos e meio, levando a Selic a 12,5%.

O economista da Suno alertou, porém, que 2026, no entanto, terá riscos adicionais, por trata-se de um ano eleitoral, com maior probabilidade de volatilidade cambial. “A expectativa de desvalorização do câmbio pode pressionar preços e gerar riscos de alta para a inflação. Além disso, o histórico de anos eleitorais costuma vir acompanhado de aumento de gastos e estímulos, o que pode reforçar pressões inflacionárias. Cogita-se, inclusive, a ampliação de programas sociais e outros estímulos ao consumo, o que tende a elevar os riscos inflacionários.”

Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, é outro especialista a fazer um alerta sobre um início de 2026 desafiador. “Os preços de serviços subiram 6% em 2025, sustentados pelo mercado de trabalho bastante aquecido. A tendência é que o controle da inflação continue sendo uma tarefa difícil nos próximos meses, uma vez que o desemprego deve permanecer em níveis historicamente baixos até 2027”, destacou

“Para 2026 e 2027, nossa projeção é de um IPCA a 4,8%, impulsionado pelo mercado de trabalho robusto e pela perspectiva de um real mais depreciado, em meio às preocupações com o aumento da dívida pública no Brasil.”

Sobre juros, a expectativa de Jacob é que o ciclo de cortes pelo BC deve começar em março, com a Selic chegando a 13% no fim de 2026.

Fonte: IBGE