Alta de preços disseminada

IPCA-15 acima do esperado indica inflação persistente e exigirá maior cautela do BC, dizem analistas

Surpresa ‘altista’ veio espalhada em quase todas as áreas, e resultado deve exigir maior cautela da autoridade monetária em encerrar ciclo de alta da Selic

Por  Lucas Sampaio -

A alta do IPCA-15 em maio veio acima do esperado e indica não só uma inflação persistente e espalhada, mas também uma inércia inflacionária, o que vai exigir mais cautela do Banco Central em encerrar o ciclo de alta de Selic, apontam analistas.

Foi a maior alta para o mês desde 2016, e agora a prévia do índice oficial de inflação do Brasil acumula alta de 4,93% no ano e de 12,20% em 12 meses, uma aceleração em relação aos 12,03% de abril e o número mais alto desde novembro de 2003.

Analistas apontam que a surpresa “altista” veio espalhada em quase todas as áreas, com destaque para a inflação de serviços, de bens industriais, de higiene pessoal e de vestuário. Além disso, o núcleo da inflação (que exclui alimentação no domicílio e itens regulamentados) acelerou em maio e o índice de difusão da inflação continua em patamares elevados.

Isso deve fazer com que o Banco Central, que já elevou a Selic de 2% para 12,75% ao ano em pouco mais de um ano, tenha de continuar o clico de alta da taxa básica de juros — e que talvez eles permaneçam em patamares elevados por mais tempo, por causa da inércia inflacionária (quando os reajustes nos preços atuais contribuem para mais altas no futuro).

“Dado que as pressões de inflação estão para cima, a inércia da inflação continua mais alta e estamos vendo os núcleos da inflação performando acima das expectativas de mercado, achamos que não vai ter como o Banco Central parar de subir os juros tão rapidamente, “afirma Laiz Carvalho, economista do BNP Paribas para Brasil. “Continuamos achando que o BC vai ter de subir os juros pelo menos mais duas vezes, nas reuniões de junho e agosto”.

Laiz diz que “é uma preocupação bastante grande que essa inflação está mostrando sinais de uma permanência maior — e uma inércia muito forte —, o que contribui para a nossa projeção de que a inflação vai ser de 10% neste ano”. O BNP Paribas também estima que a Selic vai terminar o ano em 14,25%, acima do consenso atual do mercado.

Inflação disseminada

Para Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, o IPCA-15 de maio “preocupa não só pela sua magnitude, mas também pelo qualitativo”. “A alta de serviços preocupa, pois o setor historicamente tem seus preços mais persistentes, o que pode dificultar ainda mais o trabalho do Banco Central no controle de inflação”. Mercadante diz que “a difusão dos preços também é outro motivo de preocupação”. “Além de aparentar mais persistente, a alta dos preços se mantém disseminada”.

Alberto Ramos, do Goldman Sachs, destaca que o indicador ficou “acima do esperado em alimentação fora de casa, bens industriais, higiene pessoal e vestuário e calçados” e que a inflação de serviços ficou “muito acima do esperado”. “A inflação está agora não apenas muito alta, mas também muito difusa”, afirma Ramos, que projeta uma inflação acima de 10% até outubro e acima de 8% até março de 2023 (no acumulado em 12 meses).

Influência do exterior

O analista do Goldman Sachs diz também que “o choque amplo e provavelmente duradouro” nos preços das commodities e outros custos de produção de logística e de insumos deve “manter altas as pressões inflacionárias de preços ao consumidor no curto prazo”, além de haver indícios de “intensas pressões de aumento de custos nos próximos meses”.

Assim, a inflação deve se tornar cada vez mais inercial, o que exigirá uma postura mais conservadora do BC.”O cenário desafiador de inflação atual e prospectiva e a sinalização ‘hawkish’ do FOMC exigem uma calibração conservadora da política monetária”, afirma Ramos. FOMC é o comitê do Banco Central americano, que tem adotado uma postura mais austera em relação à inflação e endurecido o seu discurso sobre a elevação dos juros para contê-la.

Análise da CM Capital aponta que, apesar de o índice de dispersão da inflação ter caído de 78,75% em abril para 74,93% em maio, “o indicador ainda se encontra em patamar demasiadamente elevado”. Segundo a casa, isso indica que a inflação atual não está mais restrita ao choque internacional de preços, causado pela guerra entre Rússia e Ucrânia e os lockdowns na China, “tendo começado a se enraizar na economia brasileira e potencializando a inflação estrutural já presente no país”.

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