Inflação moderada nos EUA em junho renova esperança de juro menor em setembro

Dados de junho devem elevar confiança do Fed de uma inflação finalmente desacelerando em direção à meta; flexibilização deve começar neste ano e chances para setembro cresceram

Roberto de Lira

Prédio do Federal Reserve, em Washington (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)
Prédio do Federal Reserve, em Washington (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

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A confirmação da desaceleração da inflação ao consumidor nos Estados Unidos renovou a esperança de início de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já na reunião de setembro – probabilidade que tinha perdido força após um repique de preços no início do ano. Os economistas viram surpresas positivas no mês tanto na leitura final do indicador como em detalhes de serviços e habitação, que vinham mostrando mais resiliência.

O CPI divulgado hoje mostrou queda de 0,1% na leitura mensal de junho e uma perda de força na comparação de 12 meses, para 3,0%, a mais baixa em um ano. O núcleo da inflação anualizado ficou em 3,3%, o menor desde abril de 2021.

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Com esse alívio, a probabilidade de os cortes começarem em setembro deu um salto, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, passando de 69,7% ontem para 81,3% hoje. Há um mês, essa chance estava em 46,8%.

Composição mais suave

Francisco Nobre, economista da XP, destaca em sua análise que, além das leituras mais benignas do indicador cheio, as medidas de inflação subjacente também surpreenderam novamente em sentido descendente, com boas leituras tanto para as categorias de bens como de serviços. “No geral, após as impressões agressivas do primeiro trimestre, o segundo trimestre foi benigno”, afirmou.

Nobre citou a moderação na inflação subjacente, no índice ‘supercore’ (que exclui a habitação) e na própria inflação do setor de moradias no mês. “De grande relevância, a inflação de abrigos aumentou 0,17% no mês e a sua inflação anual caiu de 5,41% para 5,16%. Isto representou a leitura de abrigo mais suave desde abril de 2021”, compara.

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Após a divulgação do CPI, o modelo da XP indica que a inflação subjacente do consumo (PCE) deverá registar os mesmos 0,06% em junho, levando a sua variação anual de 2,57% para 2,46%.

Para Nobre, a impressão do CPI de junho foi ainda mais benigna do que os dados de maio, o que deverá aliviar consideravelmente as preocupações relativamente às perspectivas de inflação. Mas, ainda que a quebra tenha sido particularmente encorajadora com menor pressão nas categorias de serviços, o economista pondera que a inflação permanece acima da meta.

“Na nossa opinião, os dados do terceiro trimestre serão cruciais para definir se a dinâmica benigna da inflação mais recente é sustentável ou não. Quanto ao nosso ‘call’ de política monetária, temos afirmado que a Fed iria cortar as taxas pela primeira vez em dezembro, e os riscos estão agora consideravelmente inclinados para o lado descendente”, afirmou.

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Nobre comenta que está cada vez mais claro que a economia dos EUA está finalmente a responder a uma política monetária restritiva e há provas progressivas de que a atividade está abrandando, o mercado de trabalho está atingindo melhor equilíbrio e a inflação está diminuindo. “Aguardaremos os indicadores de inflação de julho para potencialmente revisarmos nossa previsão.”

Tatiana Pinheiro, economista chefe de Brasil da Galapagos Capital, observa que os resultados animaram os mercados e renovaram as apostas de início de corte em setembro, mas ela faz um alerta de que isso não está garantido.

“Observamos que o ‘supercore’, inflação de serviços excluindo habitação, em 4,58% ao ano ainda está distante da marca alcançada em dezembro, de 3,92% anuais, quando o Fed estava positivo com a proximidade do ciclo de corte de juros”, compara.

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Claudia Rodrigues, economista do C6 Bank, também evita cravar que o Fed antecipará o início da flexibilização monetária, mas reconhece que a composição do índice corrobora a trajetória de perda de força da inflação. “Em termos anualizados, a inflação de serviços dos últimos três meses desacelerou de 4,7% em maio para 3,1% em junho, o que pode contribuir para a convergência da inflação em direção à meta”, destaca.

Para ela, os números de hoje, combinados aos últimos dados de mercado de trabalho, devem aumentar a confiança do Fed para iniciar o ciclo de corte de juros neste ano.

Confiança do Fed pode aumentar

André Valério, economista sênior do Inter, por sua vez, comenta que o resultado de junho foi influenciado pela forte queda no grupo de energia e pela aceleração na deflação de bens. Além disso, ele lembra que a inflação de serviços perdeu força no mês, com o destaque negativo sendo a inflação de alimentos.

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“O super núcleo, medida que exclui do núcleo da inflação de serviços os gastos com habitação, registrou variação negativa pelo segundo mês consecutivo, apresentando queda de 0,05% em junho e desacelerando no acumulado em 12 meses de 4,7% para 4,6%”, cita.

Na sua análise, o CPI de junho foi amplamente positivo, tanto do ponto de vista qualitativo quanto no quantitativo. Ele lembra que Jerome Powell, presidente do Fed, já vinha afirmando que gostaria de ver dados benignos de inflação para ganhar maior confiança de que a inflação está convergindo ao centro da meta e assim poderem iniciar o ciclo de cortes nos juros.

“As três últimas leituras do CPI com certeza contribuíram para o aumento dessa confiança, além disso, os sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho têm feito o Fomc reavaliar seu balanço de riscos, como mencionado por Powell em seu depoimento ao Congresso americano nessa semana”, reforça.

Assim, o Inter mantém seu cenário de início do ciclo de cortes na reunião de setembro, com uma pausa em novembro e outro corte em dezembro. “Esperamos que na reunião ao fim desse mês o comitê estabeleça as fundações para iniciar o ciclo de cortes”, prevê.

Danilo Igliori, economista chefe da Nomad, também avalia que o CPI de junho renovou as esperanças para a retomada do processo de desinflação nos EUA. “Essa é a segunda leitura indicando uma retomada do movimento em direção à meta e já podemos supor que a tão aguardada confiança extra para os membros do Fomc deve estar se formando”, comenta.

“Após a divulgação de hoje, o mercado está dando como praticamente certo que o primeiro corte de juros virá na reunião de setembro do Fomc”, afirma.

Na opinião de Gustavo Zuquim, gerente de portfólio do Andbank, hoje houve uma confirmação de que a inflação está sendo contida sem grande disrupção  no mercado de trabalho. O efeito disso são ganhos em todos os ativos, tanto renda fixa quanto variável, que sobem hoje além da subida do dia anterior. “A boa notícia para os brasileiros é que o dólar cai pelo efeito de fechamento da curva de juros americana.”

Para Rodrigo Cohen, cofundador da Escola de Investimentos, o Fed talvez já possa sinalizar a queda das taxas a partir de setembro, caso os dados continuem vindo ancorados com a expectativa. “São dados positivos que mostram desaceleração da inflação, o que é muito bom para termos queda de juros em breve nos EUA.”