Efeito à frente

Imposto menor sobre combustível e energia pode levar a inflação alta duradoura, dizem pesquisadores

Para pesquisadores, mesmo que haja um alívio de curto prazo, a inflação poderá voltar a subir mais a frente, e ficar elevada por mais tempo

Por  Estadão Conteúdo -

A redução de impostos sobre combustíveis, conta de luz e outros itens de energia, anunciada no início desta semana pelo governo federal, poderá ter o resultado oposto ao esperado pelo Palácio do Planalto, alertaram nesta quinta-feira, 9, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) durante o II Seminário de Análise Conjuntural, evento organizado pela entidade de pesquisa em parceria com o Estadão.

Para os pesquisadores, mesmo que haja um alívio de curto prazo, a inflação poderá voltar a subir mais a frente, e ficar elevada por mais tempo, exigindo um ciclo de aumento de juros mais duradouro e, talvez, maior. Dessa forma, a entrada da política econômica no debate eleitoral – marcada também pela divulgação de um esboço do programa do PT – turbina os problemas que deverão frear o crescimento econômico no segundo semestre.

“É uma enorme ilusão achar que redução de impostos vai reduzir inflação e trazer juro pra baixo”, afirmou José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV Ibre. “Tudo ali é temporário. Na virada do ano, o que acontece com a inflação? Sobe de novo.”

Para o pesquisador, que foi diretor do Banco Central (BC), as medidas anunciadas na segunda, 6, pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), não deverão moderar o atual ciclo de elevação de juros empreendido pela autoridade monetária, que levou a taxa básica Selic de 2% ao ano para 12,75%, em pouco mais de um ano. Pelo contrário, a tendência é o BC “ficar mais preocupado com o futuro”, o que “significa prejuízos de longo prazo”.

Também participante do seminário online, a pesquisadora Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, destacou que o anúncio da redução de impostos tende a elevar as expectativas de inflação para 2023. No mais recente Boletim Focus, elaborado pelo BC com as projeções de analistas de mercado, as expectativas já giram em torno de 4,5% para a inflação de 2023, diante de uma meta de 3,25%.

“Se as medidas forem de redução de impostos, a inflação volta ano que vem. Vamos ter que manter a taxa de juros elevada por tempo maior. E, provavelmente, ela terá que ser mais elevada”, afirmou Matos.

Armando Castelar, pesquisador associado do FGV Ibre, lembrou, em sua participação no seminário online que, embora as perspectivas de curto prazo para a atividade econômica em 2022 tenham melhorado nos últimos meses, o principal problema do cenário, a persistência da inflação elevada em todo o mundo e a necessidade de subir juros para conter a carestia, segue pesando sobre a possibilidade de um crescimento sustentável.

“Quando a gente comemora que o IPCA caiu abaixo de 12% em 12 meses tem alguma coisa errada”, afirmou Castelar, referindo-se aos dados do IPCA de maio, divulgados mais cedo pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostraram uma variação de 11,73% no acumulado em 12 meses.

Para piorar, lembrou Castelar, o “risco político-eleitoral” entrou no radar dos agentes econômicos nesta semana, com as reduções de impostos anunciadas por Bolsonaro e, também, a divulgação de um primeiro esboço do programa de governo de um eventual terceiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora, com os resultados das contas do governo, pelo menos no curto prazo, vindo melhores do que o inicialmente esperado, esse risco vinha sendo deixado de lado por investidores e analistas, apesar da proximidade com as eleições gerais de outubro.

“O risco político-eleitoral parecia de lado, mas na segunda-feira isso mudou”, afirmou Castelar, primeiramente se referindo ao anúncio da redução de impostos pelo governo federal. “E teve também o programa do PT. Não é definitivo, mas veio à tona e não deixa ninguém tranquilo sobre 2023”, completou o pesquisador.

Para Castelar, com “a questão politico-eleitoral voltando com tudo à cena”, a tendência, até o fim do ano, é que a elevação das incertezas em torno dos rumos da política econômica num próximo governo federal pese sobre a economia. Os principais impactos deverão ser o adiamento ou moderação nos investimentos, a elevação do risco-País e a elevação da taxa de câmbio, ainda que não se espere um salto do dólar como aconteceu na campanha eleitoral de 2002, diante da perspectiva de Lula ganhar sua primeira eleição presidencial, o que de fato ocorreu.

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