Prévia do PIB tem “foto” positiva, mas esconde desaceleração gradual da atividade

Indicador do Banco Central registra o quinto mês de expansão, impulsionado pelo consumo das famílias, mas juros elevados e tensões no Oriente Médio projetam um ritmo mais lento para o PIB em 2026

Élida Oliveira

Trabalhadores da siderúrgica Usiminas em Ipatinga, Minas Gerais (Foto: REUTERS: Alexandre Mota)
Trabalhadores da siderúrgica Usiminas em Ipatinga, Minas Gerais (Foto: REUTERS: Alexandre Mota)

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A alta de 0,6% em fevereiro no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), indica que a economia segue respondendo ao crescimento da massa de renda real das famílias, às medidas de estímulo do governo e aos programas de transferência de renda.

Mas, na avaliação dos economistas, uma leitura mais ampla do dado, considerando a forma como a atividade estava no mesmo mês no ano passado, indica uma leve moderação da atividade, reflexo da alta de juros e da desaceleração da economia. Além disso, os dados ainda não refletem o impacto do conflito no Oriente Médio, segundo os especialistas.

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O peso do consumo e o alerta nos serviços

Para as principais instituições financeiras, o indicador reflete forças opostas atuando sobre a economia brasileira.

Um relatório do Goldman Sachs aponta que a atividade real deve continuar a se beneficiar de transferências fiscais para famílias de baixa renda, além de um “forte cenário” no mercado de trabalho. O banco pondera que essa expansão deve ser mitigada por “condições financeiras e monetárias domésticas apertadas”, como o aumento da inflação e o alto nível de endividamento das famílias.

Já na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, o IBC-Br excluindo a agropecuária (alta de 0,6% no mês) demonstrou”solidez no ganho de velocidade da atividade doméstica, e os números acabam reforçando a visão de um primeiro trimestre de 2026 robusto em termos de atividade geral.

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Em contrapartida, a visão qualitativa exige cautela, segundo Leonardo Costa, economista do ASA. Para ele, o resultado de fevereiro indica um ritmo moderado da atividade no primeiro trimestre do ano. Costa ressalta que a informação mais relevante dos dados é a “acomodação dos serviços”, setor que tem maior peso no PIB, o que vai em linha com a expectativa de uma atividade mais fraca ao longo de 2026.

Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br)
Mês/mêsTri/TriMês/mês (comparação anual)
IBC-Br0,61,1-0,3
Agropecuária0,21,8-1,3
Indústria1,21-1,3
Serviços0,31,11
Impostos0,81,3-2,6
IBC-Br ex-agropec.0,61,10
Fonte: Banco Central

Tração de curto prazo divide especialistas

Yihao Lin, da Genial Investimentos, observa que a parte mais cíclica da economia está ganhando tração, revertendo sinais de perda de dinamismo. Porém, ele alerta que esses mesmos dados demandam uma certa cautela devido à “reversão da tendência de arrefecimento dos segmentos mais cíclicos da economia”, o que pode intensificar os desafios para o Banco Central na condução da política monetária e no controle da inflação.

É nesse contexto de resiliência que o indicador marcou seu quinto mês seguido de expansão, como destaca Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord). Ele avalia que o dado mostra que a atividade ainda tem tração, principalmente puxada pela indústria. Já a queda na comparação com o mesmo mês do ano passado tem relação direta com a estratégia do BC de esfriar a economia por meio dos juros altos, na avaliação do conselheiro da Ancord.

Acompanhando essa leitura de freio gradual, Matheus Pizzani, economista do PicPay, alerta que o panorama sob um prisma mais extenso não confirma um cenário otimista permanente. Para Pizzani, a leitura do índice vem se mostrando mais alinhada à realidade de uma “inflexão pontual”, tornando necessário mais informações para que se consolide como uma trajetória perene.

Crédito mais restrito e a sombra da geopolítica

Se o consumo das famílias ainda sustenta parte da atividade, o ambiente corporativo já sente os efeitos da transição de ciclo econômico. A desaceleração na comparação anual acende um alerta sobre a qualidade dos ativos e do crédito.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, destaca que o IBC-Br reforça um cenário de crescimento técnico, mas sem aceleração estrutural. Segundo ele, o ambiente exige maior rigor na análise de risco empresarial, já que a capacidade de pagamento tende a ficar pressionada pelos juros altos.

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Conflito no Oriente Médio ainda fora do dado

Além dos desafios domésticos, o mercado já calibra as expectativas para os próximos indicadores, que deverão capturar choques externos recentes.

Peterson Rizzo, gerente de R.I da Multiplike, lembra que a foto de fevereiro ainda é um reflexo do passado. “Vale lembrar que os números não refletem os efeitos da intensificação do conflito entre Irã e Estados Unidos. Esses impactos, especialmente via petróleo, inflação global e condições financeiras, tendem a aparecer nos próximos indicadores”, alerta.

Para os investidores, essa combinação de atividade interna ainda resiliente na margem com ruídos externos já tem impacto prático.

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Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o cenário reduz o espaço para cortes agressivos na taxa Selic. “A consequência é uma reprecificação na parte curta da curva, com ajuste no timing de flexibilização”, afirma Lima.

Projeções para 2026

A XP diz que não mudou a projeção do PIB para o ano, mantida em 2,0%, mesmo percentual projetado pela Genial Investimentos.

Para a Ouro Preto Investimentos, o PIB deve continuar entre 1,5% e 1,7% no ano, “mantendo um cenário de crescimento baixo e juros elevados por mais tempo”, segundo Lima.

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O PicPay projeta avanço de 1,7%, prevendo perda de fôlego dos vetores ligados à economia doméstica e a retomada da participação do setor externo na composição do PIB.

Já o Goldman Sachs mantém uma projeção mais conservadora, com um PIB de 1,6% para o ano, mesmo percentual estimado pela Azumi Investimentos e pela Asset Bank.

A Austing Rating projeta uma taxa de crescimento entre 1,4% e 1,5%, com desaceleração da atividade no segundo semestre. Apesar do baixo percentual, Rodolpho Sartori, economista da instituição, avalia que a a qualidade do crescimento deve ser melhor do que a observada no último ano, com uma maior participação da indústria e um crescimento menos expressivo da agropecuária.

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