IA não causa “apocalipse” no mercado de trabalho dos EUA, mas alguns sinais já surgem

Relatórios de BofA e Morgan Stanley indicam que a inteligência artificial ainda não provoca destruição significativa de empregos nos EUA, mas sinais de pressão já aparecem entre jovens trabalhadores e ocupações mais expostas à tecnologia

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Os temores de que a inteligência artificial provoque uma onda de destruição de empregos nos Estados Unidos ainda não encontram respaldo nos dados agregados da economia, segundo relatórios recentes do Bank of America (BofA) e do Morgan Stanley.

Para os dois bancos americanos, os impactos da tecnologia sobre o mercado de trabalho continuam limitados, embora já existam evidências de pressão crescente sobre trabalhadores mais jovens e ocupações com maior exposição à IA.

O BofA tem um diagnóstico relativamente otimista e afirma que a IA tende a substituir tarefas específicas, e não ocupações inteiras, repetindo o padrão observado em outras grandes transformações tecnológicas. Até agora, os dados sugerem que a adoção da tecnologia não tem produzido perdas líquidas relevantes de empregos na economia americana.

Segundo o levantamento, há pouca correlação entre exposição à inteligência artificial e crescimento do emprego entre 206 setores analisados. Além disso, o banco também encontrou relação limitada entre o uso de IA pelas empresas e a demanda por mão de obra, medida por vagas abertas e nível de emprego.

Embora também descarte um impacto macroeconômico significativo por enquanto, o Morgan Stanley identifica evidências crescentes de que a IA já começa a afetar determinados grupos de trabalhadores.

O banco afirma que a desorganização provocada pela inteligência artificial no mercado de trabalho continua “modesta, mas cada vez mais visível”. A instituição estima que o fenômeno pode estar adicionando até 0,15 ponto percentual à taxa de desemprego dos Estados Unidos, acima dos 0,10 ponto observados no fim de 2025.

A análise mostra que ocupações mais expostas à IA vêm registrando aumento mais acentuado do desemprego desde 2023. Após ajustes estatísticos para eliminar efeitos do ciclo econômico, a taxa de desemprego desses grupos está cerca de 0,5 ponto percentual acima do que seria esperado em condições normais de mercado.

O Morgan Stanley destaca ainda que trabalhadores dessas ocupações estão demorando mais para conseguir recolocação profissional e enfrentam maior dificuldade para retornar ao mercado após perder o emprego.

Jovens concentram maiores riscos

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O principal foco de preocupação dos dois bancos está nos trabalhadores mais jovens.

O BofA aponta que as taxas de desemprego entre recém-formados e profissionais de 22 a 27 anos permanecem acima dos níveis observados antes da pandemia. Embora parte desse movimento possa ter sido influenciada por incertezas econômicas e comerciais recentes, o banco afirma que a IA pode estar contribuindo para a piora das condições de entrada no mercado de trabalho.

O Morgan Stanley chega a conclusão semelhante. Segundo a instituição, os profissionais de 22 a 27 anos representam o grupo em que os sinais de disrupção são mais evidentes. O desemprego de jovens em ocupações altamente expostas à IA continua crescendo e abriu uma distância relevante em relação aos trabalhadores menos expostos à tecnologia.

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Para o banco, os profissionais em início de carreira podem estar funcionando como a “linha de frente” dos ajustes promovidos pela adoção da inteligência artificial.

Ao mesmo tempo em que pode reduzir a demanda por algumas funções, a inteligência artificial também está impulsionando contratações em setores ligados à infraestrutura tecnológica.

O BofA destaca que a corrida por data centers e investimentos em IA tem estimulado a geração de empregos na construção civil e na manufatura. Somente neste ano, a construção não residencial adicionou cerca de 95 mil vagas, enquanto setores industriais ligados à infraestrutura de IA criaram aproximadamente 32 mil empregos. Juntos, esses segmentos respondem por cerca de um quarto dos novos postos de trabalho privados gerados em 2026.

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Esse movimento ajuda a explicar por que os efeitos negativos observados em determinadas categorias profissionais não aparecem com a mesma intensidade nos indicadores agregados de emprego.

Mais produtividade do que cortes?

Outro ponto destacado pelo Morgan Stanley é que a narrativa corporativa sobre IA continua mais associada a ganhos de produtividade do que a demissões em massa.

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Segundo levantamento do banco, cerca de 13% das empresas do S&P 500 mencionaram a relação entre inteligência artificial e trabalho em suas teleconferências de resultados mais recentes. Houve inclusive aumento das referências à criação de empregos e redução das menções ligadas à substituição de funcionários.

As discussões mais frequentes envolvem automação, desaceleração no ritmo de contratações e aumento da produtividade por funcionário, permitindo que a receita cresça mais rapidamente do que o quadro de pessoal.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Investimentos

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.