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Os fortes dados de geração de vagas no mercado de trabalho dos Estados Unidos em janeiro e a nova queda na taxa de desemprego deixam ainda mais longe a hipótese de um iminente corte na taxa de juros pelo Fed na reunião de março. Na avaliação de economistas, o emprego nos EUA mostra comportamento de equilíbrio, mas mais ainda em patamar alto. Mas é feito o alerta de que os salários subiram de novo, colocando pressão na inflação de serviços.
O relatório payroll mostrou que a economia dos EUA abriu 130 mil postos de trabalho fora do setor agrícola no mês passado, bem acima do consenso esperado de 55 mil postos de trabalho e também dos 48 mil observados em dezembro — dado que foi revisado para baixo, dos anteriores 50 mil.
A taxa de desemprego recuou de 4,4% para 4,3% e a taxa de participação avançou para 62,5% em janeiro.
Na opinião de André Valério, economista sênior do Inter, o resultado anunciado hoje aponta para um mercado de trabalho não tão frágil, com sinais de melhora na demanda por trabalho, na margem. Mas ele alerta que, com o maior controle imigratório no país, o saldo de emprego necessário para manter a taxa de desemprego constante é bem menor do que observado até 2024. Isso, segundo o economista, ajuda a explicar porque se vê a queda na taxa de desemprego mesmo com um ritmo mais fraco de geração de emprego.
“Dada a comunicação mais hawkish [dura] do Fed na última reunião, o resultado de hoje reforça a visão de que o Fed manterá a taxa de juros inalterada na reunião de março”, prevê.
Gustavo Sung, Economista-chefe da Suno Research, também pondera, que não há, até o momento, evidência clara de mudança estrutural no mercado de trabalho americano. Ele argumenta que, apesar da surpresa positiva no dado de janeiro, é importante contextualizar que o payroll médio em 2025 foi de apenas +15 mil vagas por mês, mostrando um mercado de trabalho significativamente mais fraco do que em anos anteriores.
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“Assim, o resultado mais forte deste mês deve ser analisado com cautela, especialmente considerando que o relatório incorporou atualizações nos fatores sazonais e a revisão anual de base, o que pode influenciar a magnitude do dado ajustado neste período do ano”, explica.
Ele também destaca que o payroll cíclico, que captura os segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico, voltou a crescer no mês, embora suas médias móveis ainda permaneçam bem abaixo da faixa de equilíbrio, reforçando a leitura de um mercado de trabalho equilibrado e em menor ritmo de crescimento em comparação aos últimos anos.
“Em nosso cenário-base, o número divulgado hoje não altera de forma relevante a trajetória esperada para a política monetária norte-americana. O Fed tem adotado uma postura cautelosa, buscando observar a evolução dos próximos dados econômicos antes de promover qualquer ajuste na taxa de juros”, diz Sung.
A expectativa da Suno permanece portanto de manutenção da taxa de juros na reunião de março. “Para o fim de 2026, projetamos que a taxa básica encerre o ano em torno de 3,0% a.a., em linha com um processo gradual e consistente de normalização monetária.”
De olho no CPI
Isadora Junqueira, economista da AZ Quest, considera que o número de janeiro foi bem forte, tanto na parte da criação de vagas quanto na parte da taxa de desemprego. “Acho que afasta cada vez mais esse corte mais iminente de juros nos Estados Unidos e fica aí a ver se a inflação realmente vai arrefecer a ponto de eles poderem fazer alguma alteração nos juros”, comenta, destacando o próximo da de inflação, o CPI, está prevista para a sexta-feira.
Já Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, avalia que o mercado de trabalho americano ainda mostra resiliência, enquanto a inflação continua pressionada. Para ele, os dados de emprego e inflação referentes a fevereiro, que ainda serão divulgados, devem dar mais clareza sobre o cenário e ajudar a orientar a próxima decisão de política monetária do Federal Reserve. “Por ora, esperamos a manutenção dos juros no intervalo atual, de 3,5% a 3,75%, na próxima reunião, em março.”