Economistas veem nos dados de abril sinais de que serviços podem desaquecer à frente

Entre os riscos estão o impacto das enchentes no RS, que só deve aparecer nos dados de maio, o menor incentivo vindo dos pagamentos de precatórios e um início de acomodação nos serviços prestados às famílias

Roberto de Lira

Transporte e armazenagem de cargas (Foto: José Fernando Ogura/AEN)
Transporte e armazenagem de cargas (Foto: José Fernando Ogura/AEN)

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Embora o segundo trimestre tenha começado com a atividade de serviços em expansão forte – o IBGE divulgou hoje que o volume do setor avançou 0,5% em abril ante março – os economistas ponderam que há sinais de contenção à frente.

Entre os motivos para a cautela estão o impacto das enchentes no Rio Grande do Sul, que só deve aparecer nos dados de maio, os efeitos menos presentes dos recursos extras vindos do pagamento de precatórios e um início de acomodação nos serviços prestados às famílias.


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Claudia Moreno, economista do C6 Bank, destacou em sua análise que o dado de abril veio acima tanto de sua projeção (+0,3%) como da mediana do mercado (+0,2) e que isso corrobora  a ideia de expansão da atividade econômica brasileira no início do segundo trimestre.

Mas ela chama a atenção para a queda de 1,8% no volume de serviços prestados às famílias, que é um importante termômetro do crescimento do PIB – embora a retração tenha sido menos que a esperada pelo C6 Bank (-2,8%). “Indicadores de alta frequência, como buscas na internet por atividades recreativas, hotéis e restaurantes, estavam exibindo queda acentuada”, destacou.

A economista disse ainda que o que puxou o setor de serviços para cima em abril foram a categoria de transportes, o que inclui serviços auxiliares aos transportes e correio, e a categoria outros serviços, que reúne planos de saúde, atividades imobiliárias, atividades de apoio à agricultura, gestão de resíduos, entre outras áreas. 

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Claudia lembrou a projeção do banco é que o setor de serviços brasileiro cresça 1,4% em 2024 ante 2023, mas ponderou que será a pesquisa de serviços de maio que vai contemplar o impacto gerado pela tragédia ambiental no Rio Grande do Sul. “Aí é que teremos uma ideia melhor das consequências das enchentes para a atividade econômica do país”, disse.

A projeção do C6 Bank para a expansão do produto interno bruto (PIB) em 2024 continua sendo de 2,2%. 

Sinais contraditórios

A XP, por sua vez, destaca em relatório que a análise mais detalhada dos dados mostra que o setor trouxe novamente sinais contraditórios, já que três dos cinco principais segmentos avançaram em abril.

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“Do lado positivo, os Serviços de Informação e Comunicação mantiveram uma sólida tendência ascendente, com expansão generalizada. Além disso, Serviços de Transportes registraram o segundo ganho consecutivo, com destaque para a recuperação dos Transportes Rodoviários e o salto dos Transportes Aéreos, diz o relatório.

Por outro lado, os Serviços Prestados às Famílias – especialmente os serviços de alimentação – e os Serviços Profissionais e Administrativos perderam força na margem.

A XP projeta que o setor geral de serviços cresça 2,7% neste ano, próximo ao ganho de 2,4% registrado em 2023. O rastreador XP para o crescimento do PIB no 2º trimestre está em +0,5% na comparação com o trimestre anterior e em + 1,4% ante o mesmo período do ano passado – já considerando os efeitos do desastre natural no Rio Grande do Sul. “Continuamos projetando que o PIB do Brasil crescerá 2,2% em 2024.”

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Para o Santander Brasil, os sinais de abril são positivos, mas há riscos a serem monitorados. “Embora a maioria dos segmentos tenha registado aumentos, os serviços às famílias caíram, o que poderá constituir um risco para o consumo das famílias no futuro.”, diz a análise do banco.

“Em nossa visão, o resultado reforça a perspectiva de desaceleração do PIB do 2º trimestre de 2024, especialmente considerando o impacto das enchentes no Rio Grande do Sul, que deverá ser refletido nos resultados de maio.

Já Igor Cadilhac, economista do PicPay, comentou que a PMS divulgada hoje mostra o bom momento da atividade econômica brasileira, que vem se beneficiando de um mercado de trabalho em pleno emprego, de uma massa salarial crescente e da inflação bem-comportada. “Olhando à frente, esperamos que esse cenário se mantenha ao longo do ano. Por ora, projetamos um crescimento do PIB de 0,3% no segundo trimestre e de 2,1% no ano.”

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Moderação

Na avaliação do Bradesco, os serviços começaram o segundo trimestre com um bom ritmo de crescimento. Porém, em maio a receita do setor deve sofrer o impacto das enchentes.

 “Atividades como transportes e serviços prestados às famílias devem ser as mais afetadas. Nossa projeção indica que a economia deve crescer, no trimestre encerrado em junho, pouco menos do que o verificado no primeiro trimestre do ano”, previu o banco.

Segundo o Bradesco, ponderando a pesquisa pelos pesos das atividades no PIB, é possível verificar um aumento de 0,3% na margem e isso deixa um carregamento estatístico de 0,7% para o segundo trimestre. “No primeiro trimestre a PMS ponderada pelo PIB avançou pouco menos de 2%. Para 2024 nossa projeção segue em 2,3%.”

O Itaú afirmou em relatório queo desempenho do setor em abril esteve em linha com suas expectativas, mas que é importante destacar a diminuição dos serviços profissionais e dos serviços oferecidos às famílias, que têm um maior peso no PIB. “Indicam alguma moderação da atividade econômica no segundo trimestre”, concluiu.

O Goldman Sachs lembrou que os serviços às famílias estão agora abaixo do nível de dezembro de 2023. Embora o banco de investimento espere algum ganho dos estímulos fiscais ainda significativos, a análise é que esta situação será mitigada pelas condições monetárias e financeiras internas restritivas, pelos níveis ainda elevados de endividamento das famílias.

Além disso, o Goldman Sachs cita o aumento da incerteza política e o menor impacto dos volumosos R$ 94 bilhões para pagamento governamental de precatórios, que exerceram mais impacto no início de 2024.

Matheus Pizzani, economista da CM Capital, alertou que a composição do indicador foi marcada por movimento sazonais já esperados, como o recuo do grupo de serviços prestados às famílias (-2,8%), cuja retração se deveu essencialmente à queda do subgrupo de alojamento e alimentação (-2,3%).

Isso teria sido uma correção das altas dos meses anteriores em um período de maior normalidade em termos de demanda, dada a ausência de fatores como férias ou feriados prolongados.

Para ele, outro movimento passível de antecipação era o de queda no grupo de serviços profissionais e administrativos, que corrigiu as fortes altas dos últimos meses e assistiu todos os seus subcomponentes, à exceção dos aluguéis imobiliários, recuarem também.

Pizzani disse que, tendo em vista a importância relativa que possui para o desenvolvimento futuro da política monetária, a análise da PMS de abril deve ser feita com alguma parcimônia.

“Embora o dado global e alguns de seus subcomponentes possam sugerir um nível de atividade econômica demasiadamente aquecido, é necessário levar em consideração que uma parcela desses dados não tem potencial de se desdobrar necessariamente em pressão inflacionária, sendo o maior exemplo disso o avanço do grupo de serviços de transporte, puxado por fatores corretivos como por movimentos relacionados à economia internacional.”