Debate sobre juro neutro

Economistas revisam para cima estimativa para Selic ao final de 2021 após tom mais “hawkish” do Copom

Credit revisou sua projeção de 7,25% para 8,25% ao fim de 2021, enquanto XP revisou de 6,75% para 7,25%; BBI, Itaú e BofA mantiveram estimativas

SÃO PAULO  – Após o tom mais duro adotado na véspera pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ao afirmar “ser apropriado um ciclo de elevação da taxa de juros para patamar acima do neutro”, algumas casas de análise revisaram para cima a projeção para o final do ano para a Selic. Na véspera, o Copom elevou a taxa básica de juros em um ponto percentual, de 4,25% para 5,25% ao ano, em sua maior alta de juros em um só passo (de 1 ponto) desde 2003. Essa foi a quarta vez seguida que o comitê subiu a Selic, que chega ao seu maior nível desde outubro de 2019.

O BC reagiu aos choques recentes para a inflação, entre eles a crise hídrica, aumento da tarifa da bandeira vermelha 2 de energia elétrica e problemas de safra por geadas em boa parte do centro-sul do país. Isso forçou uma elevação das perspectivas de inflação para 2022 acima da meta e ligou o alerta entre os dirigentes do BC, especialmente porque a deterioração das expectativas para os preços deslocou acentuadamente para cima as previsões para a Selic para este ano e o próximo.

Algumas casas – como BNP Paribas e UBS BB – passaram recentemente a ver taxa acima de 8% até dezembro, quatro vezes o patamar do começo de março. E quem enxerga juro abaixo desse nível não deixa de ressalvar que o viés é de alta.

Para João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, a decisão acabou sendo mais “hawkish” (dura, com preocupação sobre inflação, sinalizando mais altas de juros) do que o esperado, principalmente por conta dessa sinalização sobre o patamar acima do juro neutro. Quando ele está abaixo do ponto neutro, a intenção da autoridade monetária com a taxa Selic é gerar um estímulo para o aquecimento da economia, e, quando está acima desse ponto, o objetivo é reduzir o ritmo de expansão.

“O Copom demonstrou bastante preocupação com a inflação, principalmente depois dos resultados do IPCA-15 e especialmente na parte de serviços e serviços subjacentes, que vieram bem acima das expectativas”, afirma. Com essas indicações, a expectativa da Rio Bravo é de que a Selic encerre o ano entre 7,5% e 8,0%.

Já Gustavo Cruz, estrategista da RB investimentos, destaca que o BC quer segurar as expectativas de inflação, que não param de subir, em especial as para 2022. “Acredito que essa forma mais direta de fechar o comunicado é justamente para que não surja nenhuma interpretação de que o Banco Central foi dovish [brando], que ele foi mais leve, deixou porta aberta, a ideia dele é ser extremamente direto”, diz.

Depois do Copom, o Credit Suisse espera agora que a Selic seja elevada para 8,25% ao ano até o fim de 2021, a partir de três novas altas consecutivas de um ponto percentual. Até então, o Credit trabalhava com uma projeção de Selic a 7,25% em dezembro.

A XP também revisou as suas projeções, alterando o cenário básico para a taxa de juros no final de 2021 e 2022, de 6,75% para 7,25% (com elevações de 1 ponto percentual na reunião do Copom em setembro, 0,50 ponto  em outubro e 0,50 ponto em dezembro). “Ressaltamos que, embora a avaliação sobre riscos fiscais não tenha sido alterada no comunicado, estes aumentaram nas últimas semanas e, se a perspectiva para as contas públicas se deteriorar adicionalmente, a taxa Selic poderá ser elevada para patamares além da nossa projeção”, avaliam.

O Safra, por sua vez, espera que a Selic suba para 6,25% em setembro e coloca um viés de alta na projeção para a taxa ao fim de 2021, hoje de 7%.

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Já os economistas do Citi elevaram a projeção para a taxa básica de 6,75% para 7,5% em dezembro. “A projeção de inflação de 3,5% para o fim de 2022 sugere que uma taxa Selic terminal de 7% seria suficiente para trazer a inflação de volta à meta. Mas, uma vez que o Copom sinalizou que o processo de normalização deve ultrapassar o nível neutro e a premissa de preço de energia para o fim do ano ainda parece benigna, projetamos a Selic em 7,5% no fim do ano”, destacaram. A projeção é de alta de 1 ponto na próxima reunião, de 0,75 ponto em outubro e um outro aumento de 0,50 ponto em dezembro.

O Santander, por sua vez, elevou sua projeção para o juro básico de 7% para 7,5% ao fim de 2021 – e com viés de alta. Para Maurício Oreng, superintendente de pesquisa econômica do banco, a chance é maior de uma Selic a 8% do que a 7% em dezembro. O cenário básico do banco é de alta 1 ponto na Selic em setembro,  elevação de 0,75 ponto em outubro e de um aumento final de 0,50 ponto em dezembro.

Já entre as casas que mantiveram suas projeções após o Copom, estão Bank of America, Bradesco BBI e Itaú.

O BofA apontou que o Copom foi hawkish,, mas em linha com as expectativas. “Vale ressaltar que esperávamos alta de 1 ponto desde o último Copom, mas o mercado mudou para 0,75 ponto e voltou a 1 ponto recentemente. Esperamos que o Banco Central mantenha o mesmo ritmo de alta para a reunião de setembro [de 1 ponto], seguido por uma alta de 50 pontos-base em outubro e de 25 pontos-base em dezembro, levando a Selic a 7% no final do ano”, destacam os economistas.

Para o BBI, no geral, o comunicado pós-reunião foi um pouco mais hawkish do que as mensagens mais recentes, mas não continha uma mensagem extremamente agressiva.

Com relação ao patamar acima do neutro, os economistas acreditam em taxa acima de 7% neste ciclo. “Também entendemos que 7% seriam apenas ligeiramente superiores às taxas neutras (nossas palavras), com acima de neutro significando 7,5% ou 8%. Portanto, reafirmamos nossa visão de que as taxas devem atingir 7,5% neste ano e 8% na primeira reunião em 2022”, avaliam os economistas do banco.

Por além do nível neutro, o Itaú entende uma faixa da Selic entre 6,5% e 7%. Segundo os economistas do banco, apesar de algumas incertezas de última hora, o resultado final da reunião foi dentro do previsto. “Com isso, continuamos a esperar alta de 1 ponto na reunião de setembro e Selic em 7,5% ao ano ao final do ciclo. Saberemos mais sobre o racional da decisão com a divulgação da ata na próxima terça-feira, às 8h (horário de Brasília)”, apontam.

O documento pode trazer mais detalhes sobre a visão do Comitê, reforçando apostas de altas ainda mais agressivas ou “não muito além do 7,5%” até o final deste ano.

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(com Reuters)

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