Pedido de ajuste fiscal ao novo governo é consenso, mas onde e como cortar despesas?

A dívida pública brasileira é o maior desafio do próximo governo, segundo especialistas; entenda as propostas dos candidatos e a visão de economistas sobre cortes e novos impostos

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A trajetória da dívida pública é um dos principais desafios econômicos do Brasil, que deve exigir do próximo governo medidas profundas para controlar esse aumento. Nas propostas dos candidatos à presidência, disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro (PL) fala em cortar despesas e reduzir o tamanho do Estado, enquanto Lula (PT) propõe combinar um Novo Arcabouço Fiscal à ampliação da arrecadação sobre os mais ricos e ao crescimento econômico.

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Dívida pública acima de 80%

O risco de não controlar a dívida é perder a capacidade de investimento do país. Em agosto, a dívida bruta do país fechou em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 82,6% do mês anterior. A projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado é que chegue a 100% em 2030.

O alto endividamento não é exclusivo do Brasil. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública global também deve superar os 100% em 2030, tendo os países de economias mais avançadas, como os Estados Unidos, como os maiores endividados.

Em um contexto global de preços de energia elevados e inflação persistente, a entidade sugere que os países façam ajustes fiscais para não dependerem somente do crescimento econômico.

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Estrutura da dívida

Mas, de onde cortar? Há pouco espaço para eliminar dívidas. Atualmente, o Brasil tem cerca de 95% do orçamento federal engessado por despesas obrigatórias, destaca o economista Carlos Honorato, especialista em Scenario Planning.

Com isso, para pagar a despesa que excede a arrecadação, o Estado emite dívida sujeita a juros por meio dos títulos do Tesouro Direto. E, quanto maior a dívida, maior deve ser o juro para atrair o investidor, que coloca um preço no risco de levar um calote.

Segundo Honorato, o custo anual apenas com o pagamento desses juros atinge R$ 140 bilhões sobre um montante total de dívida de R$ 1,2 trilhão.

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E mais da metade (53%) do estoque da dívida do país é atrelado à taxa Selic por meio dos títulos pós-fixados, de acordo com uma análise do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP. A instituição calcula que, com uma taxa de juros neutra de 9%, é inviável estabilizar a dívida apenas com cortes de gastos, exigindo superávits superiores a 3% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Mas o aumento da arrecadação também tem um teto. Segundo Honorato, esse quadro fiscal convive com uma carga tributária que saltou de cerca de 19% do PIB, no governo Fernando Henrique Cardoso, para patamares próximos a 40% atualmente.

Corte de gastos

Para Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central (2019 – 2021), a situação atual é “de longe o maior problema” do país dado o ritmo de crescimento da dívida. Na sua análise, a solução passa pelo corte de despesas, tendo como alvos os maiores gastos do governo, como a Previdência e o funcionalismo público.

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Kanczuk defende o congelamento dos reajustes dos salários dos servidores e a paralisação de aumentos reais no salário mínimo.

Ele propõe um modelo de corte linear, no qual todos os entes que recebem recursos federais teriam repasses limitados apenas à correção da inflação. 

Honorato também cita a urgência em revisar despesas. Ele destaca que cerca de 60% das aposentadorias pagas no Brasil são destinadas a ex-servidores públicos, que têm regime próprio com pagamentos acima do resto da população. Uma alternativa para reduzir as despesas seria rever estas regras.

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Honorato propõe revisar privilégios nos cargos públicos, como as duas férias anuais do Judiciário, e questiona o volume de R$ 500 bilhões a R$ 600 bilhões em subsídios concedidos a setores específicos da economia.

Apesar de defender o enxugamento, Honorato destaca que as propostas de corte devem vir com detalhamento para serem avaliadas. Sem isso, a falta de direcionamento pode afetar operação de serviços essenciais, como o Sistema Único de Saúde (SUS). 

E, como corte de privilégios tende a ser impopular, Kanczuk diz que as medidas adotadas por quem vencer a eleição no segundo turno precisarão ser aplicadas já nos primeiros anos de mandato quando, historicamente, o candidato eleito tende a ter maior apoio para as aprovações no Congresso.

Revisão de receitas e qualidade do gasto 

O estudo do Made/USP apresenta uma abordagem focada na composição do gasto e na arrecadação. Segundo os cálculos da instituição, as despesas do governo têm reflexos diferentes na economia.

No caso dos benefícios sociais, o cálculo estima que a cada R$ 1 investido, voltam R$ 2,15 para a economia. Os investimentos públicos registram um multiplicador de 2,6 e, os gastos com pessoal e subsídios têm impacto próximo de zero.

Com base nesses dados, o centro de pesquisa conclui que cortes focados em programas sociais geram retração da economia e perda de receita, o que exige novas reduções de gastos na sequência.

Como alternativa, o Made propõe a revisão das emendas parlamentares, que passaram de 1,4% do gasto discricionário em 2016 para 12% em 2023. A nota também sugere a exclusão das deduções de saúde e educação no Imposto de Renda (IRPF), medida que geraria R$ 33,9 bilhões em receitas. 

Para ampliar os recursos do Estado, o instituto defende o aprofundamento da progressividade tributária. A sugestão é instituir uma alíquota efetiva mínima de 15% para rendas acima de R$ 250 mil por mês, o que tem potencial para arrecadar R$ 79 bilhões.

O que propõem os candidatos

O documento do PL foca a estratégia de controle da dívida pública com base no corte de gastos, incluindo a redução de no mínimo 10 ministérios, sem especificar quais, o corte de cargos comissionados e o combate a penduricalhos e supersalários no funcionalismo público.

Entre as propostas, também está o Programa Nacional de Desestatização e Reforma Administrativa, com a retomada de privatizações e concessões. Além disso, o texto cita o controle sobre as emendas parlamentares, impondo critérios de transparência.

O programa do PT defende que a estabilização da dívida pública deve ocorrer preservando os investimentos sociais. Segundo a proposta, o ajuste pelo lado da receita será prioritário, focando na tributação dos “super-ricos”, como a taxação de offshores e fundos exclusivos) e no fim de isenções e benefícios fiscais ineficientes. 

O documento também cita um aperfeiçoamento no sistema de emendas parlamentares com foco em eficiência, e aposta na redução sustentada da taxa Selic e no aumento contínuo do PIB como vetores para diluir o peso relativo da dívida sobre a economia.

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Élida Oliveira
Economia | Investimentos | Mercados