Dívida alta dos países está borrando limite das políticas fiscal e monetária, diz BIS

Estudo mostra que a interação entre dívida elevada e choques inflacionários tornam mais provável que o limite fiscal passe a restringir a política, amplificando a inflação

Roberto de Lira

Dólares e moedas estrangeiras (Imagem gerada com auxílio IA/Leonardo Albertino
Dólares e moedas estrangeiras (Imagem gerada com auxílio IA/Leonardo Albertino

Publicidade

Por quais motivos Donald Trump e outros líderes mundiais opinam tanto que as taxas juros praticadas pelos bancos centrais estão muito altas e precisam baixar consideravelmente, e de maneira rápida? Uma das respostas é que elevado endividamento público dos dias atuais está remodelando cada vez mais a forma como as autoridades monetária e fiscal interagem, borrando as fronteiras tradicionais entre elas.

Um paper do Banco de Compensações Internacionais (BIS) publicado nesta semana argumenta que, com o acúmulo de grandes estoques de dívida soberana, as decisões sobre taxas de juros tornaram-se cada vez mais importantes para o espaço fiscal dos governos, já que os custos mais altos de empréstimos se traduzem diretamente em pressão orçamentária.

Leia também: Trump chama Powell de idiota e renova escalada de pressão contra Fed por cortar juros

Aproveite a oportunidade!

Ou seja, quando a dívida pública está elevada, o custo fiscal de combater a inflação aumenta fortemente, pois altas na taxa de juros elevam as despesas do governo com pagamento de juros. E a dívida alta pode reduzir a intensidade da resposta monetária à inflação, gerando um viés inflacionário mesmo quando a dívida do governo permanece totalmente amparada do ponto de vista fiscal.

Os autores do estudo argumentam que a interação entre dívida elevada e choques inflacionários de custo tornam mais provável que o limite fiscal passe a restringir a política, amplificando a inflação. Em recessões movidas pela demanda, dizem, a restrição fiscal pode se tornar mais limitante do que o piso zero da taxa de juros, forçando o banco central a imprimir moeda para comprar o excesso de dívida ou a aceitar a dominância fiscal.

US$ 1 trilhão só de juros nos EUA

Sobre a atual situação nos EUA, é lembrando no documento que, no ano fiscal de 2024–2025, as despesas líquidas com juros da dívida federal americana se aproximaram de US$ 1 trilhão, absorvendo perto de um quinto de toda a arrecadação federal e superando os gastos com defesa nacional.

Continua depois da publicidade

“Nesses níveis de dívida, a política monetária passa a ter uma pegada consideravelmente grande sobre o espaço fiscal, tornando as decisões de taxa de juros uma preocupação relevante para a autoridade fiscal”, dizem os autores.

Leia também: FMI alerta que a dívida dos EUA pode chegar a 143% do PIB até 2030

Eles destacam que esse desenvolvimento ocorre em um momento em que as pressões inflacionárias são mais prováveis e mais persistentes, impulsionadas pela fragmentação geopolítica e econômica, pela mudança climática e por forças demográficas. “Nesse contexto, restrições fiscais ao aperto da política monetária podem se mostrar particularmente perniciosas, limitando a eficácia da estabilização da inflação precisamente quando ela é mais necessária.”

Esses desenvolvimentos coincidiram com uma pressão política renovada sobre bancos centrais para afrouxar a política monetária. Durante sua presidência, Donald Trump tem insistido em pressionar o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, a reduzir as taxas de juros, muitas vezes enquadrando o afrouxamento monetário como um meio de diminuir os custos de financiamento do governo, diz o estudo.