Selic em queda

Deflação em setembro surpreende e reforça aposta: cortes (ainda) mais agressivos de juros estão por vir no Brasil

Após deflação de 0,04% em setembro ante expectativa de alta de 0,03%, economistas já cravam corte de 0,5 ponto na próxima reunião do Copom

Roberto Campos Neto
(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

SÃO PAULO – “Era uma vez um País que já teve inflação alta”. Com essas palavras, o Morgan Stanley define a nova surpresa baixista com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial usada pelo Banco Central em suas decisões de política monetária e revelada na manhã desta quarta-feira pelo IBGE.

Ao apontar uma deflação de 0,04% em setembro, ante expectativa de economistas consultados pela Bloomberg de alta de 0,03% e no dado mais baixo para o mês desde 1998, ampliaram-se as apostas em cortes mais agressivos de juros pelo Banco Central na próxima reunião e também até o final do ano, o que tem um forte impacto nos contratos mais negociados de juros futuros e também para o dólar.

A inflação acumulada no ano é de 2,49% e, no acumulado de 12 meses, de 2,89%, abaixo do centro da meta para o ano de 4,25% – com uma banda de 1,5 ponto para cima ou para baixo (ou seja, entre 2,75% e 5,75%).

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Os núcleos da inflação, que buscam captar a inflação livre de movimentos temporários, mostraram um movimento ainda mais “comportado”, entre 2,2% e 2,5% em 12 meses. Ou seja, abaixo do piso da meta.

Os principais destaques foram: inflação de alimentos e bebidas (-0,43%), grupo responsável pela maior contribuição negativa no IPCA de setembro, com -0,11 ponto percentual, e o impacto já atenuado das tarifas mais altas de eletricidade. Além disso, os preços dos combustíveis (+0,12%) não aumentaram conforme o esperado após o choque do preço do petróleo observado recentemente, uma vez que o temor de falta de oferta foi rapidamente revertido.

Confira abaixo a comparação entre o IPCA e a meta de inflação, conforme gráfico elaborado pela XP Investimentos:

 

 

Assim, conforme destacou Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco, à Bloomberg, a leitura “sugere um viés de baixa” para a inflação no ano. Para outubro, a previsão do Itaú é de leve alta do índice para 0,06%, o que levaria a inflação para a casa de 2,5%, momentaneamente abaixo do piso. Já a partir de novembro e dezembro, o índice deve registrar alguma aceleração;

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“A inflação segue muito tranquila, principalmente nos núcleos, e isso reforça a expectativa de juros baixos por mais tempo”, apontou Julia, em uma análise reforçada por muitos economistas após o IPCA de hoje.

Com isso, agora os investidores ficam de olho nas projeções do mercado para o Comitê de Política Monetária (Copom). Por ora, o Itaú mantém 3,4% como projeção de IPCA para o ano fechado e estimativa de mais um corte de 0,5 ponto percentual da Selic.

Na próxima reunião, do dia 30 de outubro, as apostas para um corte de 0,5 ponto percentual na Selic, renovando mínima histórica para 5% ao ano, passaram a ganhar cada vez mais força após o IPCA.

“O grande hiato do produto, o alto nível de ociosidade no mercado de trabalho, as expectativas de inflação bem ancoradas e as perspectivas reduzidas para o crescimento real de curto prazo do PIB devem contribuir para manter a inflação bem ancorada. Os núcleos da inflação ainda mais baixos e a inflação moderada de serviços também devem proporcionar ao Banco Central um conforto significativo. O dado atual da inflação valida a previsão de que o Copom reduzirá a taxa da política Selic em mais 0,5 ponto percentual na próxima reunião”, aponta Alberto Ramos, economista para América Latina do Goldman Sachs.

Ao olhar ainda mais para a frente, a equipe econômica da XP apontou que ainda pretende analisar como a inércia inflacionária será interpretada na próxima ata do BC. Contudo, aponta o dado abaixo das expectativas em setembro reforça o entendimento de que a Selic atingirá o patamar de 4,50% ainda em 2019.

“Ainda esperamos continuidade do movimento baixista da inflação brasileira, mas aguardaremos a divulgação completa da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que acontecerá na próxima sexta-feira, antes de revisarmos as nossas projeções de inflação”, avaliam os economistas da XP (confira a análise completa clicando aqui).

Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) também espera Selic em 4,5% ao ano no fim de 2019, e entende que os juros não devem ser elevados deste patamar durante todo o ano que vem.

“O espaço que tem para corte é muito consistente mesmo com o cenário internacional adverso”, avalia. Para Tingas, o hiato de produto é um problema que não será resolvido tão cedo, de modo que não há fator seja conjuntural ou estrutural que o BC possa cotar para não promover cortes nas taxas de juros até abaixo de 5%.

“É hora de testar uma taxa de juros mais baixa”, sentencia o economista.

O Morgan, por sua vez, aponta que o “BC confortável” em cortar taxas deve levar a Selic em 4,25% no início de 2020.

Política monetária e PIB

Apesar da perspectiva de queda de juros mais forte pelo BC, alguns economistas ainda não veem tanto impacto da política monetária na atividade brasileira, que ainda anda a passos lentos.

Conforme destacou Alex Agostini, economista-chefe da Austing Rating, em entrevista à Bloomberg, o IPCA de setembro mostra que itens mais relacionados à atividade continuam bastante deprimidos porque empresas não têm espaço para colocar margem de preço.

“A deflação, quando não é motivada por fatores sazonais, é sintoma de uma economia fraca. Por um lado, mantém espaço para queda da taxa de juros, por outro, continua mostrando que economia precisa urgentemente de mudança de rumo”, aponta Agostini.

Para ele, não é a Selic que vai mudar o cenário – e sim um resgate da confiança dos investidores e passa pela aprovação da reforma da Previdência.

Mesmo com o dado, Agostini vê piso da Selic em 4,75% e ainda antevê alta da taxa nominal no próximo ano, indo gradativamente para 6% no fim de 2020 considerando que a execução da política monetária a partir de julho mirará 2021, quando a meta é de 3,75%. Em 2021, consolidado o cenário de aprovação das reformas, economia deve reagir e haverá a pressão dos preços administrados, que terá de ser combatida com juros.

Além disso, vale ressaltar o impacto da queda da Selic no câmbio. Somente a perspectiva de juros mais baixos levaram o dólar a subir nesta quarta-feira após abrir em queda acompanhando o exterior. A virada aconteceu em meio à visão de que as taxas menores significam que o apelo a operações de carry trade tende a continuar reduzido, o que torna o fluxo cambial dependente da retomada do crescimento e entradas relacionadas a privatizações, concessões e aberturas de capital de empresas na B3.

A alta do dólar, contudo, poderia levar a um corte menos agressivo dos juros, dado o repasse da alta dos preços de produtos importados. Em relatório do final de setembro, após a ata do último Copom, o Goldman havia apontado que existem limites e restrições a quanto o Banco Central ainda pode cortar da Selic nesse ciclo.

De acordo com Ramos, uma flexibilização adicional agressiva, ou seja, direcionando a Selic para o patamar mais próximo de 4%, poderia ser contraproducente, pois não só compromete a obtenção das metas de inflação mais baixa em 2020-21, 4,00% e 3,75%, respectivamente, mas também poderia elevar a volatilidade cambial.

Por enquanto, o dólar não está se refletindo em aceleração da inflação, mesmo com a divisa em forte alta durante o ano e tendo ficado acima dos R$ 4 durante todo o mês de setembro.

Com isso, os juros futuros reforçam a aposta de cortes mais profundos na Selic, levando a uma precificação de queda de juros de mais de 100 pontos-base até o início de 2020. Nada parece deter os juros em queda no Brasil – pelo menos no curto prazo.

 

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(Com Bloomberg)