Deflação em junho traz alívio, mas inflação acumulada ainda exige cautela pelo Fed

Os economistas de vários bancos e casas de investimentos destacaram os preços mais baixos no mês não só de itens relacionados à energia, mas também de algumas categorias de serviços e bens

Roberto de Lira

Sede do Federal Reserve em Washington - 
20/10/2021 (Foto: REUTERS/Joshua Roberts)
Sede do Federal Reserve em Washington - 20/10/2021 (Foto: REUTERS/Joshua Roberts)

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O risco de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) voltar a subir os juros nos EUA neste ano por conta da inflação ainda “quente” no acumulado de 2026 ainda persiste, mas as chances de isso acontecer já na reunião do final de julho são menores após a surpresa positiva com os dados do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) referente a junho.

O indicador mostrou deflação de 0,4% no mês passado, ante uma subida de 0,5% em maio.

O dado divulgado pelo Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos significou a maior retração mensal desde abril de 2020, quando o índice havia recuado 0,8%. Os economistas de vários bancos e casas de investimentos destacaram os preços mais baixos no mês não só de itens relacionados à energia – que recebem impacto das incertezas com a guerra no Oriente Médio –, mas também de algumas categorias de serviços.

Leia também: Operadores reduzem apostas em alta dos juros em julho após dados de inflação fracos

Mas os especialistas também alertam que o CPI acumulado nos últimos 12 meses, de 3,5%, ainda é alto e está distante da meta de 2% perseguida pelo Fed, o que deve manter a autoridade monetária cautelosa em suas decisões.

“Apesar desse alívio no mês, os dados do último ano mostram que a inflação continua pressionada, principalmente no núcleo dos preços de serviços, que subiu mais de 3% em 12 meses”, destaca Claudia Moreno, economista do C6 Bank.

Sobre os preços de energia, a economista destaca que eles vinham de altas expressivas por conta da guerra, mas que caíram 5,7% no mês, puxados pela gasolina (-9,7%). No entanto, ela lembra que, em junho, o setor foi beneficiado pelo recuo nos preços de petróleo no mercado internacional, após o alívio das tensões e a assinatura de um memorando de entendimento entre EUA e Irã.

“O acordo não durou muito tempo – os dois países voltaram a trocar ataques na semana passada. (…) O aumento das tensões entre EUA e Irã e as incertezas em torno do conflito podem voltar a pressionar os preços de energia.”

Na avaliação de Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, o índice cheio acumulado em doze meses ficou bem abaixo da mediana das expectativas do mercado, que indicava uma taxa de 3,8%.

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“Embora parte desse recuo já fosse antecipada pelo recuo expressivo nos preços de energia, a grande surpresa positiva ficou por conta do comportamento do núcleo do indicador (que exclui itens voláteis). Em vez de apresentar a leve queda estimada de 2,9% para 2,8%, o núcleo em doze meses recuou de forma mais expressiva, atingindo 2,6%”.

Dinâmica de preços mudando?

Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, embora a queda dos preços da energia tenha sido determinante para a retração do índice cheio, a principal mensagem do relatório está na desaceleração da inflação subjacente.

“O núcleo permaneceu estável no mês, contrariando a expectativa de nova alta, enquanto componentes estruturalmente mais persistentes, como habitação e serviços, também perderam força. Esse conjunto de indicadores sugere que a desinflação começa a ganhar maior consistência e deixa de depender exclusivamente da volatilidade dos preços de energia”, explica.

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Ariane comenta ainda que o aspecto mais relevante da divulgação não foi a redução da inflação acumulada em 12 meses, mas sim a mudança na dinâmica mensal dos preços. Ela explica que o fato de o núcleo registrar estabilidade indica que as pressões inflacionárias seguem perdendo intensidade mesmo em segmentos tradicionalmente mais resistentes ao aperto monetário.

“A desaceleração do componente de habitação, que possui elevado peso na composição do índice, reforça a percepção de que um dos principais focos de preocupação do Federal Reserve começa, finalmente, a responder às condições financeiras mais restritivas”, afirma.

O Itaú também destaca em sua análise que a inflação dos serviços essenciais caiu, impulsionada pelos serviços de abrigo (habitação), com as surpresas mais marcantes em relação a hospedagem, tarifas aéreas e outros serviços. “Por sua vez, a inflação “supercore” — serviços essenciais excluindo abrigo — caiu para -0,20% (de 0,27% m/m), e nosso índice de difusão caiu para 51% (de 62%)”.

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Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, foi outra especialista a dar ênfase ao núcleo da inflação em junho, que surpreendeu positivamente ao permanecer estável, enquanto o consenso esperava uma alta de 0,2%. “Ainda assim, vale destacar que boa parte da desaceleração do índice foi impulsionada pela queda do petróleo, movimento que pode não se sustentar, já que a commodity voltou a registrar alta após o anúncio do fim da trégua entre Estados Unidos e Irã”, destaca.

O que esperar do Fed após o CPI?

Os economistas sugerem cautela ao avaliar o efeito que a deflação em junho pode trazer no processo decisório do Fed em relação aos juros. Para Marianna Costa, da Mirae Asset, o alívio trazido pelo CPI de junho reduziu a probabilidade de um aperto monetário imediato ao longo de 2026. A probabilidade de alta de 25bps nos juros neste ano implícita na curva de juros, caiu de 20% para um pouco menos de 10% após a divulgação do dado. 

No entanto, ela comenta que, embora o resultado benigno ajude a acalmar os temores de que o recente choque do petróleo esteja se espalhando de forma persistente pela economia, o tom cauteloso deve prevalecer, como bem salientou diretor do Fed Christopher Waller nesta segunda-feira. “Waller sinalizou que serão necessários vários meses de dados favoráveis para afastar de vez a necessidade de novos aumentos. Com isso, as atenções se voltam para o depoimento do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, ao Congresso, hoje e amanhã, onde ele deve reforçar que a instituição tem baixa tolerância com a inflação persistente, mantendo relevante a probabilidade de que algum ajuste seja necessário”, pondera.

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Para o Itaú, os componentes do CPI apontam para uma leitura do PCE (a inflação do consumo e o indicador preferido do Fed) subjacente de 0,23%, um resultado que não cria urgência para o Fed aumentar as taxas em julho e, por enquanto, afasta essa discussão.

A visão de Sara Paixão, da InvestSmart XP, é similar. “Após a divulgação dos dados, a curva de juros de americana passou a operar em queda em praticamente todos os vértices, refletindo uma percepção mais favorável para a inflação. Apesar disso, o mercado ainda atribui 54% de probabilidade a uma elevação dos juros na reunião de setembro, abaixo dos 59% observados no dia anterior”, comenta.

Já Ariane Benedito, do PicPay, lembra que a inflação permanece bem acima da meta de 2%, o que impede uma mudança significativa na estratégia do Federal Reserve com base em apenas uma divulgação, embora o dado represente um avanço importante para a autoridade monetária.

“Depois de meses em que a inflação de serviços manteve o processo de desinflação incompleto, a medição de junho oferece uma evidência mais consistente de perda de fôlego das pressões domésticas, que se apresentaram disseminadas. Caso essa tendência seja confirmada pelo PCE e pelos próximos indicadores de atividade e mercado de trabalho, aumenta a probabilidade de o Fed iniciar um ciclo de flexibilização monetária em um horizonte mais próximo”, prevê.

Para ela, dadas as incertezas do cenário geopolítico e consequentemente a pressão sobre preços de comodities, a expectativa é que o Fed não flexibilize a política de juros neste ano.

Necessidade de cautela também é a mensagem captada por Andressa Durão, economista do ASA, após o CPI. “Para a política monetária, o dado de hoje aponta para a adoção de maior cautela por parte do Fed. É cedo para assumir uma reversão do movimento de persistência da inflação apenas com um único dado, mas a informação sugere que o Fed deve esperar por mais dados antes de agir”, avalia.

Para além das discussões sobre as futuras decisões de política monetária, Felipe Cima, especialista em Renda Variável da Manchester Investimentos, diz que o que animou o mercado após o CPI não foi exatamente a queda do barril do petróleo depois do acordo de cessar-fogo, mas o núcleo do indicador, que exclui os preços de energia.

“A ideia é que agora o último dado inflacionário possa estar mirando um patamar mais aceitável, mais perto da meta, num futuro não tão distante assim. O que possibilitaria que a autoridade monetária americana, encabeçada pelo Kevin Warsh [novo chairman do Fed], não precisasse de uma atuação tão firme para ganhar sua credibilidade frente ao mercado e ancorar as expectativas. A ideia é que, de repente, o Kevin Warsh poderia se importar muito mais com o lado direito do número da inflação do que com o lado esquerdo. Então, se a inflação rodasse a 2,9%, por assim dizer, o Fed já poderia dar-se por satisfeito.”