Tensão aumenta

Das ameaças ao fechamento de consulados: a escalada da “guerra fria” entre EUA e China e seus impactos

Relação diplomática entre as duas maiores economias do mundo está cada vez pior e começou a afetar o desempenho das bolsas

Bandeiras da China e EUA (Foto: Getty Images)
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SÃO PAULO – Apesar de terem fechado em janeiro um acordo sobre a guerra comercial, a tranquilidade da relação entre Estados Unidos e China não durou muito. O estouro da pandemia do novo coronavírus fez com que o presidente americano Donald Trump elevasse o tom, chegando a culpar os chineses pela doença, acusando-os de esconder seu surgimento.

Mas a troca de farpas entre as duas nações aumentou na semana passada, chegando a um novo pico de tensão nos últimos dias, derrubando Bolsas de valores pelo mundo em meio ao fechamento de consulados.

No último dia 14, Trump anunciou o fim do tratamento preferencial a Hong Kong por parte dos EUA e assinou uma lei de sanções para penalizar funcionários chineses que aplicarem as novas regras de segurança aprovadas em junho.

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Isto já foi visto como uma retaliação após a China aprovar a controversa lei de segurança nacional que, de acordo com críticos, pode acabar com o status semiautônomo de Hong Kong.

Segundo Pequim, a lei mira em apenas um “pequeno grupo de pessoas” e tem como objetivo combater “separatismos, subversões, terrorismo e interferências estrangeiras”. Já a oposição em Hong Kong afirma que a medida é um golpe nas liberdades políticas no território.

Apesar desta questão, os ânimos se elevaram mesmo na agora chamada “guerra fria” entre EUA e China quando chineses foram vistos fazendo várias fogueiras com pilhas de papel no jardim do consulado do país em Houston, no Texas, logo depois que a China foi formalmente avisada sobre o iminente encerramento das atividades consulares.

Os bombeiros foram chamados, mas foram proibidos de entrar no local. Diante disso, o governo americano afirmou que suspeita que estes papéis queimados fossem documentos relacionados a ações de espionagem sobre a vacina para o coronavírus que está sendo desenvolvida nos EUA.

Para piorar o cenário, o departamento de Justiça americano acusou Pequim de patrocinar dois hackers chineses que estariam espionando e roubando dados de laboratórios dos EUA e outros 11 países que estão na corrida pela criação da vacina.

Foi então que, no dia 22 de julho, os EUA determinaram o fechamento do consulado da China em Houston. E apesar de não citar as acusações anteriores, o Departamento de Estado afirmou que a medida tem o objetivo de proteger a “propriedade intelectual e as informações privadas dos americanos”.

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O porta-voz do departamento, Morgan Ortagus, afirmou que a Convenção de Viena prevê que os diplomatas devem “respeitar as leis e os regulamentos do Estado receptor” e “têm o dever de não interferir nos assuntos internos desse Estado”. “Os EUA não tolerarão as violações da República Popular da China da nossa soberania e intimidação do nosso povo, assim como não toleramos as práticas comerciais desleais, o roubo de empregos americanos e outros comportamentos”, afirmou Ortagus.

Isto escalou a tensão para níveis não vistos desde o início da guerra comercial. A China afirmou logo em seguida que se via obrigada a retaliar a ação americana e o Ministério das Relações Exteriores chinês disse que a ordem dos EUA causou um prejuízo severo às relações dos dois países.

No mesmo dia, o mesmo ministério afirmou que ameaças de ataque a bomba e de morte foram feitas contra a embaixada da China em Washington e os seus funcionários. “Como resultado do ódio espalhado pelo governo dos EUA, a embaixada chinesa recebeu ameaças de bomba e de morte”, disse na ocasião Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês.

Até que nesta sexta-feira (24) veio a resposta chinesa, que ordenou o fechamento do consulado americano na cidade de Chengdu, no sudoeste do país.

A decisão é “uma resposta legítima e necessária às medidas irracionais dos EUA”, informou em comunicado o Ministério das Relações Exteriores da China.

O consulado americano de Chengdu, na província de Sichuan, inaugurado em 1985, tem 200 funcionários e cobre o sudoeste da China, incluindo a Região Autônoma do Tibete. Ele era a representação diplomática americana mais próxima de Chongqing, importante centro industrial chinês.

Apesar da escalada da tensão, especialistas avaliam que não haverá grandes consequências na relação entre os dois países caso os confrontos parem por aí. Porém, no ritmo e no tom que tudo está acontecendo, poucos acreditam que isso tenha terminado.

Reflexo nas eleições

O mundo todo está preocupado e deve ser impactado por esta disputa, mas os americanos devem sentir os reflexos desta tensão também na corrida eleitoral. Aliás, a estratégia do governo dos EUA de elevar o tom contra os chineses pode justamente ter relação com a disputa presidencial.

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Afinal, conforme destaca a equipe de analistas da XP Política, o eleitorado americano tem visto a China de forma cada vez mais negativa, independentemente da preferência partidária.

Diante disso, eles projetam que a forma como Trump e Joe Biden irão falar sobre os chineses poderá ser cada vez mais decisivo para as eleições, sendo que principalmente o republicano pode elevar ainda mais o tom também como uma forma de reconquistar eleitorado, já que as pesquisas mostram ele cada vez mais atrás na disputa.

Em entrevista para a CNBC, Jim O’Neill, presidente da Chatham House, um dos think-tanks mais prestigiados da Europa, alertou que a relação entre os dois países preocupa e que isso pode ditar o tom de Trump em sua campanha.

“Dado o grau em que as pesquisas de opinião parecem sugerir o quão atrás está Donald Trump, suspeito que teremos isso [troca de acusações entre EUA e China] de forma recorrente e errática entre agora e as eleições”, afirmou.

“Eu certamente acho que a retórica será repetidamente difícil e assustadora, mas, se será seguida por medidas e ações, não tenho tanta certeza. Espero que não, porque realmente não traria muitos benefícios para os EUA ou o mundo “, finalizou.

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