Correios caminham para encerrar o ano com pior resultado da história

Estatal teve prejuízo de R$ 5,5 bi no primeiro semestre. Empresa aponta sinal de avanço no desempenho de abril a junho. Proposta orçamentária de 2027 prevê aporte bilionário

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Em meio a um processo de reestruturação que já dura meses e com a perspectiva de obter injeção bilionária de recursos da União em 2027, os Correios viram seu prejuízo no primeiro semestre aumentar 30,4% na comparação com igual período do ano passado e somar R$ 5,5 bilhões. Na proposta de lei orçamentária de 2027 que o governo encaminha hoje ao Congresso, a estatal contará com a garantia de aporte de R$ 6 bilhões no próximo ano, em um sinal de que a crise ainda está longe do fim.

A expectativa do próprio governo é que os Correios encerrem este ano com o pior resultado de sua história, superando a perda recorde de R$ 8,5 bilhões registrada em 2025. O governo alega que a estatal voltará ao lucro em 2027.

Perda menor no 2º tri

A estatal destaca que os resultados do segundo trimestre — quando teve prejuízo de R$ 2,4 bilhões, valor 5,5% inferior ao registrado em igual período de 2025 — já refletem os efeitos do plano de reestruturação, com redução das despesas com pessoal e melhoria do perfil do endividamento.

Analistas ponderam que o problema estrutural permanece. Ou seja, sim, as perdas foram menores, mas o avanço está longe da magnitude necessária para estancar a crise.

A empresa continua operando com margem bruta muito apertada, diz Daniel Pecanka de Andrade, especialista em finanças. Esse indicador mostra o percentual da receita de vendas que sobra após a dedução dos custos diretos de produção ou aquisição de produtos e serviços. No primeiro semestre, a margem foi de R$ 274,5 milhões em valor, considerando receita de R$ 7,9 bilhões menos o custo das entregas. É com essa diferença que a empresa precisa pagar despesas administrativas, comerciais e financeiras.

“Apesar de o prejuízo ter caído no segundo trimestre, não dá para falar em avanço operacional”, diz Pecanka.

Ele acrescenta que os ganhos no período são tímidos frente ao tamanho dos problemas: o custo com pessoal entre o período de janeiro a junho de 2025 e 2026 recuou 4,2%, o que representou economia de R$ 233,7 milhões. 

A análise do especialista indica que a estatal apenas ganhou fôlego depois de ter recebido empréstimo de R$ 12 bilhões no ano passado com garantia do Tesouro Nacional. Mesmo esse fôlego se mostrou temporário. A direção da companhia negocia novo empréstimo de R$ 7 bilhões em condições iguais.

E a conta não termina aí. Para dar viabilidade à estatal no próximo ano, o governo incluiu em sua proposta orçamentária a nova injeção de R$ 6 bilhões. O montante não é à toa. Ele fez parte da negociação para a obtenção da linha de crédito do ano passado, que foi discutida com um grupo de bancos em dezembro.

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Em nota conjunta, os ministros das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho; da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck; e do Planejamento, Bruno Moretti, afirmaram, ontem, que o objetivo é dar estabilidade à empresa.

“Com isso, a estatal terá maior estabilidade para seguir negociando com seus clientes e fornecedores, em direção ao bom andamento do seu Plano de Reestruturação e recuperação dos resultados financeiros positivos da empresa”, afirma a nota.

No texto, os ministros dizem que, desde o início do plano de reestruturação, lançado em dezembro de 2025, a empresa tem tomado medidas para reduzir despesas, ampliar receita operacional e equacionar o fluxo de caixa.

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Para Pecanka, o plano de reestruturação divulgado é genérico, cita apenas medidas como plano de desligamento voluntário (PDV), fechamento de unidades e venda de imóveis. Segundo ele, faltam detalhes, como receitas e despesas de todas as unidades de negócio: serviço postal, encomendas e mercado internacional.

Para o economista, professor e ex-secretário de Coordenação e Governança das Empresas Estatais, Fernando Soares, o plano de reestruturação em execução nos Correios é insuficiente para reerguer a empresa. Ele afirmou que a forte concorrência no setor de entrega de encomendas e a queda do serviço postal exigem corte drástico da despesa com pessoal.

Ele argumenta que, no futuro, recursos do Orçamento poderão ser usados para pagar despesas com pessoal e que, diante disso, o ideal seria transformar os Correios em estatal dependente para aumentar as amarras em relação às despesas.

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Para reduzir o quadro de pessoal de forma proporcional à queda na atividade, Soares sugere que o governo abra discussão com o Judiciário para permitir demissões sob o argumento de deterioração da situação financeira da empresa.

“Essa questão precisa ser enfrentada, o Executivo tem que abraçar e recorrer ao Judiciário”, diz Soares.

Na rodada de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República, o presidente Lula afirmou, na quinta-feira, que não pretende vender os Correios. O ex-presidente Jair Bolsonaro tentou privatizar a companhia, mas a medida não avançou.

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O balanço do semestre apontou queda nas receitas do segmento internacional de R$ 460,4 milhões e aumento nas despesas comerciais de janeiro a junho. De acordo com nota explicativa, no caso das unidades terceirizadas, o aumento de custos está relacionado ao maior volume de receitas comercializadas e ao reajuste tarifário aplicado no período.

Pecanka chama a atenção para a qualidade do serviço e pondera que o próprio balanço aponta aumento do gasto com indenizações, decorrentes da quantidade de objetos entregues fora do prazo, sobretudo no primeiro trimestre.

A nota interministerial destaca que o balanço do segundo trimestre mostra alongamento e barateamento da dívida, com a empresa tendo encerrado o período sem nenhum empréstimo vencendo no curto prazo, quitação de empréstimo mais oneroso e alongando a dívida de 18 para 180 meses.

A direção da estatal informou que, com o empréstimo de R$ 12 bilhões, quitou antecipadamente a dívida bancária de R$ 1,8 bilhão contratada em 2025. Outro ponto citado foi a regularização dos passivos vencidos, o que gerou uma economia de R$ 322 milhões.

A empresa afirma que a despesa com pessoal recuou 4%, mesmo com o reajuste salarial de 5,1%, reflexo do PDV, que já desligou 6.545 empregados, 2.767 deles apenas neste semestre.

‘Resultado desafiador’

Para dar continuidade ao plano, os Correios abriram novo PDV voltado exclusivamente ao fechamento de mil postos entre agências e unidades de tratamento de carga. A empresa busca avançar em parcerias com o setor público, como aluguel de balcões e com o setor privado.

“O resultado acumulado do semestre permanece desafiador e reforça a necessidade de continuidade e execução consistente das medidas de reestruturação. A prioridade dos Correios é a recuperação sustentável das receitas, o aumento da eficiência operacional, a revisão de despesas e contratos e a modernização do modelo de negócios, preservando a qualidade e a cobertura dos serviços prestados à população”, disse a empresa em nota.