Análises

Copom justifica ritmo de elevação da Selic, mas economistas alertam para persistência inflacionária e ciclo maior de altas

Mercado estima novas altas de um ponto da Selic nas próximas reuniões do Copom este ano

Taxa Selic
(Crédito: Getty Images)

SÃO PAULO – O Banco Central divulgou nesta terça-feira (28) a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a taxa Selic em um ponto percentual, para 6,25% ao ano.

Segundo o documento, a autoridade monetária ponderou subir os juros para além do ajuste de 1 ponto, mas chegou à conclusão de que o aumento era adequado para garantir a convergência da inflação para a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 2022, de 3,50%.

Na avaliação de economistas do mercado financeiro, o Copom reforçou cautela, mesmo adicionando que pretende levar a Selic para o patamar “significativamente” contracionista.

“Com uma série de incertezas no radar, tanto na atividade econômica, quanto na persistência dos choques na inflação, o Comitê justificou a alta da Selic não ser mais do que 100 pontos-base. Ao mesmo tempo, reafirmou que não haveria limite para a taxa básica de juros e que o foco será ainda o cumprimento da meta de 2022”, destaca João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos.

Na avaliação dele, contudo, faltaram pontos no comunicado sobre o risco da persistência inflacionária, com alta de 7,02% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) no ano até setembro.

“É uma ameaça que tem ficado mais clara nos últimos indicadores divulgados e que pode representar um risco para as expectativas de inflação em 2022 e 2023”, diz.

Ainda segundo Leal, o tom do comunicado parece indicar que o mercado está mais preocupado com a inflação do que o BC – e isso pode representar um risco se não houver um controle nas expectativas. “Por ora, o cenário não muda, porque o Copom afirmou que levará a Selic para onde for necessário, mas o mercado pode testar o BC estressando ainda mais a curva de juros.”

Entre as novidades da ata divulgada nesta terça, Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, cita que o Banco Central deixou aberta uma porta para altas acima de 1 ponto, embora reforce que o pensamento hoje é de fazer mais altas de mesma magnitude.

“O BC não está olhando só para inflação, mas acha que 1 ponto é interessante para não penalizar tanto a atividade e o mercado de trabalho”, avalia.

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Neste cenário, Cruz estima mais duas altas da Selic em 1 ponto percentual até o fim do ano. “Com esse texto de hoje, o BC deixou mais aberto para que, se as coisas até o final de outubro piorarem em termos de inflação, expectativas e riscos fiscais, ele pode fazer uma alta maior”, diz.

Rumos da Selic

Em relatório, a XP escreve que a mensagem da ata é de que o Copom está quase descartando uma futura aceleração do ritmo de aperto monetário e que pode começar a pensar em uma desaceleração a partir da reunião de dezembro.

“O Copom acrescentou que a Selic precisa atingir um nível ‘significativamente contracionista’. É difícil avaliar o que significa ‘significativamente’, mas, a nosso ver, é de 8,50% – que é a taxa esperada pela pesquisa Focus para dezembro deste ano – ou um pouco mais, considerando o viés de alta do balanço de riscos”, escrevem os economistas.

Para a XP, a taxa Selic atinge 8,50% ao final do ciclo de aperto monetário. Segundo a casa, perspectivas fiscais continuam sendo o principal risco e uma nova expansão da política fiscal poderia exercer pressão adicional sobre o Copom.

Já o Goldman Sachs estima outro aumento de 1 ponto percentual da Selic na próxima reunião, em outubro, e uma subida constante e relativamente rápida para 8,25% ao ano, acima do neutro no final de 2021. O banco vê ainda uma taxa básica de juros de 8,75% no primeiro trimestre de 2022.

Na avaliação do Itaú BBA, a ata do Copom sugere que a autoridade monetária ainda está focada em garantir a convergência para a meta da inflação em 2022, mesmo que à custa de um aperto monetário adicional.

Neste cenário, o banco espera que o Copom mantenha o ritmo de 100 pontos-base até o final do ano, podendo continuar nesse ritmo até o primeiro trimestre de 2022. O Itaú projeta o fim do ciclo de aperto monetário com a Selic em 9%, mas com viés de alta.

Tom mais “dovish”

Para o Credit Suisse, a ata divulgada nesta manhã trouxe um tom mais “dovish”, isto é, uma postura mais favorável a taxas de juros mais baixas e menor preocupação com a inflação, ao indicar que manterá o ritmo de aperto monetário de um ponto percentual nos próximos encontros do Copom.

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O banco destaca o discurso do BC de uma política monetária “significativamente contracionista” ser a estratégia adequada para garantir a convergência da inflação para as metas de 2022 e 2023.

“Isso poderia ser visto como um indicativo de taxas de juros mais elevadas do que o modelo atual, de Selic a 8,25%, em 2021 e a 8,5% em 2022, pois o balanço de risco para a inflação permanece negativo e as projeções do mercado e do Banco Central para a inflação em 2022, de 4,1% e 3,7%, respectivamente, são superiores à meta de 3,5%”, escreve o Credit Suisse, em relatório.

A expectativa do Credit Suisse é de que a autoridade monetária siga aumentando a Selic até 8,25%, em 2021, e até 9,75%, em 2022, com altas consecutivas de 100 pontos-base nas próximas três reuniões e, em seguida, uma alta final de 50 pontos-base. Isso acontece porque o banco projeta uma inflação acima da mediana do mercado, de 8,7%, para 2021, e de 5,2%, para o próximo ano.

“Apesar disso, vemos os riscos de alta para as taxas nominais, dado que o processo desinflacionário no país tem sido muito difícil e nosso cenário atual para as taxas reais pode não ser suficiente para reduzir o nível de inflação em direção à meta em 2023”, escrevem os economistas.

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