Condições desafiadoras para a produção industrial devem continuar em 2023, dizem analistas

Demanda mais fraca, piora nas condições de crédito e incertezas com macroeconomia devem mante a indústria "patinando"

Roberto de Lira

(divulgação)
(divulgação)

Publicidade

O cenário que motivou a perda de força da produção industrial brasileira no segundo semestre de 2022, gerado pela queda na demanda e pelas condições macroeconômicas mais desafiadoras, deve permanecer em 2023, segundo a opinião de analistas. Nesta quarta-feira, o IBGE divulgou que a produção recuou 0,1% em novembro ante outubro, o quarto indicador negativo em seis meses.

Para a XP Investimentos, o setor manufatureiro provavelmente registrará uma contração no quarto trimestre, uma vez que o efeito estatístico de transferência para a variação do quarto trimestre ficou em -0,5%.

As “decepções” no mês foram a indústria de mineração, que encolheu 1,5% no mês, e a categoria de bens de consumo duráveis, que registrou a terceira queda mensal consecutiva, devido principalmente a condições de crédito mais apertadas e à maior percepção de risco. E, embora a categoria de bens de capital tenha crescido 0,8% no mês, tendência de curto prazo não é considerada animadora pela XP, uma vez que em outubro a queda foi 4%.

Continua depois da publicidade

Três das quatro categorias industriais cresceram em novembro ante outubro. Entre esses destaques positivos, está a categoria de veículos automotores, cuja produção aumentou 4,4% em novembro, depois de cair 6,7% em outubro, o que evitou uma contração mais acentuada na produção geral de bens duráveis.

Segundo o relatório da XP, a estimativa preliminar para a produção industrial de dezembro é de uma alta de 0,4% na comparação mensal e de uma queda de 0,2% na anual, mas ainda é preciso aguardar a publicação dos indicadores coincidentes. Para o IBC-Br de novembro (considerado uma prévia mensal do Banco Central para o PIB), a XP prevê queda de 0,3% em relação a outubro (alta de 2,3% na comparação anula).

“O XP Tracker para a variação do PIB do quarto trimestre caiu para -0,1% no trimestre (2,2% no ano) de 0% no trimestre (2,3% no ano), principalmente devido a uma leitura mais fraca do que o esperado para a indústria de mineração. Continuamos estimando que o PIB do Brasil crescerá 3% em 2022. O crescimento econômico deve desacelerar significativamente daqui para frente: projetamos 1% em 2023 e 0,8% em 202”, diz a XP.

Continua depois da publicidade

O Itaú também calcula que  a divulgação de hoje deixa um carrego estatístico de -0,5% para a produção industrial do quarto trimestre. “Olhando à frente, esperamos que o setor permaneça relativamente estável na margem, o que significa que a produção industrial pode encerrar o 4° trimestre em território negativo. Nosso tracking do PIB para o trimestre permaneceu estável em -0,2% na comparação trimestral com ajuste sazonal”, diz relatório assinado por Natalia Cotarelli e Matheus Felipe Fuck.

Leonardo Costa, economista da ASA Investments, considerou a queda de novembro modesta, mas que reforço a imagem que a indústria continuou “patinando” ao longo de 2022, ou seja, andando de lado em com alguma quedas. “A expectativa é que a produção continue em queda moderada no ano”, previu. Ele afirma ainda que a divulgação de dados de serviços e comércio na semana que vem devem ser mais relevantes para uma visão do ambiente econômico.

Para o Goldman Sachs, a composição subjacente do relatório foi mais forte do que a manchete sugere, dado que o declínio da atividade industrial em novembro foi restrito. Houve, por exemplo, uma pressão da contração de bens de consumo duráveis, compensada de forma significativa por ganhos na produção de bens de consumo não duráveis, intermediários e de bens de capital.

Continua depois da publicidade

O banco de investimentos avalia que o setor industrial deverá continuar a enfrentar ventos contrários do impacto defasado de condições financeiras mais apertadas (juros), retornos marginais decrescentes da normalização da atividade “pós-pandemia”, condições de crédito mais exigentes e demanda externa mais fraca. “Do lado positivo, transferências fiscais significativas para as famílias devem amortecer a esperada desaceleração da atividade”, diz relatório.

Segundo o banco a projeção para o quarto trimestre agora está -0,6% no trimestre e em -0,7% para 2022.