Projeções para baixo

Citando deterioração rápida e risco político, economistas veem recessão ainda mais dura para o Brasil em 2020

Bancos têm cortado constantemente as projeções para o PIB: desta vez, foram o JP, Goldman, Morgan e Citi

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SÃO PAULO – Um pouco mais de uma semana após diversos bancos terem revisado drasticamente para baixo a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil (veja mais clicando aqui), várias dessas instituições revisaram novamente as expectativas para a economia brasileira ainda mais para baixo.

O JPMorgan passou de expectativa de contração de 1% para queda de 3,2%, o Morgan Stanley deixou a estimativa cortou de alta de 0,3% para baixa de 3,7%, enquanto o Goldman Sachs passou de baixa de 0,9% para queda de 3,4%. O Citi, relativamente menos pessimista, passou de projeção de expansão de 2,2% para queda de 1,7%, mas vê chances de novas revisões para baixo.

Vale ressaltar que, dois dias antes, o Bank of America havia destacado o Brasil como um dos mais vulneráveis entre emergentes para lidar com a crise do coronavírus, ao lado de África do Sul e Turquia.

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De acordo com o BofA, “o Brasil está melhorando, mas permanece como o terceiro grande emergente mais fraco diante da dívida pública e do déficit fiscal, que são as maiores vulnerabilidades”. Os mais vulneráveis entre os emergentes, segundo o estudo analisando 5 mil indicadores de 71 países, são o Barein, Líbano, Moçambique, Senegal, Tunísia e Zâmbia. Conforme apontam os economistas, felizmente “o FMI dispõe de US$ 1 trilhão” para assistência aos países. Recentemente, o banco reduziu sua projeção para o PIB do Brasil, projetando queda de 0,5%.

Enquanto isso, o Goldman Sachs avalia que a América Latina enfrentará a pior contração econômica desde o pós-guerra, uma vez que a atividade tem se deteriorado em ritmo mais rápido do que em qualquer momento da história. A expectativa é de que a região veja sua economia se retraindo 3,8% em 2020, bem acima dos 2,1% registrados no ano seguinte à crise financeira global de 2008 e dos 2,4%, durante a crise da dívida de 1983.

A perspectiva ainda é que a tendência negativa possa ser intensificada à medida que o número de infecções se eleve e as medidas de contenção tenham que aumentar, o que pode levar a um grande número de falências de empresas. “Isso não apenas minaria o ritmo da recuperação quando o surto viral desaparecer, mas também teria um impacto perturbador no mercado de trabalho”, aponta.

O Goldman Sachs ressalta ainda o pacote de medidas de apoio à economia anunciado pelo governo do Brasil, que gira em torno de 3% do PIB, avaliando esperar que o Congresso brasileiro “aumente a magnitude e amplie o escopo e o alcance das medidas de apoio fiscal propostas pelo governo”, apesar das restrições fiscais que o país vive no momento.  A expectativa é de um avanço para a economia de 3,2% no ano que vem.

Os governos latino-americanos devem responder com cortes de juros para mínimas históricas. Segundo o Goldman, o BC deve reduzir a Selic para 3%, enquanto autoridades monetárias da Colômbia, Peru e México devem seguir os passos com a política de afrouxamento.

“O principal objetivo de curto prazo não é a ortodoxia fiscal, mas impedir o colapso e o congelamento profundo da atividade econômica”, escreveram. “Uma retração súbita e profunda da atividade” pode levar até empresas com boa gestão e financeiramente sólidas ao colapso, disse o banco.

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O JPMorgan, que prevê queda de 3,2% do PIB no ano, prevê baixa sequencial de 6% no primeiro trimestre e forte queda de 20% no segundo trimestre, em base anualizada. A recuperação começaria no terceiro trimestre, com uma alta de 11,5%, seguido por um avanço de 4% nos últimos três meses do ano, com uma recuperação no segundo semestre ainda insuficiente para conter o tombo no ano.

Para tanto, são assumidas restrições parciais na economia indo até no mínimo o final de abril e com empresas e trabalhadores demorando mais que o esperado inicialmente pelos economistas para se reerguerem. A projeção é de um bloqueio parcial e desigual no país, com medidas mais rigorosas na maioria das áreas metropolitanas.

O banco aponta ainda que a ação descoordenada entre os governos eleva as preocupações sobre a extensão e a eficácia das quarentenas, o que pode prejudicar mais investimentos e o consumo das famílias. “No nosso cenário, restrições mais duras precisarão ser implementadas pelo menos até o final de abril, uma vez que o número de casos parece estar crescendo muito mais rápido do que o anteriormente previsto”, afirmam.

Pelo lado fiscal, mesmo com as medidas de estímulo, elas não devem ser suficientes para levar a uma recuperação mais forte. Os economistas do JP, Cassiana Fernandez e Vinicius Moreira, avaliam ainda que, no Brasil, os recentes confrontos políticos podem crescer em tamanho, uma vez que a crise pode levar a tensões sociais mais altas, ameaçando a estabilidade política e econômica. “Por enquanto, essa é nossa principal preocupação com as perspectivas de médio e longo prazo”, apontam.

Já o Morgan Stanley, que cortou a previsão para o PIB do Brasil de alta de 0,3% em 2020 para queda de 3,7%, destacou que o País adotou medidas mais rigorosas de distanciamento social e as condições financeiras estão bastante pressionadas nas últimas semanas.

“Agora, não apenas assumimos que o Brasil enfrentará algumas semanas de medidas de quarentena em muitos estados do país, mas também que condições financeiras mais restritas retardarão o crescimento do crédito para o consumidor, que basicamente tem sido o único mecanismo de crescimento da economia brasileira recentemente”, apontaram os economistas do banco.

Os economistas ainda apontam que o setor corporativo brasileiro tem lutado para assumir riscos, injetar capital e investir em capex (investimento em bens de capital) e, com essa crise, a recuperação do investimento será mais uma vez adiada, afetando o crescimento não apenas neste ano, mas também em 2021. Eles apontam que, com a inflação baixa, o Banco Central pode atuar: “no entanto, como todos sabemos, a política monetária tem suas limitações em momentos como esse, especialmente se os bancos têm aversão ao risco”.

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(Com Bloomberg)