Chance de corte de juros nos EUA em setembro retorna, após dados de emprego

Revisões para baixo na geração de vagas nos meses anteriores, alta no desemprego e desaceleração salarial confirmam maior equilíbrio no mercado de trabalho, dizem economistas

Roberto de Lira

Sede do Federal Reserve em Washington (Foto: Kevin Lamarque/Reuters)
Sede do Federal Reserve em Washington (Foto: Kevin Lamarque/Reuters)

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Os dados de criação de empregos fora do setor agrícola dos Estados Unidos em junho confirmam que há uma desaceleração do mercado de trabalho e os economistas dizem que aumentaram as chances de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) cogitar iniciar seu ciclo de cortes de juros já na reunião de setembro. Mas essa posição não é consenso, uma vez que os indicadores de inflação têm se mostrado voláteis.

De fato a probabilidade e de o Fed cortar os juros em setembro, subiu de 68,4% na terça-feira (3) para 73,6% hoje, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. Há um mês, essa chance estava em 57,2%.

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Para André Valério, economista sênior do Inter, mesmo com o dado de junho ficando acima das projeções – o payroll de 206 mil vagas ficou acima dos 190 mil empregos estimados pelo consenso de analistas – há indícios de desaceleração do mercado de trabalho.

Entre os fatores, ele cita que a taxa de desemprego aumentou na margem, de 4% para 4,1%, e que houve revisões para baixo nas duas últimas divulgações que, somadas, retiraram 111 mil empregos previamente anunciados.

“Com o resultado de junho e as revisões dos resultados prévios, a média móvel de 3 meses de adição de novos empregos ficou abaixo dos 200 mil empregos pela primeira vez em mais de dois anos, indicando que a tendência é de desaceleração do mercado de trabalho americano, como sugerem, também, os outros dados de emprego, principalmente os pedidos de seguro-desemprego”, explicou.

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Ele destaca que, além disso, os salários aumentaram 0,3%, em linha com o esperado, mantendo tendência de desaceleração na variação anualizada, que saiu de 4,1% para 3,9% em junho. A variação de 3 meses anualizada também sugere tendência de desaceleração na alta dos salários.

Para Valério, o mercado de trabalho será a variável determinante para o início do ciclo de cortes nos juros americanos, uma vez que o Fomc, na figura de Jerome Powell, tem se mostrado mais sensível a dados negativos de atividade do que de inflação. “Mantida essa tendência, esperamos que o Fed dê início ao ciclo de cortes na reunião de setembro, condicionada à não reaceleração da inflação, o que não é o cenário base”, prevê.

Matheus Pizzani, economista da CM Capital, também avalia que, em termos de composição, o indicador de novas vagas apresentou uma característica majoritariamente benigna durante o mês de junho. “Destaque para a geração de 49 mil vagas no setor de saúde e cuidados pessoais, número bem abaixo da média mensal dos últimos 12 meses do grupo, que é de 64 mil vagas”, detalha.

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Pizzani lembra ainda que as 206 mil novas vagas ficaram abaixo do número de maio, quando 218 mil empregos foram criados – com este último tendo sido revisado para baixo após uma estimativa inicial de 272 mil empregos.

E além da alta da taxa de desemprego para 4,1%, ele cita que a taxa de participação ficou em 62,6% da população economicamente ativa, ratificando que o crescimento do desemprego, ainda que leve, não se deu de maneira artificial.

“Sob a ótica da política monetária, o resultado do payroll de junho reforça a perspectiva mais positiva para a condução dos juros no decorrer do ano. Os setores mais sensíveis aos ciclos econômicos não foram os principais responsáveis por puxar o resultado do mês de junho, reforçando a percepção de um comportamento mais brando por parte do nível de atividade econômica e um maior balanceamento entre a oferta e demanda por mão de obra.”

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Para Pizzani, cresceu a perspectiva por um primeiro corte de juros na reunião de setembro do Fed, algo que pode se materializar caso as próximas divulgações do payroll e dos principais indicadores de inflação (CPI e PCE) mantenham a mesma composição benigna vista nas últimas semanas.

Na avaliação de Felipe Salles, economista chefe do C6 Bank, as revisões que geraram um saldo “negativo” de mais de 100 mil vagas nos últimos três meses, a elevação do desemprego e a desaceleração dos ganhos por hora apontam na mesma direção: o mercado de trabalho americano continua forte, mas os sinais de desaquecimento estão mais presentes.

“Se o mercado de trabalho americano seguir essa trajetória de desaceleração nos próximos meses, acreditamos que o ciclo de corte de juros começará este ano”, afirma, sem precisar uma data.

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Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, também acredita que os resultados reforçam a tese de que a reunião do Fed em setembro será decisiva para um possível corte de juros. “O que pode beneficiar o Brasil indiretamente, aliviando a pressão sobre o Banco Central, considerando os debates sobre um possível aumento de juros aqui em setembro”, destaca.

Corte só em dezembro?

A avaliação de Francisco Nobre, economista da XP, é que, no geral, os dados mostram que o mercado de trabalho está atingindo um melhor equilíbrio. Isso combinado com os números mais fracos do Jolts divulgados no início desta semana, que mostraram uma recuperação nas vagas de emprego de 7,92 milhões para 8,14 milhões, a proporção de empregos abertos para pessoas desempregadas ficou estável em 1,20.

“Esta medida regressou aos níveis pré-pandemia, embora ainda um pouco superior à média histórica (0,8). Ainda aponta para algum excesso de procura de trabalhadores, embora tenha diminuído consideravelmente desde o seu pico, de 2,0. Isto sugere que o mercado de trabalho continua a regressar gradualmente ao equilíbrio num contexto de política monetária restritiva”, explica.

A XP ainda acredita que o Fed vai cortar os juros pela primeira vez em dezembro, embora já atribua um risco descendente à essa visão. Segundo Nobre, ainda existe algum aperto no mercado de trabalho, especialmente quando se olha para o crescimento anual dos salários, o que deverá continuar a pressionar a inflação dos serviços nos próximos meses.

“No entanto, o mercado de trabalho abrandou consideravelmente desde o ano passado e a taxa de desemprego já está acima do nível que o Fed esperava que terminasse o ano, de acordo com o SEP [o sumário de projeções] de junho. Acreditamos que a mais recente dinâmica do mercado de trabalho irá certamente ajudar no ciclo de flexibilização da Fed que está por vir.”

Sobre a data de início da flexibilização da política monetária, o economista da XP diz que a probabilidade de o Fed cortar mais cedo está aumentando na margem. Ele lembra que ainda há uma quantidade considerável de dados a serem publicados até setembro, incluindo três CPIs, dois PCEs e dois payroll.

“Se os dados permanecerem bem-comportados até então, provavelmente será suficiente para o Fed cortar. No entanto, parece que o Fed se tornou mais cauteloso desde os dados agressivos do primeiro trimestre. Se os dados se tornarem voláteis novamente, o Fed provavelmente esperará um pouco mais. Em qualquer caso, o ciclo de flexibilização da Fed está finalmente a consolidar-se.”

Andressa Durão, economista do ASA, também é cautelosa sobre a possibilidade de o corte de juros começar em setembro, embora reconheça que os dados de mercado de trabalho divulgados hoje corroborem a narrativa de uma economia enfraquecendo. “Na nossa visão, os próximos dados de inflação não devem colaborar. Mantemos o cenário de apenas um corte de juros no ano, na reunião de dezembro”, estima.