Imunização

Brasil deve ter vacinas da Covid para 6% em março, em ritmo mais lento que prometido

O percentual de vacinados no Brasil caminha a passos lentos, com apenas 4% da população imunizada com a primeira dose

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Vacinação contra Covid-19 para idosos com 90 anos de idade ou mais, na cidade de São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Vacinação contra Covid-19 para idosos com 90 anos de idade ou mais, na cidade de São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

RIO DE JANEIRO – O Brasil deve receber este mês um número de doses de vacinas contra a Covid-19 suficiente para imunizar apenas cerca de 6% da população, apesar da promessa feita pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de que a vacinação brasileira atingiria um patamar elevado em março, com quatro vacinas diferentes à disposição.

O percentual de vacinados no Brasil caminha a passos lentos, com apenas 4% da população imunizada com a primeira dose, e a velocidade da vacinação é fundamental para conter a epidemia e reduzir a alta mortalidade, de acordo com especialistas. Apenas o grupo prioritário reúne quase 80 milhões de pessoas — trabalhadores de saúde, idosos, indígenas e pessoas com morbidades, entre outros.

O país registra o surto de coronavírus que mais se acelera no mundo atualmente e bate recordes seguidos de mortes. São quase 1.500 óbitos por dia em média e mais de 266 mil no total.

Segundo pesquisadores brasileiros da Unicamp e da Unesp, em estudo sobre a eficiência da vacinação no combate à pandemia, a vacina da AstraZeneca, que está sendo envasada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reduziria de 35% a 57% o número de mortes provocadas pela Covid-19 se aplicada a um ritmo de 600 mil pessoas por dia — em linha com o que fora prometido pelo governo para este mês.

No entanto, ao contrário das mais de 19 milhões de doses do imunizante prometidas originalmente para março, o país tem garantidas apenas 3,8 milhões de doses fornecidas pela Fiocruz para o mês, uma vez que houve problemas na importação de doses da Índia e a própria Fiocruz tem sofrido atrasos em sua produção, além das incertezas sobre o recebimento de doses do programa Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O impacto que a vacinação pode ter depende em especial da velocidade que a gente vacina”, disse à Reuters o pesquisador Thomas Vilches, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp, um dos autores do estudo.

“A eficiência total da campanha de vacinação não está relacionada apenas com a eficácia da vacina, mas está muito relacionada com a velocidade que a gente consegue distribuir essa vacina para a população”, acrescentou.

Assim como a vacina da AstraZeneca, a CoronaVac também tem potencial de reduzir as mortes por coronavírus, de acordo com o estudo, mas em percentual menor, de 19,5% a 45,2%, se aplicada a um ritmo de 600 mil pessoas por dia.

Se a vacinação atingir o dobro da velocidade, esta redução pode chegar a 73% para a vacina da AstraZeneca e 65% para a CoronaVac, segundo o estudo. “Os resultados dizem respeito à onda da epidemia que ocorre concomitantemente com a vacinação e, a longo prazo, esta redução deve ser ainda melhor, uma vez que a população já está imunizada”, disse Vilches.

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A CoronaVac, da chinesa Sinovac e envasada no Brasil pelo Instituto Butantan, continuará representando a maioria absoluta das doses aplicadas no país este mês, apesar de ter sido duramente atacada pelo presidente Jair Bolsonaro ao longo do ano passado, já que promessas do governo de obter outros imunizantes não se concretizaram.

Em menos de três semanas, Pazuello mudou as contas do governo sobre a oferta de vacinas pelo menos três vezes, passando de uma promessa feita em 17 de fevereiro de disponibilizar 45,9 milhões de doses em março para um número atualmente de 25 milhões a 28 milhões.

Confirmadas, na prática, estão apenas 3,8 milhões de doses da vacina da AstraZeneca envasadas na Fiocruz e 21 milhões de doses da CoronaVac — o suficiente para vacinar 12,4 milhões de pessoas com duas doses, ou 6% da população brasileira.

O número de doses representa uma redução de 46% em relação ao prometido por Pazuello no mês passado, quando o Ministério da Saúde divulgou um cronograma que previa 16,9 milhões de doses da Fiocruz, 8 milhões de doses da indiana Covaxin e 400 mil doses da russa Sputnik V, além de 2,6 milhões de doses do programa Covax e as doses da CoronaVac.

Tanto a Covaxin quanto a Sputnik, no entanto, ainda não receberam aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aplicação no país, e há incerteza sobre as entregas de doses do Covax em todo o mundo.

Até o momento, o Brasil vacinou apenas 8,5 milhões de pessoas com a primeira dose, de acordo com dados das secretarias estaduais de Saúde levantados por um consórcio de veículos de imprensa.

“A vacinação está péssima, a vacina tem que ser muito rápida, não se pode perder tempo, tem que ser o mais rápido possível”, disse o infectologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP.

“Desastre da vacinação”

Pressionado pelo agravamento da pandemia no país em um momento que o restante do mundo começa gradualmente a se recuperar devido, em parte, ao avanço da vacinação, o governo federal passou a correr atrás de imunizantes, mas esbarra em limitação na oferta imediata.

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A Pfizer, cuja vacina foi a primeira do mundo a ser aplicada contra a Covid-19 e que teve uma oferta de 70 milhões de doses rejeitada pelo governo federal no ano passado, agora está perto de fechar um acordo com o ministério, mas com as primeiras doses previstas apenas para maio.

Considerada pelo próprio ministério como a melhor vacina para a realidade brasileira por ser de dose única e fácil armazenamento, o imunizante da Johnson&Johnson também está a caminho de ser encomendado, mas com primeira entrega apenas em setembro.

“A vacinação é um desastre pior do que a gestão da crise”, disse Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e ex-presidente da Anvisa, apontando que o país dependeu que Fiocruz e Butantan fossem atrás das vacinas, ante a inação do governo federal no ano passado.

De acordo com o Ministério da Saúde, agora o Brasil já assegurou 415 milhões de doses de vacinas ao longo de 2021 e negocia mais 161 milhões, o que seria suficiente para vacinar toda a população.

Questionado sobre as reduções no cronograma de doses, o ministério informou, em nota, que as previsões de entregas de vacinas são enviadas pelos fornecedores dos imunizantes e estão sujeitas a constantes alterações, conforme a disponibilidade dos laboratórios.

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