BIS: Falta de preparo na era da IA pode ampliar diferença entre emergentes e ricos

Entidade aponta que emergentes tendem a crescer menos com inteligência artificial no curto prazo, e diz o que é preciso fazer para reduzir a distância dos mais ricos

Paulo Barros

Foto: Dado Ruvic/Reuters
Foto: Dado Ruvic/Reuters

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As economias emergentes devem colher ganhos menores com a inteligência artificial (IA) no curto prazo em comparação com as economias avançadas, segundo avaliação do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês).

Um estudo publicado pela entidade nesta semana aponta que os efeitos da IA sobre produtividade e crescimento variam de forma significativa entre países, com economias avançadas, em média, mais bem posicionadas para capturar benefícios imediatos, e forte heterogeneidade dentro do grupo de países emergentes, como o Brasil.

Segundo o BIS, evidências iniciais indicam que a IA generativa pode elevar a produtividade de tarefas específicas entre 10% e 65%, com avanços relevantes em programação, consultoria e redação profissional.

No entanto, o relatório ressalta que a tradução desses ganhos para a produtividade total no nível agregado permanece incerta. Estimativas para o impacto macroeconômico variam amplamente. Segundo o documento, há projeções que apontam elevação anual de produtividade de apenas 0,07%, enquanto outras indicam ganhos entre 0,3 e 0,9 ponto percentual por ano.

O efeito líquido depende de fatores como realocação de recursos entre setores, grau de má alocação de capital e trabalho e velocidade de adoção da tecnologia, aponta o estudo.

Estrutura produtiva limita ganhos nos emergentes

Um dos fatores centrais para explicar as diferenças entre países é a composição setorial. Setores como finanças, educação e informação apresentam maior exposição à IA, enquanto agricultura, transporte e construção tendem a ter menor potencial de aplicação imediata da IA generativa.

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Economias emergentes concentram parcela maior do valor adicionado em setores como agricultura, enquanto economias avançadas têm participação mais elevada de serviços profissionais e financeiros, considerados mais intensivos em tarefas cognitivas e informacionais.

Segundo o estudo, essa diferença estrutural reduz, no curto prazo, o potencial de ganhos para muitos emergentes.

Riscos de curto prazo

No mercado de trabalho, o impacto permanece incerto. O estudo destaca que emergentes concentram maior parcela de trabalhadores em ocupações cognitivas de baixa qualificação e funções administrativas suscetíveis à automação.

Há evidências iniciais de efeitos negativos em setores como call centers e terceirização de processos de negócios na Índia e nas Filipinas. Ainda assim, o documento ressalta que ajustes no emprego tendem a ocorrer de forma gradual, à medida que empresas reorganizam processos após constatar ganhos de produtividade.

Diferença pode crescer no longo prazo

No horizonte mais longo, as disparidades podem se ampliar caso persistam lacunas de preparação. Simulações citadas no relatório indicam que um aumento sustentado de 0,5% ao ano na produtividade impulsionado pela IA ao longo de uma década elevaria o PIB real médio das economias avançadas em mais de 2 pontos percentuais em relação aos emergentes.

Por outro lado, em um cenário de convergência parcial, com redução pela metade da diferença de prontidão em relação aos Estados Unidos, o diferencial de crescimento entre grupos seria inferior a 1 ponto percentual.

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O estudo conclui que investimentos em infraestrutura digital, qualificação da força de trabalho e fortalecimento institucional são determinantes para que economias emergentes consigam ampliar os ganhos com IA e reduzir a diferença de renda em relação às economias avançadas.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)