Berlusconi deixa o populismo de direita como legado, mas sem a revolução liberal prometida

Empresário de sucesso, Berlusconi chegou ao poder em 1994, com a a derrocada dos políticos tradicionais após a Operação Mãos Limpas

Roberto de Lira

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Silvio Berlusconi, o magnata italiano conhecido como “Il Cavaliere”, que foi primeiro-ministro da Itália em três oportunidades e que morreu nesta segunda-feira (12) em Milão, foi o mais conhecido e controverso político italiano desde o final da 2ª Guerra Mundial.

Alçado ao poder após a enorme descrença com os políticos tradicionais fruto da Operação Mãos Limpas, deixou como legado o populismo de direita, o incentivo à divisão da politica da sociedade italiana e a inspiração para outros líderes que tentam se espelhar em sua trajetória. Mas ele também será lembrado por não conseguir dar a guinada liberal na economia, que sempre defendeu em discursos.

Berlusconi se vendia como um self-made man, o que ajudou muito em seu discurso populista de elogios ao mérito pessoal e ao trabalho. Nascido em 1936, em Milão, Berlusconi começou sua carreira vendendo aspiradores de pó e cantando em navios de cruzeiro, antes de abrir uma construtora e criar uma agência de publicidade, passando para o campo editorial.

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Em 1973 adquiriu o canal Telemilano, o início do hoje conglomerado Mediaset, sempre colocando como meta ultrapassar a popularidade da RAI, o que conseguiu com o sucesso da programação do Canale 5. Após fundar a Fininvest, comprou em 1986 o clube de futebol Milan, que estava perto da falência, e levou o clube a ganhar vários campeonatos nacionais e Ligas de Campeões da Europa.

Baseado nessa história de sucesso pessoal e com forte discurso antiesquerda, criou o partido neoconservador Forza Italia, que venceu as eleições em 1994 e o levou a uma gestão de poucos meses como primeiro-ministro.

Sua vitória na eleição daquele ano é considerada como o início da chamada Segunda República, período imediatamente posterior à queda do Muro de Berlim e a uma ampla reforma na legislação eleitoral que permitiu a chegada de novos atores à disputa na Itália.

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Ele foi a primeira figura pública a se beneficiar da derrocada da política tradicional após os processos anticorrupção da Operação Mão Limpas, que desvendou um esquema envolvendo empresários, políticos e até a Máfia. Mas o próprio Berlusconi nunca foi capaz de se afastar das alegações de ligações no passado com a organização criminosa conhecida também como Cosa Nostra.

“Político teatral”

O jornal Corrieri della Sera o definiu como um político teatral nos gestos, nas brincadeiras me mal gosto e até nas mudanças de comportamento ao longo da vida. Lembrou ainda ele marcou época com suas bandanas, suas doenças, seus amores, escândalos sexuais e seus embates brutais contra quem votava na esquerda, que ele considerava idiotas.

Num editorial publicado nesta segunda-feira em seu site, o jornal diz que ele foi “para o bem ou para o mal, o fundador de uma nova direita e de uma nova política, com ambições liberais e traços populistas”, que fez escola no mundo e dominou a cena italiana por vinte anos, mesmo quando esteve na oposição.

Como primeiro-ministro, no entanto, a avaliação é que ele seguiu com velhos vícios da política local, fazendo uso de nepotismo e clientelismo para se manter no poder.

Também foi lembrado que ele falhou em realizar essa “revolução liberal” que prometera, com menos impostos e mais crescimento econômico. Ele também não conseguiu mudar a constituição, após ser derrotado num referendo. Berlusconi queria um sistema judicial italiano mais garantidor e menos dominado pelos promotores. Certa vez, se referiu ao Poder Judiciário como “o câncer do país”.

Economistas citam que o fracasso de sua plataforma política foi determinado pela ausência de uma política econômica e setorial durante a fase de transição da moeda fraca (a lira) para a moeda forte (o euro). Também houve um crescimento exponencial da desigualdade de renda no país, que lhe tirou boa parte do apoio, especialmente pelo empobrecimento da classe média.

Sobre as promessas não cumpridas, sempre alegou que jogos de poder internos e externos ao impediram de avançar como queria.

Processos

Ele voltou como primeiro-ministro entre 2001 até 2006, gestão que lhe gerou as primeiras acusações de peculato, fraude fiscal e contabilidade falsa, além da tentativa de suborno de um juiz. Foi absolvido em alguns desses processos e condenado em outros.

Depois de reformular e renomear seu partido para Povo da Liberdade, ele conquistou um quarto mandato em 2008, mas passou a ficar mais famoso por escândalos de casos extraconjugais e corrupção. Em 2009, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas, pedindo sua renúncia, que no entanto só veio em 2011.

Berlusconi quase voltou ao poder em 2013, mas numa prova que já perdera parte do brilho, foi expulso do parlamento em uma votação por conta de sua condenação por fraude fiscal. Mas a popularidade ainda era forte: em 2019 foi eleito deputado nas eleições para o Parlamento Europeu. No ano passado, ganhou uma cadeira Senado nas eleições gerais italianas.

Silvio Berlusconi deixa um patrimônio pessoal avaliado em 4 bilhões de euros. Só a Fininvest, com patrimônio líquido de 4,9 bilhões de euros, distribuiu dividendos à família calculados em 150 milhões de euros no ano passado.