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Slawomir Krupa, diretor-presidente do francês Société Générale, mantém um ímã sobre sua mesa. “Stop Basel Endgame!” (“Parem o Basel Endgame!”), diz a mensagem, lembrando-o diariamente da campanha de lobby bancário mais bem-sucedida da história.
Para frustração de Krupa, que também preside a Federação Bancária Europeia (EBF), a vitória ocorreu do outro lado do Atlântico.
Os concorrentes americanos foram recompensados por sua campanha, que incluiu outdoors e anúncios de TV, com uma reversão repentina de um aumento de 16% nas exigências de capital, medidas que alguns estimavam custariam US$ 160 bilhões ao setor.
Wall Street também se beneficiou de uma supervisão menos intrusiva e de revisões em outras regras, enquanto a administração do presidente Donald Trump prometia libertar os bancos do que considera restrições excessivas impostas após a crise financeira de 2008.
Para Krupa e seus colegas europeus, os ventos da desregulamentação demoraram demais para cruzar o Atlântico. Agora, porém, os bancos da região estão mais otimistas após a Comissão Europeia prometer, no mês passado, enfrentar algumas de suas principais reclamações.

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“É, pela primeira vez em anos, um passo firme na direção certa”, disse Krupa sobre as propostas, que poderiam liberar centenas de bilhões de euros em capital e liquidez atualmente presos por barreiras regulatórias nacionais. As medidas também abriram espaço para mudanças em partes do acordo global de capital que enfrentam maior resistência dos bancos europeus.
O pacote apresentado pelo braço executivo da União Europeia foi impulsionado por políticos e bancos que exigem medidas para preservar a “igualdade de condições” global, especialmente em relação aos concorrentes americanos, que há anos levam vantagem e agora contam com o impulso adicional da agenda de corte de regulações de Trump.
Mas, embora os líderes políticos estejam alinhados, os reguladores europeus, receosos de futuras crises financeiras e de seus impactos econômicos, mostram muito menos disposição para flexibilizar regras. Isso prepara o terreno para disputas globais sobre como afrouxar as normas existentes de forma responsável e sobre a necessidade de criar novas regras para lidar com ameaças emergentes, como inteligência artificial e mercados privados.
“Está definitivamente mais difícil, muito mais difícil do que jamais foi, promover mudanças e alcançar consensos”, afirmou Neil Esho, que até março ocupava o cargo de secretário-geral do Comitê de Basileia de Supervisão Bancária, onde as regras de capital do Basileia III atualmente contestadas foram elaboradas.
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“É hora de reagir”
Quando Krupa assumiu a presidência da EBF, em fevereiro de 2025, a ofensiva da indústria bancária americana contra a regulação já estava em pleno andamento.
“É hora de reagir”, declarou Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, em outubro de 2024, enquanto os bancos americanos intensificavam os protestos contra o que classificavam como excesso regulatório.
Na Europa, por sua vez, as atenções estavam voltadas para dois relatórios de referência, elaborados pelo ex-presidente do BCE Mario Draghi e pelo ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta, que apontaram desafios de financiamento e crescimento na região. Os bancos aproveitaram essas discussões para defender reformas voltadas à “competitividade”, argumentando que elas ampliariam a capacidade de concessão de crédito.
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O resultado mais concreto até agora foi o adiamento, pela União Europeia, de parte das novas regras globais conhecidas como Fundamental Review of the Trading Book (FRTB), até que haja clareza sobre os planos dos Estados Unidos. O FRTB aumenta as exigências de capital para operações de negociação, área na qual os bancos europeus competem diretamente com Wall Street e poderiam sair em desvantagem caso adotassem as regras antes dos rivais americanos.
“Acho que perdemos dois anos”, afirmou Krupa, que assumiu o comando do Société Générale em 2023, referindo-se aos esforços dos bancos europeus para obter reformas relevantes. Em aparições públicas, ele e outros presidentes de bancos têm demonstrado forte frustração com a lentidão dos avanços.
Os bancos europeus continuam negociados em bolsa com desconto em relação às instituições americanas, embora essa diferença tenha diminuído nos últimos anos.
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A direção apontada pelo mais recente pacote da UE não é tão agressiva quanto a flexibilização adotada nos Estados Unidos ou no Reino Unido e tampouco ataca diretamente as exigências de capital. Ainda assim, lobistas consideram as medidas americanas um importante catalisador para mudanças na Europa.
Os 27 países da União Europeia não querem ser vistos como simples imitadores dos EUA. Em vez disso, apresentam sua estratégia como uma tentativa independente de tornar o sistema bancário europeu mais eficiente e permitir que os bancos alcancem escala para competir globalmente.
Durante a divulgação dos resultados do Deutsche Bank no mês passado, o CEO Christian Sewing afirmou estar “encorajado” pelo foco crescente em “simplificação e crescimento”.
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Já Wim Mijs, responsável pela gestão diária da EBF, classificou a iniciativa europeia como uma “ruptura” e disse ter ficado especialmente surpreso, e satisfeito, ao ver a Europa abrir espaço para mudanças no chamado output floor, um dos componentes mais controversos do pacote regulatório global.
Divergência com o BCE
Criado para impedir que bancos manipulem modelos internos para reduzir artificialmente suas exigências de capital, o output floor tornou-se peça central das regras finais de Basileia e também um dos pontos de maior resistência por parte do setor.
No início deste ano, os Estados Unidos anunciaram que não adotariam a medida. O impacto doméstico foi pequeno, já que os bancos americanos já não utilizam modelos internos para calcular o risco de suas carteiras de crédito.
O principal efeito foi fortalecer o argumento dos bancos europeus, muito mais afetados pela regra, em favor de uma revisão em nome da igualdade competitiva. A Comissão Europeia aceitou iniciar essa revisão.
Um grande obstáculo continua sendo o Banco Central Europeu (BCE), cujos dirigentes acreditam que o output floor deve permanecer inalterado, segundo pessoas familiarizadas com o posicionamento da instituição.
“Também teremos de ter um diálogo adequado com nossos supervisores e encontrar o equilíbrio correto”, disse Maria Luís Albuquerque, comissária europeia de Serviços Financeiros responsável pela proposta.
O receio da desregulamentação
Enquanto os bancos europeus pressionam seus governos a acompanharem os Estados Unidos, as reformas na indústria financeira americana continuam avançando, em sintonia com a agenda mais ampla de desregulamentação de Trump em setores como tecnologia, combustíveis fósseis e automóveis.
Esse espírito de flexibilização preocupa alguns dirigentes de bancos centrais e órgãos reguladores europeus. Em conversas reservadas com a Bloomberg, eles afirmaram que a postura americana tem contaminado discussões tensas em fóruns internacionais como o Comitê de Basileia.
Segundo um formulador de políticas europeu experiente, em quase duas décadas de participação nessas negociações globais ele nunca viu divergência tão grande entre autoridades americanas e europeias sobre os riscos para a estabilidade financeira.
As preocupações se concentram especialmente nos riscos associados ao sistema bancário, à inteligência artificial e ao mercado de crédito privado, além do afrouxamento da supervisão nos Estados Unidos.
“É difícil avaliar as mudanças na supervisão do Fed, mas o BCE, o Banco da Inglaterra e outros reguladores precisarão determinar se a supervisão está se tornando inadequada”, afirmou Paul Tucker, ex-vice-presidente do Banco da Inglaterra e atualmente pesquisador da Universidade Harvard.
Tucker classificou como um possível “erro confuso” os planos do Federal Reserve de reformar regras-chave de liquidez, o que poderia permitir aos bancos migrar recursos de ativos de baixo retorno, como títulos do Tesouro americano, para aplicações mais arriscadas.
Falta de confiança
Autoridades americanas defendem publicamente a necessidade de “modernizar” a regulação global, expressão que alguns europeus interpretam como sinônimo de “desregulamentar”.
Nos bastidores, os EUA também têm questionado se reguladores financeiros deveriam expandir sua atuação para novos temas, segundo pessoas que acompanham as discussões.
Neil Esho afirmou não esperar mudanças substanciais que dependam de acordos internacionais.
Em depoimento ao Senado americano em fevereiro, Michelle Bowman criticou problemas de governança no Comitê de Basileia, incluindo o que chamou de concentração de liderança em determinadas jurisdições.
Embora os Estados Unidos continuem participando ativamente de encontros bilaterais e multilaterais com seus pares, Esho teme que a coordenação internacional em momentos de crise possa se tornar mais difícil.
“Definitivamente há uma falta de confiança”, afirmou. Segundo ele, muitos enxergam hoje a posição americana como diretamente ligada ao Departamento do Tesouro, o que representa uma mudança importante.
“Acho que alguns acreditam que é possível negociar quase tudo, mas não a independência da política monetária. Eu entendo isso, mas é muito triste.”
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