Ata do Copom destaca a importância da questão fiscal para as expectativas de inflação, dizem analistas

Documento deixa claro que só a chegada da proposta ao Congresso não é suficiente para modificar atual linha da política monetária

Roberto de Lira

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A credibilidade da política fiscal do novo governo é uma fator de extrema importância na condução das expectativas de inflação e, consequentemente, para a política monetária a ser seguida pelo Banco Central. Essa foi uma mensagem crucial da Ata do Copom divulgada na manhã desta terça-feira (27), segundo economista e analistas de mercado consultados pelo InfoMoney.

Segundo o documento referente à reunião do Comitê de Política Monetária da semana passada, é insuficiente apenas a apresentação de um novo acabou fiscal- o conjunto de parâmetros que o governo federal deve mostrar em breve para buscar um equilíbrio sustentável e de longo prazo entre suas receitas e despesas.

Para Marco Caruso, economista-chefe do Banco Original, o recado do BC foi importante no sentido que é preciso que a proposta seja materializada, ou ao menos que ela traga como efeito a melhora nas projeções de inflação.

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Para ele, a questão da proposta das novas regras fiscais ficou bem esclarecida. “Uma coisa é o que a Fazenda vai levar para o Congresso e outra é o que vai sair do Congresso. Não tem certeza porque não tem nada concreto à luz do dia e não se sabe o que vai sair no final. Faz toda a diferença”, comenta.

Caruso também cita como importante a menção da questão parafiscal na Ata, uma vez que a incerteza atual não vem apenas do Ministério da Fazenda. “(A Ata) cita que é importante esse alinhamento entre política monetária e fiscal e que as taxas de juros das concessões de crédito respeitem oferta e demanda, respeitem as condições financeiras que o BC dá”, analisa.

Para o economista, basicamente o BC disse que as taxas subsidiadas dificultam o trabalho de combate à inflação. “O monetário está apertando porque a inflação ainda é alta, então precisa que o fiscal ajude, no sentido de ser ainda restritivo para que esse processo seja rápido e, num segundo momento, quando a inflação finalmente ceder, ele poder cortar juros”, explica.

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, viu uma Ata alinhada com o tom mais duro do comunicado da última quarta-feira (22), quando o Copom decidiu manter a taxa em 13,75%.

Sanchez também dá destaque sobre a questão parafiscal no documento. “O BC pontuou os riscos sobre a importância de as taxas de juros de mercado manterem-se sensíveis à taxa básica. Avalio que se trata de um breve aceno a algumas ações no tocante ao juro de consignado do INSS e da participação de outros bancos, como BNDES, visando o subsídio no crédito, na contramão da restrição da Selic”, alerta.

Cautela e paciência

Mirella Hirakawa, economista da AZ Quest, afirma que a Ata traz lições importantes, sendo que a primeira é exatamente como lidar com o anúncio do novo arcabouço fiscal, prevista para ser feito em breve pelo governo federal. “O anúncio só pode ser incorporado pelo BC se materializado ou se, mesmo sem ser materializado, tiver grande efeito nas expectativas de inflação”, associa.

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Para Mirella, essa explicação do BC traz maior clareza para diminuir a assimetria de informação dentro da expectativas do mercado. Ela destaca que o mercado sabe como funciona essa leitura do BC, de esperar os fatos concretos antes de internalizar uma medida na condução da política monetária, mas vê como importante reforçar isso no momento atual.

Para a economista, a Ata do Copom uma mensagem de serenidade, de cautela e de paciência por parte do BC.

André Fernandes, Head de Renda Variável e sócio da A7 Capital, analisa que foi importante a mensagem de que a harmonia entre as política monetária e fiscal reduz distorções do mercado. “Com isso, acredito que o Copom passa a bola para o governo, dando recado de que um arcabouço fiscal crível pode reduzir as incertezas, o prêmio de risco e melhorar as expectativas da inflação”, defende.

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Fernandes diz ainda que, a caso o arcabouço agrade o mercado quando for divulgado, tomando como histórico de Roberto Campos Neto, que no passado aguardou a votação da reforma da Previdência para começar a cortar a Selic em 2019, é possível aguardar um movimento parecido para a próxima reunião do Copom.

Matheus Pizzani, economista da CM Capital, observa que a questão fiscal seguiu como um importante entrave para o Comitê nessa última reunião, especialmente por conta de seu impacto sobre as expectativas, que possuem canais de comunicação com a economia real e podem acabar impactando negativamente o trabalho feito até aqui pela autoridade monetária.

Pra ele, no entanto, o viés negativo da reunião não deve ser entendido como elemento estático no decorrer do tempo, uma vez que, de acordo com o próprio conteúdo da Ata, a apresentação de um arcabouço credível e bem aceito pelos agentes econômicos pode ser um vetor de mudança no comportamento da política monetária.

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“Desde que cumpra seu papel de fornecer melhores sinalizações para o mercado e encontre resposta nas projeções de médio e longo prazo coletadas pela instituição”, pondera Pizzani.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, afirma que a Ata foi mais dura que o comunicado e que o documento ainda não abre espaço para o início do corte de juros no curto prazo. “O Copom colocou bastante ênfase nas expectativas de inflação, que seguem desancoradas e refletem um cenário de juro neutro maior, principalmente devido ao risco de expansão fiscal”, afirma.

Sobre o novo arcabouço, Rafaela diz que a Ata não faz ligação direta entre a sua aprovação e a queda da Selic, mas indiretamente sim, caso as expectativas de inflação sejam positivamente impactadas.

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Sobre a potencial mudança na meta, ele afirma que o Copom destaca que a atual desancoragem das expectativas é prejudicial para a política monetária, e que decisões que induzam uma reancoragem das expectativas reduziriam o custo desinflacionário e as incertezas associados a esse processo. “Uma combinação de novo marco fiscal crível com revisão de metas poderia ser positivo para a correção dessa trajetória”, defende.

Sobre o mercado de crédito mais apertado, a economista afirma que o Copom reconhece que atividade pode perder mais força, mas por enquanto, os dados de inflação ainda não refletem esse cenário.

Rafaela diz ver dois fatores que podem contribuir para a mudança na visão do Copom até junho. O primeiro é uma queda mais acelerada da inflação de serviços, como o visto no IPCA-15 de março, reflexo de atividade mais fraca. O segundo seria a aprovação do arcabouço fiscal com medidas que de fato reflitam em menor risco de inflação futura. “Caso ambos fatores resultem em alguma redução nas expectativas de inflação, principalmente para 2024, o Copom poderia reavaliar os próximos passos e considerar o início do corte de juros”, diz.

Desinflação demorada

Para a XP Investimentos, o Copom continuou com sua linha de explicar que o processo de desinflação é demorado e que exige alguma acomodação econômica. Mas deixando claro que esse processo já começou e que com “serenidade e paciência” – e alguma ajuda de políticas fiscais e parafiscais – a convergência da inflação para suas metas pode ser alcançada.

“A ata tentou ser educativa, explicando que a desinflação acontece em duas etapas: a primeira, mais relacionada a questões de abastecimento, já aconteceu. A segunda, relacionada às questões de demanda, depende da política monetária e das expectativas”, detalha a XP em relatório.

“O comitê deu indícios de que a atividade está perdendo fôlego, principalmente no mercado de crédito, o que sugere que as condições para a segunda etapa estão sendo criadas”, completa.

Quando a Ata do Copom cita que “a credibilidade das metas perseguidas é componente fundamental do regime de metas para a inflação e contribui para o bom funcionamento do canal de expectativas”, a XP avalia trata-se de uma referência implícita ao debate sobre a alteração das metas já estabelecidas.

A XP também vê nas citações sobre o reconhecimento dos esforços do Ministério das Finanças na busca de “quadro fiscal sólido e credível” como uma busca uma boa coordenação entre as políticas fiscal e monetária.

O JP Morgan também diz que prevaleceu na Ata a preocupação com a desancoragem das expectativas de inflação. O banco de investimentos diz que o BC não parece nem um pouco inclinado a sugerir um afrouxamento iminente em sua política restritiva.

O banco mantém a projeção que cortes na taxa Selic só deve ocorrer no final do ano, em novembro, exceto se houve uma desaceleração econômica mais significativa do que as previsões de crescimento do PIB abaixo do consenso. “A Ata discutiu longamente os efeitos de possíveis instabilidades financeiras no exterior e localmente. O Copom reforçou que está acompanhando de perto a situação, mas vê o impacto direto nos países emergentes como limitado. Em particular, o BC destacou que os bancos centrais globais estão separando os instrumentos de combate à inflação (política monetária) e à instabilidade financeira (medidas macroprudenciais).”

O Bank of America (BofA) viu sinais tanto para quem busca uma leitura de comunicação mais suave (“dovish”) na Ata como para quem procura a os trechos mais duros (“hawkish).

No primeiro caso, o BC destacou que os dados de atividade, crédito e mercado de trabalho seguem desacelerando. Do lado “hawkish”, o aumento das expectativas de inflação de longo prazo foi o principal foco do comitê, que debateu inclusive possíveis mudanças no regime de metas de inflação e seu impacto no processo desinflacionário.

“A diretoria avaliou a possibilidade de aumentar sua estimativa de taxa de juros neutra, em meio a expectativas de longo prazo mais altas, mas optou por mantê-la em 4%”, lembra o BofA em relatório.

Para o Santander, O BC reforçou o compromisso com a meta de inflação e reafirmou a preocupação com os sinais de desancoragem das expectativas e da inércia da inflação subjacente.

Em análise assinada pelo superintendente de pesquisa macroeconômica do banco, Maurício Oreng, foi destacado que o BC adotou uma postura serena diante dos acontecimentos recentes nos mercados financeiros, tanto no Brasil como no exterior e que reafirmou o princípio da separação de instrumentos. Ou seja, a política monetária permanece focada no combate à inflação e as medidas macroprudenciais buscarão o bom funcionamento dos mercados financeiros e creditícios.

Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, avalia a linguagem da Ata veio foi em linha com o tom duro do comunicado pós-decisão. Ela destaca a citação dos eventos de crédito externos, no EUA e Europa, que podem tornar o cenário mais desafiador, e também a foco dado à desancoragem da expectativas de inflação no campo doméstico, que tendem a deixar mais custosa a politica monetária para desinflacionar.

Sobre os problemas com relação ao evento de credito local (o caso Americanas, embora não tenha sido nominalmente citado no documento), a avaliação do Copom é que os efeitos são muito localizados e que caberá endereçar uma política macroprudencial, se for necessário.

“Diferente do comunicado, a Ata menciona o marco fiscal, mas deixa claro que o importante para a condução de política monetária são os seus efeitos sobre aa expectativas de inflação e de dívida pública”, comenta, acrescentando que o BC retira a possibilidade de reação mecânica ao anúncio.

Por fim, o Copom reforçou a estratégia de “higher for longer”, afirma Tatiana, ao ressaltar a necessidade de serenidade e paciência para incorporar as defasagens inerentes ao controle de inflação por meio da taxa de juros.