Analistas veem piora qualitativa no IPCA e reforçam alerta sobre serviços e alimentos

Inflação desacelera para 0,39%, mas composição do índice preocupa economistas para a tarefa de controle da inflação

Paulo Barros

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A desaceleração do IPCA para 0,39% em novembro, como divulgado pelo IBGE nesta terça-feira (10), trouxe preocupações entre analistas sobre a qualidade da composição da inflação. Apesar de o índice ter ficado próximo das projeções do mercado, economistas destacaram a pressão persistente em serviços e alimentos como sinais de alerta.

Para a XP, a leitura reforça o cenário desafiador para a inflação brasileira. “Todas as métricas mais relevantes para a condução da política monetária se deterioraram”, disse a casa em relatório. “Além disso, os fundamentos (expectativas, dados do mercado de trabalho, demanda doméstica e taxa de câmbio) indicam que a inflação não convergirá sem uma resposta de política monetária apropriada”.

Para Leonardo Costa, economista do ASA, o balanço qualitativo do IPCA foi preocupante. Ele destacou o impacto do aumento no preço da carne e dos serviços de alimentação e recreação, o que levou à maior média móvel trimestral dos núcleos de serviços desde abril de 2023. “A aceleração dos serviços indica mais custo para ancorar as expectativas de inflação”, afirmou Costa, que projeta inflação de 4,8% para 2024 e 5,2% para 2025.

Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, também apontou para uma dinâmica inflacionária pressionada pelos serviços, ainda que os números estejam dentro das projeções da instituição. “Os serviços apresentaram uma pressão maior do que prevíamos, e nossa perspectiva para o IPCA de 2024 foi revisada para 4,8%”, afirmou.

Já Nicolas Borsoi, da Nova Futura Investimentos, observou que a desaceleração do IPCA foi parcialmente influenciada por fatores sazonais, como a Black Friday e a redução na bandeira tarifária de energia elétrica. Contudo, ele destacou a piora na média anualizada dos núcleos e serviços, projetando impactos sobre a política monetária: “A qualidade da inflação sugere um aumento de 1,0 ponto percentual na Selic e um tom mais hawkish (tendente à alta de juros) do Banco Central.”

Os economistas do Itaú Unibanco, por sua vez, consideraram o IPCA de novembro em linha com suas estimativas, mas alertaram para a pressão persistente em serviços subjacentes, refletindo o mercado de trabalho aquecido. “A composição foi pior do que esperávamos, com surpresas nos serviços de alimentação fora de casa e beleza. Esperamos que os serviços continuem sob pressão”, afirmaram.

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O Bradesco BBI diz esperar que esses efeitos continuem pressionando a inflação nos próximos meses. “Nos últimos meses, também observamos algum aumento na inflação de serviços, concentrada em certos itens, que acreditamos ser transitório”.

Embora os números tenham vindo próximos das projeções, portanto, o consenso entre os analistas é de que os fatores estruturais, especialmente os serviços, devem exigir maior vigilância da política monetária nos próximos meses.

Inflação se afasta ainda mais do teto da meta em novembro e pressiona BC

Apesar da desaceleração, a alta dos preços em novembro levou a taxa acumulada em 12 meses para ainda mais acima do teto da meta e pressionando o Banco Central antes da última reunião de política monetária no ano.

É com esses dados em mãos que o Banco Central volta a se reunir nesta terça e quarta-feiras para decidir sobre a taxa básica de juros Selic, depois de ter acelerado o ritmo de aperto para 0,50 ponto percentual em sua reunião de novembro, levando-a a 11,25% ao ano.

A mais recente pesquisa Focus realizada pelo BC com especialistas mostra que a expectativa é de uma alta de 0,75 ponto percentual na Selic na quarta, levando a taxa a terminar este ano em 12%, com a inflação em 4,84%.

Os dados indicam que o resultado do IPCA em 12 meses em dezembro ficará fora da faixa visada, e por isso o presidente do BC terá que escrever uma carta informando os motivos do estouro.

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“Para a reunião do Copom desta semana, mantemos a nossa estimativa de alta na taxa de juros de 0,75 ponto percentual. Mas, após a deterioração das expectativas de inflação, apresentadas no último Boletim Focus, e um IPCA ruim, a probabilidade de alta de 1,00 ponto aumentou”, alertou Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

A XP também espera alta de de um ponto percentual amanhã, o que levaria a Selic para 12,25%.

(Com Reuters)

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)