Análise do resultado

PIB do 1º tri mostra resiliência da economia brasileira, mas cenário para 2ª metade de 2022 é mais desafiador

Análises apontam bom resultado impulsionado pelos serviços, mas alta de juros e fatores externos impactarão os próximos trimestres

Por  Lucas Sampaio -

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre veio abaixo da expectativa do mercado, mas a alta de 1,0% foi um bom resultado e melhora o “carrego estatístico” para 2022, de 0,3% para 1,5%, apontam economistas e análises preliminares do indicador.

O desempenho foi puxado pelo setor de serviços, que representa 70% do PIB e foi impulsionado pelas pessoas voltando a circular e a consumir mesmo com o surto da variante ômicron no início do ano. A retração da agropecuária já era esperada, e o lado negativo foi a forte queda dos investimentos.

Os economistas destacam que o resultado do segundo trimestre também deve ser positivo, mas a economia começará a desacelerar a partir da segunda metade do ano (e ainda mais em 2023) devido à forte alta de juros que o Banco Central tem promovido para frear a inflação.

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“O que propiciou uma dinâmica mais forte neste trimestre – a normalização dos serviços e o choque positivo do setor externo – na margem não vão mais trazer mais impulso para a economia, então daqui pra frente não deve ter um crescimento tão vigoroso”, afirma Alexandre Schwartsman, economista, consultor e colunista do InfoMoney.

“Mas dificilmente o PIB vai crescer menos de 1,5% devido ao carrego estatístico – aparte um desastre absoluto. O carrego estatístico saiu de +0,3% para 1,5%, é uma mudança grande. Não é brilhante, mas foi um bom resultado” (o ‘carrego estatístico’ ocorre quando o resultado de um trimestre causa um impacto positivo nos seguintes, assumindo taxas de variação nulas ao longo de ano)”

Divergências sobre o PIB do 2º trimestre

Para Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, apesar de o resultado do PIB ter vindo abaixo das expectativas do mercado, “ainda assim representa uma melhora em relação ao que se esperava no início do ano”. Ele destaca que as transferências do governo impulsionaram o consumo das famílias e, para o próximo trimestre, o crédito e o mercado de trabalho ainda podem sustentar um avanço. “Mas na segunda metade do ano, esperamos que as altas taxas de juros e a inflação desacelerem a atividade”.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, também diz que a alta de 1,0% do PIB “é um número para comemorar”, mas vê um cenário bem mais difícil à frente. “A economia [brasileira] ainda não sentiu no primeiro trimestre toda a politica monetária restritiva nem toda a crise causada pela guerra [entre Rússia e Ucrânia]. Ela começou no fim de fevereiro, então pegou menos da metade do trimestre”.

Agostini também destaca a alta de juros nos Estados Unidos e a desaceleração da economia da China, devido aos surtos de Covid-19 (e os pesados lockdowns impostos pelo governo). “Vai tudo causar efeito um maior no segundo trimestre, então dificilmente vai ter uma manutenção do desempenho positivo. Além disso, o repique de casos de Covid-19 no Brasil pode afetar o setor de serviços nos próximos trimestres. Foi muito bom o resultado [do primeiro trimestre], mas não deve se sustentar”.

Rodolfo Margato, economista da XP, é mais positivo para o segundo trimestre e diz que “as atividades de serviços e varejo permaneceram em trajetória ascendente sólida em abril e maio, de acordo com dados de alta frequência que acompanhamos”, por isso projeta uma alta de 0,7% do PIB no período. “Dito isso, esperamos desaceleração relevante da atividade doméstica no segundo semestre do ano, principalmente devido ao aperto da política monetária”.

Margato diz que o resultado do primeiro trimestre reforça a projeção da XP, de que o PIB do Brasil vai crescer 1,6% em 2022, mas “o balanço de riscos para o crescimento econômico do próximo ano está inclinado para baixo”.

Serviços como destaque do 1º trimestre

O setor de serviços, que foi o que mais sofreu no início da pandemia, foi o grande destaque do PIB do primeiro trimestre. Ele cresceu 1,0%, contra estabilidade da indústria (alta de 0,1%) e retração da agropecuária (recuo de 0,9%).

“A atividade foi estimulada pelos serviços, com uma população mais confiante em consumir mesmo com a ômicron. Agora existe uma dúvida: se os juros vão frear esse crescimento”, afirma Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos. Ele diz que a retração do agronegócio não preocupa, porque foi causada por uma quebra de safra, mas “a indústria é algo mais estrutural”. “A queda do investimento deveria ser um tema da eleição, para o Brasil não crescer só com o motor dos serviços”.

“É um crescimento ancorado no setor de serviços, que vem crescendo bem nos últimos semestres e melhor que os outros setores”, afirma Schwartsman. “No setor de serviços, as atividades são boa parte presenciais. O maior crescimento veio de outros serviços, que inclui academia, restaurante, cabeleireiro, manicure, escola… Tudo o que ficou para trás [na pandemia] está se recuperando. É o setor que mais emprega na economia e que necessariamente precisa ser presencial. Ainda não inventaram uma forma de cortar o cabelo virtualmente.”

Análise do Goldman Sachs aponta que “a resiliência do crescimento do primeiro trimestre deve-se, em grande medida, ao estímulo renovado da política fiscal, ao mercado de trabalho mais forte do que o esperado e ao impacto de curta duração e mais brando do que o esperado para a onda da ômicron no início do ano na mobilidade e na atividade”.

O documento destaca também que o crescimento econômico (e as famílias) “se beneficiaram de uma quantidade razoável de estímulos fiscais nos últimos meses”, entre eles os subsídios ao diesel e ao gás de cozinha, o Auxílio Brasil, os cortes de impostos e de tarifas de importação e os saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e que “a economia teve um desempenho satisfatório, apesar do aperto significativo das condições financeiras e da aceleração da inflação”.

Investimentos como destaque negativo

O destaque negativo ficou para os investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo), que caíram 3,5%, impactados pela diminuição na produção e a substituição por importação de bens de capital. Para Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, a queda no investimento “é particularmente preocupante”. “Se o crescimento da demanda doméstica não é acompanhado de investimentos produtivos, a capacidade da produção nacional atender a demanda nacional fica comprometida”.

Ela destaca que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu em apenas um dos últimos quatro trimestres. “Essa evolução contínua e indesejada pode comprometer o nível de atividade dos próximos anos. Atualmente a FBCF está 14% abaixo do pico da série histórica, em setembro de 2013, e 12% acima do período pré-pandemia”.

Impacto da alta de juros

O Goldman Sachs destaca que “parte do ímpeto de crescimento resiliente do primeiro trimestre será transferido para o segundo trimestre, mas espera-se que o segundo semestre enfrente ventos contrários intensos”, como “condições financeiras domésticas muito apertadas, inflação de dois dígitos, nível recorde de endividamento das famílias e ruído e incerteza gerados por uma eleição polarizadora”, além da fim do impacto favorável da reabertura da economia.

Schwartsman, que foi diretor do Banco Central, destaca também que a política monetária vai começar a impactar a economia a partir do segundo semestre, pois os juros viraram contracionistas entre o terceiro e o quarto trimestres do ano passado – e a defasagem é de geralmente nove meses. “Os juros viraram contracionistas e continuaram subindo. Os juros reais [descontada a inflação] passaram de 3% em outubro e agora estão na casa de 5,5%, 6%. Tem um efeito contracionista que vai se estender ao longo de 2023 também. Ainda tem uma eleição no meio”.

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