Opinião

América Latina: o desafio de superar o baixo crescimento e a desigualdade

Em um cenário mundial de atitudes antidemocráticas, situação na América Latina é alerta de que precisamos avançar para construir uma agenda propositiva

(Shutterstock)

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Nos últimos meses, acompanhamos uma série de crises nos países latino-americanos, desde as questões institucionais no Peru, passando por fortes e violentos protestos no Equador e no Chile e pelas indefinições do resultado eleitoral na Bolívia, além das expectativas frente aos resultados eleitorais na Argentina e no Uruguai no dia 27 de outubro. Todos estes acontecimentos nos levaram a questionar as raízes e as causas deste momento na região.

Cada país tem uma dinâmica política e institucional distinta que levou, nos últimos anos, à deterioração do sistema político e das condições sociais. A região não demonstra estar presa em um mesmo ciclo e não consegue dar respostas na superação de condições históricas de injustiça social, desigualdade e baixo desenvolvimento.

A sociedade latino-americana sentiu a perda dos ganhos de renda obtidos com o boom dos preços das commodities. Os sinais de recuperação econômica ainda são lentos e as previsões do FMI apontam para um crescimento de 0,8% na região em 2019 (abaixo do avanço de 1% de 2018), enquanto o restante do mundo terá expansão de 3,2%. As disputas comerciais entre Estados Unidos e China, bem como a desaceleração econômica mundial, são alguns dos fatores que impactam na dificuldade dos países latinos em retomar o crescimento econômico.

Frente ao ambiente de desaceleração econômica, muitos países implementaram uma política monetária restritiva para conter pressões inflacionárias, bem como uma política fiscal visando à redução dos déficits primários. A diminuição dos gastos públicos, de acordo com dados da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), não foi acompanhada de uma trajetória de redução da dívida pública.

Os avanços sociais que aconteceram no período do boom das commodities na região não persistiram ao longo deste quadro de baixo crescimento e políticas econômicas restritivas. Em 2002, 11,2% da população vivia na linha da extrema pobreza, sendo que, em 2014, o percentual caiu para 7,4%, segundo a Cepal.

No entanto, em 2017, o percentual voltou a crescer e 10,2% da população vivia na extrema pobreza. Se observamos os dados sobre pobreza, também percebemos um aumento no número de pessoas pobres, de 27,8%, em 2014, para 30,2%, em 2017.

A desigualdade nos países persiste ao longo dos anos: o índice de Gini para a região era de 0,488 em 2010, tendo uma pequena queda para 0,466, em 2017. O mapa a seguir indica a relação entre extrema pobreza, pobreza e o índice de Gini por país.

Do melhor para o pior

América Latina: população em situação de pobreza e pobreza extrema e índice de Gini em 2017 (Cepal, Relatório Estatístico da América Latina, 2019)

De maneira geral, os dados reforçam os argumentos de que a situação econômica amplia os impactos negativos no quadro de instabilidade e crise nos países. É importante destacar que os acontecimentos recentes também indicam que as pressões econômicas chegaram no nível micro, não sendo apenas uma discussão teórica sobre os efeitos das políticas econômicas, dado que as pessoas perceberam o impacto nos seus gastos diários e na falta de crescimento dos seus rendimentos.

No caso do Equador, o estopim das manifestações foi o ajuste nos preços dos combustíveis, com o fim dos subsídios para o setor. Já no caso chileno, o aumento dos valores das passagens de ônibus desencadeou os protestos, bem como aflorou as insatisfações com outras políticas sociais, como a área de saúde, educação e de aposentadorias.

Além disso, o aumento da violência nos países e a corrupção endêmica corroboram para uma maior desconfiança quanto aos governos e governantes. Pesquisa da Transparência Internacional indicou que, em 2019, apenas 21% dos entrevistados na região disseram ter confiança nos seus governos e 57% avaliaram que os governos faziam pouco no combate à corrupção.

Este quadro leva ao aumento do descrédito quanto ao sistema representativo e aos partidos políticos. Pesquisa do Latinobarômetro (2018) indicou uma menor taxa de adesão à democracia entre a população latino-americana, com 48% dos entrevistados respondendo que apoiavam o regime democrático.

Entre aqueles que consideravam a democracia a melhor forma de governo frente a outros regimes, também tivemos um declínio: em 2017, 70% dos respondentes afirmavam que a democracia era a melhor forma de governo, enquanto, em 2018, 65% responderam o mesmo nos dez países pesquisados.

De maneira geral, os latino-americanos dão pouco crédito às instituições políticas: somente 15% confiam nos partidos políticos; 22%, no Congresso; e 25%, no governo. As instituições com maiores graus de confiança na região são a igreja (65%) e as forças armadas (46%).

O descrédito quanto ao sistema político tende a ampliar as incertezas políticas e a desconfiança quanto ao status quo, como vemos na eleição Argentina. Da mesma forma vista nas disputas de 2018, grande parte do debate nos países se dá em torno sobre qual é o melhor modelo para responder aos desafios econômicos e sociais.

De um lado, estão aqueles que apoiam a manutenção de políticas macroeconômicas de austeridade, com liberalização e inserção no comércio global. De outro, aqueles que apontam que as injustiças sociais históricas devem ser combatidas, sendo necessária a implementação de políticas de combate à desigualdade.

Este debate ocorreu no México, na Colômbia e no Brasil em 2018 e percebemos atualmente nas disputas eleitorais na Argentina, Bolívia e Uruguai. Com os acontecimentos no Chile, amplia-se ainda mais a preocupação nos governos e no ambiente político em conciliar a retomada do crescimento, mas com um caráter mais inclusivo.

Não parece haver um consenso sobre a melhor opção para os países, o que gera especulações e incertezas. Mas podemos, sim, afirmar que o descontentamento despertou nos cidadãos um maior questionamento em relação aos modelos políticos tradicionais.

Por outro lado, o menor apoio à democracia representativa indica que os caminhos que serão seguidos na construção de novos espaços democráticos não estão claros, o que abriria espaço para a emergência de lideranças sem a legitimidade dos canais institucionais e representativos.

Por isso, o desafio para a política na América Latina é fazer com que estes movimentos encontrem espaço na arena institucional e realmente tragam novos ares no debate das políticas públicas econômicas e na consolidação da democracia na região.

Em um cenário mundial crescente de atitudes autoritárias e antidemocráticas, a situação na América Latina em 2019 é um alerta de que, com desafios e incertezas, precisamos avançar para a construção de uma agenda propositiva, que signifique desenvolvimento e superação das desigualdades econômicas e sociais na região.

*Denilde Holzhacker é Doutora em Ciência Política. Coordena o Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM e é professora no curso de relações internacionais. Sócia da Consultoria Focus RI.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.