Preocupação na região

América Latina não está preparada para o avanço do coronavírus

Entre os governos da região, a resposta à pandemia se divide até agora entre os que negaram a situação e os que agiram

(Shutterstock)
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(Bloomberg) – Durante semanas, enquanto o mundo era tomado pelo pânico devido à propagação do coronavírus, a América Latina parecia em grande parte incólume. Supermercados estavam abastecidos, ônibus circulavam lotados e, há alguns dias, os presidentes do México e do Brasil se misturavam à multidão.

Agora, com o aumento de casos na região, profissionais de saúde alertam que a velocidade e a amplitude da pandemia podem ser diferentes de tudo o que foi visto até agora na Ásia ou na Europa, porque a América Latina não está preparada.

“Nossos serviços de saúde pública já são precários”, disse Vivian Avelino-Silva, infectologista e pesquisadora da Universidade de São Paulo e do hospital Albert Einstein. “Se a Europa, que não tem os mesmos problemas, enfrenta dificuldades para conter a tragédia, o que podemos esperar aqui?”

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A médica tem motivos para se preocupar. A América Latina é a região mais desigual do mundo e mais de um terço da população na região vive na pobreza. No México, há menos de 1,4 leito hospitalar por mil pessoas, o menor número entre países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil, há relatos de pessoas pobres com queimaduras de produtos químicos por causa de receitas caseiras de álcool gel. E, na Venezuela, médicos e hospitais com frequência não dispõem nem de água corrente para lavar as mãos.

A América Latina tem pelo menos 2.300 casos confirmados de Covid-19, um número quase 10 vezes maior em relação à semana anterior e 22 mortes relatadas. O primeiro caso foi registrado no fim de fevereiro, quando um homem de 61 anos voltou da Itália para o Brasil e adoeceu.

Até cerca de uma semana atrás, todos os casos pareciam seguir um padrão semelhante: os doentes eram pessoas de alta renda que pegaram o vírus em outro país e o trouxeram na volta para casa. O diretor-presidente da fabricante de tequila José Cuervo se tornou parte de um surto no México após viagem de esqui nos Estados Unidos. Um elegante casamento de praia no Nordeste do Brasil se tornou o epicentro de um grupo de influencers do Instagram. Uma empregada doméstica de São Paulo brincou dizendo que brasileiros pobres começaram a atravessar a rua quando viam uma pessoa rica.

Há, ainda, os membros da comitiva do presidente Jair Bolsonaro à Flórida que deram positivo. A viagem, que incluiu um jantar em 29 de fevereiro com Donald Trump em Mar-a-Lago, está associada a mais de 20 casos, como o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno.

Entre os governos da região, a resposta à pandemia se divide até agora entre os que negaram a situação e os que agiram. Enquanto Argentina, Peru e mesmo Venezuela foram rápidos em adotar medidas de confinamento, a vida segue com relativa normalidade no México e no Brasil, as maiores potências da América Latina em tamanho, poder econômico e número de pessoas.

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, participou de uma conferência de petróleo lotada na quarta-feira e cumprimentou participantes com os tradicionais beijos na bochecha.

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Isso depois de um festival de música de dois dias realizado na Cidade do México com a presença da banda Guns N’ Roses.

“Como permitimos um concerto com 70 mil pessoas no fim de semana?”, perguntou a senadora da oposição Josefina Vázquez Mota a uma autoridade de saúde em audiência na terça-feira. “Como não ficar aterrorizados quando observamos o que está acontecendo na Itália e na Espanha?”

Médicos da região alertam que, uma vez que o vírus comece a se espalhar livremente nas comunidades mais pobres, algumas das quais não têm redes adequadas de água ou esgoto, isso pode desencadear uma crise humanitária. Ariel Izcovich, especialista em medicina interna do Hospital Aleman, em Buenos Aires, disse que as instalações privadas onde trabalha podem lidar com um grande número de casos, mas o sistema de saúde pública provavelmente ficará saturado.

“Isso é universal para toda a América Latina”, disse.

Susan Martins, diarista viúva de 36 anos e com dois filhos, disse que a quarentena autoimposta é impossível de se aplicar em áreas de baixa renda. Os brasileiros, como a maioria dos latino-americanos, são mais sociais no dia a dia e muitas gerações de uma família moram sob o mesmo teto. Além disso, questiona a diarista, o que as crianças vão fazer?

“Filhos de rico têm videogame e pais que podem levá-los ao parque”, disse. “As crianças pobres não têm nada, então não tem como impedir que saiam para brincar com os filhos dos vizinhos.”

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