Femtech

De grávidas para grávidas: startup brasileira de saúde da mulher conquista investidores internacionais

Theia tem clínica física e aplicativo para acompanhar mulheres que querem engravidar, estão grávidas ou já tiveram um filho

Por  Mariana Fonseca -

Flavia Deutsch está em sua terceira gestação, enquanto Paula Crespi está em sua segunda. Mas as duas empreendedoras têm também outra criação, desta vez compartilhada: a Theia. A startup de cuidados com a maternidade completou recentemente dois anos de vida – e conquistou investidores dos Estados Unidos e da América Latina.

Nesta quarta-feira (13), a Theia anunciou a captação de um investimento de R$ 30 milhões. A rodada semente foi liderada pela gestora americana 8VC, que tem no portfólio empresas como a americana The Boring Company, de Elon Musk, e o unicórnio da saúde Oscar Health. Participaram também a gestora americana especializado em saúde Canaan (que tem no portfólio outra clínica de saúde da mulher, a Tia) e a gestora latino-americana Kaszek Ventures (que já investiu em Gympass, Loggi e Quinto Andar). A Kaszek havia liderado a rodada pré-semente da Theia, de R$ 7 milhões, com participação da gestora brasileira Maya Capital.

Esses investidores estão olhando para a mesma tendência: a saúde da mulher se tornará um mercado trilionário nos próximos anos. As startups que focam nesse segmento receberam até nome próprio: femtechs. Agora, o dinheiro chegou até uma femtech brasileira.

Flavia e Paula se conheceram em um MBA na Universidade de Stanford. Depois, foram para o mundo das startups: Flavia trabalhou na Acesso, enquanto Paula foi para o Guiabolso. Flavia tinha dois filhos na época, e Paula estava esperando seu primeiro. A ideia da Theia veio da experiência pessoal das empreendedoras com a gravidez.

“Mesmo com uma rede de apoio, continuávamos nos sentindo sozinhas e sem ter com quem conversar sobre medo e solidão”, disse Flavia em uma entrevista ao Do Zero Ao Topo, marca de empreendedorismo do InfoMoney.

As empreendedoras validaram essa percepção ao entrevistar mais de 500 mulheres. Especialmente na primeira gravidez, elas disseram não se sentirem confiantes em suas próprias informações. “As mulheres sentem que seu poder de decisão vai diminuindo até o parto, levando a cesáreas sem justificativa. ‘Frustração’ foi a palavra mais associada a esse momento”, completou Flavia. “A gente quer que as mulheres sejam vistas como um todo, e não como uma barriga que carrega um bebê.”

A Theia começou com uma solução puramente digital em 2020, acompanhando a mulher no desejo de engravidar, pré-natal, parto, pós-parto e acompanhamento pediátrico do filho. A paciente baixa o aplicativo da startup. Lá, pode conferir sua ficha de saúde e receber alertas semana a semana para agendar consultas digitais ou presenciais com doulas, enfermeiros, médicos, nutricionistas, psicólogos e terapeutas credenciados pela Theia.

São profissionais de 14 especialidades, com prontuário compartilhado e treinados pela startup para um mesmo padrão de atendimento. A paciente recebe ainda uma especialista pessoal, que acompanha sua jornada e coordena as orientações de todos os profissionais de saúde.

O próximo passo para as empreendedoras foi integrar a solução online com uma offline. A Theia inaugurou seu primeiro espaço de tijolos e cimento em janeiro de 2022. “Foi uma forma de ter maior controle sobre a nossa experiência de cuidado ponta a ponta da mulher grávida, especialmente em exames que precisam ser físicos. A clínica entrou como parte da nossa estratégia de escala”, disse Flavia.

O espaço tem enfermeiras obstetras, ginecologistas, fisioterapeutas pélvicas e pediatras. Os partos são feitos por médicas credenciadas e pela equipe da Theia em hospitais. No Brasil, cesáreas responderam por 84% dos partos em 2019, segundo um estudo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Já na Theia, representam 35% dos partos. Os outros 65% dos partos são vaginais.

Segundo as empreendedoras, a única clínica física atual já suporta a demanda das pacientes da Theia. O investimento de R$ 30 milhões vai principalmente para outro passo importante na ampliação das clientes atendidas pela Theia: firmar parcerias com planos de saúde.

As consultas pela startup são particulares atualmente, custando entre R$ 200 e R$ 400. “Um pequeno grupo consegue pagar no particular. As parcerias serão fundamentais para acelerar nosso crescimento, permitindo que as pacientes apenas apresentem suas carteirinhas do plano”, disse Flavia. A Theia já está em negociações com duas operadoras de planos de saúde.

Outra parte do dinheiro será usada em tecnologia. São dois objetivos: melhorar a experiência do aplicativo da Theia, e ampliar a quantidade de dados coletados e integrados no prontuário eletrônico desenvolvido pela startup. “Mais profissionais poderão usar o prontuário e os dados serão mais bem trabalhados. Assim, temos mais escala de atendimento e podemos fornecer indícios preditivos de alguma questão que pode surgir ao longo da gestação”, completou Paula.

A Theia cresceu sua receita em cinco vezes na comparação entre 2020 e 2021, realizando mais de mil atendimentos ao longo do último ano. Para 2022, a startup projeta um salto anual de 20 vezes na receita.

Para as empreendedoras, a conquista do novo investimento e as metas ambiciosas são sinais de que os investidores finalmente veem a oportunidade de atender o mercado de saúde para a mulher.

“Investidores daqui e de fora não enxergam mais esse mercado como um nicho. Pelo contrário: é um setor enorme, com dores latentes e nas quais a tecnologia pode fazer a diferença. Nossa rodada valida essa percepção dos investidores sobre o momento do mercado, e estamos apenas no começo”, concluiu Flavia.

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