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SÃO PAULO – Um dos termos do vocabulário econômico que mais assustam as pessoas é, certamente, a inflação. Afinal de contas, o aumento do nível geral de preços da economia vem acompanhado, em geral, de perda do poder aquisitivo, já que os salários muitas vezes sobem menos que o custo de vida.
Não é à toa, dessa maneira, que os brasileiros estão mais atentos aos preços ultimamente, visto que mesmo após o repique inflacionário verificado no início do ano ter sido causado por fatores sazonais, as projeções continuam apontando para uma maior alta dos preços no atacado nos próximos meses.
Mas, diante deste quadro, existe motivo para preocupação? Será que os maiores preços no atacado irão ser repassados integralmente para o varejo? Até onde a maior inflação no atacado pode afetar o seu bolso?
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Um pouco mais sobre os índices de preços
Antes de respondermos a estas questões, devemos entender, em um primeiro momento, o que são os índices de preços e, feito isso, qual a diferença entre os IGPs (Índice Geral de Preços) e os IPCs (Índice de Preços ao Consumidor). Neste sentido, para medir a inflação é necessária uma medida, e a forma mais simples encontrada é compor uma cesta de produtos e medir a variação de preços. Este é o conceito básico de todos os índices de inflação.
Para criar o índice, é necessário escolher uma cesta de produtos representativa. Assim, baseados em pesquisas de orçamento familiar, os institutos, como a Fundação Getúlio Vargas, a Fipe e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que calculam os índices, montam uma cesta de produtos que representa a realidade de consumo da parcela da população que o índice tenta medir.
IGPs são mais “sensíveis” que os IPCs
Partindo deste princípio, fica um pouco mais fácil entender o porquê da diferença entre os vários índices de preços, visto que eles medem cestas diferentes para parcelas diferentes da população. Assim, enquanto os IPCs consideram apenas os preços praticados no varejo, os IGPs são mais amplos, considerando, além dos preços no varejo, também os no atacado e na construção civil.
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Contudo, os pesos de cada um destes componentes dos IGPs são diferentes entre si, de forma que o IPA (Índice de Preços ao Atacado) responde pela maior parte dos índices. De acordo com a metodologia utilizada pela FGV, o IPA tem um peso de 60% no IGP-M, IGP-DI e IGP-10, enquanto o IPC corresponde a 30% do índice e o INCC (Índice Nacional da Construção Civil) a 10%.
Como o componente atacado tem um expressivo peso na composição dos IGPs, estes índices tendem a “sentir” primeiro as pressões decorrentes de oscilações cambiais, sendo este um dos fatos que levam os IGPs a terem variações bem superiores àquelas apresentadas pelos IPCs. Além disso, devemos acrescentar que os reajustes de preços no atacado não são repassados de forma imediata para os consumidores.
Inflação no atacado pode levar a reajustes no varejo
Mas, o que justifica o repasse da maior inflação no atacado para os preços no varejo? Ou seja: como a aceleração dos preços no atacado pode afetar o bolso dos consumidores? Bem, como primeiro mecanismo de repasse, podemos apontar a recomposição de margens pelos empresários, visto que, após pagarem mais aos seus fornecedores, as empresas buscam repassar boa parte do custo para os consumidores.
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Assim, torna-se bastante comum que períodos de alta inflação no atacado sejam sucedidos por maiores preços também no varejo, já que os empresários tendem a remarcar os seus preços a fim de evitar a deterioração de suas margens operacionais. Um outro mecanismo pelo qual se dá o repasse é via contratos, especialmente aqueles no caso de aluguel, que utilizam como índice de reajuste os IGPs, da Fundação Getúlio Vargas.
Algo semelhante ocorre com as tarifas de energia elétrica e telefonia, que geralmente são reajustadas com base na variação destes índices da FGV. Assim, com a correção dos preços da habitação e das tarifas de serviços, em geral indexados aos IGPs, os preços ao consumidor tendem a registrar maiores altas, onerando bastante o bolso dos consumidores.
Esse repasse irá acontecer neste ano?
Apesar destes mecanismos de repasse para o varejo mais cedo ou mais tarde poderem afetar os preços ao consumidor, pelo menos na teoria, parece que o mercado não vem acreditando muito nesta hipótese. Ou senão, parece que o mercado não acredita que este repasse ocorrerá de forma integral, de forma que os preços ao consumidor devem absorver somente uma parte da maior inflação no atacado.
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Esta perspectiva justifica-se pelo fato de que a experiência histórica nos mostra que os mecanismos de repasse da inflação no atacado para o varejo não acontecem de forma imediata, mas também não demoram tanto para ocorrerem. Isso quer dizer, em outras palavras, que se fosse para os IPCs subirem forte, em função de um possível repasse da aceleração da inflação no atacado, isto já teria acontecido.
Mas o que explica este repasse não integral? Grande parte dos analistas argumenta que, com a perda do poder de compra da população, os empresários têm pouco espaço para recomposição de margens, o que evita que a maior inflação no atacado chegue de forma integral ao varejo. Dessa maneira, mesmo com o mercado esperando maior inflação no atacado, é bastante possível que o bolso do consumidor seja menos prejudicado desta vez.