Reconstrução do RS: quando internet voltará ao normal para os gaúchos?

Telefonia móvel conseguiu se unir e reativar serviços criando uma grande rede única. Mas empresas de banda larga estimam prejuízo bilionário com infraestrutura debaixo d´água

Anna França

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Depois de deixar um rastro de destruição sem precedentes no Rio Grande do Sul, afetando 469 dos 497 municípios do estado, com 172 mortos e mais de 575 mil pessoas desabrigadas, as enchentes também destruíram boa parte dos sistemas de telecomunicações no estado, tanto móvel quanto fixa. Um mês depois do maior desastre ambiental da história brasileira, o setor ainda avalia a dimensão total dos prejuízos enquanto tenta colocar os serviços essenciais para funcionar.

Apesar de ter suas torres atingidas, as operadoras de telefonia móvel conseguiram mais rapidamente resolver os problemas da infraestrutura roteando os sinais e criando um sistema de roaming, ou uma grande rede única. Dessa forma, os clientes de uma operadora puderam  navegar pela rede de outra que estivesse funcionando naqueles piores momentos.

De acordo com a Conexis, entidade que representa as operadoras do setor, o foco inicial foi ajudar a população afetada pelas fortes chuvas, restabelecendo os serviços. “Para isso, as empresas forneceram bônus de internet para seus clientes e habilitaram seus sistemas de redes de forma que, onde há apenas uma das redes disponíveis, automaticamente os clientes de qualquer operadora possam acessar uma rede disponível. Outras frentes são o fornecimento de wi-fi em abrigos, permitindo a comunicação da população e das equipes de trabalho, e isenção de multas e juros”, informou a Conexis em nota.

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Já para os sistemas de telecomunicação fixa, a situação foi um pouco pior, deixando cabos e fibra óptica sem operação. Há estimativas de que mais de 600 pequenas prestadoras de serviço de banda larga fixa tiveram seus equipamentos destruídos, deixando mais de 300 mil assinantes sem conexão. Segundo dados da InternetSul, associação que reúne os provedores gaúchos, serão necessários ao menos 36 meses para que os serviços afetados sejam restabelecidos completamente, desde os núcleos de redes até os endereços dos clientes, com um custo estimado em R$ 1,21 bilhão.

Hoje, os pequenos provedores de Internet são responsáveis por mais de 53,4% do mercado de banda larga fixa no Brasil. Só no Rio Grande do Sul, essas empresas atendem quase 2 milhões de clientes, conforme dados da Internet Sul.

Aumento de equipes

As empresas, tanto de telefonia móvel como fixa, aumentaram suas equipes para atuar de forma ininterrupta, a fim de retomar o serviços, uma vez que a conectividade, tanto fixa como móvel, é um serviço essencial para as operações de resgate e de retomada da normalidade no estado.

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Com o reestabelecimento da energia e a liberação de acesso aos técnicos nas áreas afetadas, na medida em que a água baixa, as equipes das empresas ainda avaliam a necessidade de reparo dos equipamentos ou sua substituição. Muitos equipamentos foram completamente danificados e exigirão a troca completa da infraestrutura, apontam as companhias.

Tudo isso levou a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a adotar medidas para o enfrentamento da emergência, coordenando as prestadoras de serviços para dar respostas rápidas aos incidentes. Assim, mesmo com antenas de telefonia móvel e redes de fibra óptica danificadas, o Rio Grande do Sul não ficou totalmente sem o funcionamento de redes.  

“O compartilhamento de redes permitiu ao cidadão manter-se conectado independentemente da prestadora, sem necessidade de configurações no celular. Caso o celular não se conectasse automaticamente com outra rede, orientamos que seja feita uma ativação do roaming nas configurações do aparelho, bem como a seleção automática de rede, para a conexão ser realizada”, informou a Anatel.

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O sistema de roaming ficará ativo até que as prestadoras alcancem a recuperação dos serviços monitorados pela Anatel. Enquanto isso, equipes das companhias trabalham para recuperar a rede da melhor forma possível.

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Socorro às empresas

O ministério das Comunicações vai liberar R$ 1,7 bilhão em recursos disponíveis no Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para o Rio Grande do Sul por meio do Banco Nacional de desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

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Os empréstimos terão prazos de até 15 anos para pagamento, incluindo carência e amortização, correção pela Taxa Referencial (TR), pela taxa básica do banco, limitada a 1% ao ano, e pela taxa de risco de no mínimo 0,2% anual. A liberação dos recursos já está disponível em sistema. 

Mas as empresas, reunidas nas associações, pediram ainda a liberação dos recursos não reembolsáveis do Fust para a recuperação da infraestrutura com financiamento a “juros simbólicos” e alguma forma de desoneração para o segmento.

Monitoramento

A Anatel informa que, após um mês da tragédia climática, ainda monitora os impactos nos serviços de internet fixa no Rio Grande do Sul, bem como o serviço de telefonia fixa, especialmente os serviços de emergência (tridígitos, como 193). De acordo com a agência, há 902 empresas com sede no Estado do Rio Grande do Sul autorizadas a prestar o serviço de banda larga fixa. As dez maiores companhias do setor representam 65,3% dos 3.472.199 acessos de banda larga fixa no estado. 

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“São 497 municípios no Rio Grande do Sul e mais da metade deles foi afetada pela situação climática extrema. Contudo, há uma variação grande [do impacto] em cada caso. Quanto maior a quantidade de prestadoras presentes, maior a chance de ter ao menos uma com sinal disponível”, informou a agência em nota.

Se o consumidor for cobrado por um serviço que não foi oferecido por um período, é importante que ele entre em contato imediatamente com a empresa prestadora do serviço para relatar o problema e solicitar o ressarcimento. O consumidor também pode registrar uma reclamação junto à Anatel, que irá investigar o caso e garantir que as devidas providências sejam tomadas pela empresa.

As prestadoras de telefonia móvel também oferecem à Defesa Civil o serviço de alertas de novas emergências à população em situação de risco de desastres por meio de mensagens SMS, mediante cadastro.

O que dizem as operadoras?

A TIM Brasil informou que, após as enchentes no Rio Grande do Sul, a operadora já está com o sinal reestabelecido em todas as cidades atingidas e assegura que não existem municípios totalmente desconectados no estado, como informa o diretor de tecnologia (CTO) da operadora, Marco Di Costanzo. “Nesse esforço enorme de recuperação contamos com o suporte de vários técnicos deslocados de outros estados, além dos que já atuavam no RS, bem como da estrita colaboração das autoridades, dos parceiros e das operadoras para abertura mútua do roaming nacional. O contingente de técnicos atuou de forma ininterrupta nas atividades de restabelecimento dos sites, no abastecimento dos geradores móveis e na recuperação das fibras rompidas”, disse o executivo.

Após a recuperação e reconstrução da infraestrutura de rede, a TIM planeja manter um grupo de trabalho técnico permanente, a fim de assegurar o atendimento emergencial e de se preparar para novas calamidades públicas, implementando mecanismos avançados de proteção. “Apesar de desejarmos que isso não ocorra novamente, precisamos estar melhor preparados para a possibilidade de uma crise desse porte se repetir”, afirma.

No Rio Grande do Sul, a TIM informa que é a única operadora com 100% dos municípios cobertos com o 4G. O trabalho de recuperação da rede será intensificado a partir da liberação total das estradas e do reabastecimento da energia, conforme o nível da água baixar. Desde os primeiros dias da enchente, a TIM declarou que focou na segurança de suas equipes e garantiu aos clientes (Pré e Controle), até o dia 25/05, pacote com bônus de internet grátis, o que terá renovação reavaliada. A empresa também liberou o roaming entre as operadoras. Além disso, a TIM atua com diferentes frentes para arrecadação de recursos financeiros para a sociedade. E, em uma campanha interna, para cada real doado por funcionários, o Instituto TIM irá doar três.

A Claro informa que, além dos esforços para retomada dos serviços, também firmou parceria com o Centro de Logística do Gabinete de Crise do Governo do Rio Grande do Sul para operacionalizar um canal de comunicação exclusivo, para orientar aqueles que quiserem fazer doações nacionais de carga superior a 1 tonelada (mil quilos) para contribuir com os municípios gaúchos atingidos pelas enchentes. A Claro conta com um número de telefone (número 0800 205 5151) e uma equipe de atendimento das ligações, funcionando todos os dias da semana, das 7h às 21h.
Outra frente em que a Claro tem atuado é na reconexão das comunicação para os órgãos que atuam na crise, como Defesa Civil, Governo do Estado, prefeituras e hospitais. A empresa concedeu roteadores 4G e disponibilizou conexão por Wi-Fi, inclusive com apoio de satélites e uma antena móvel (COW). Também foram doados equipamentos, como 10 modems para a empresa pública de TI de Porto Alegre, e há equipes de prontidão para atender chamados desses serviços.

Ajuda vinda de fora

Até mesmo a Starlink, provedora de internet por satélite do empresário Elon Musk, doou mil antenas para ajudar socorristas no Rio Grande do Sul. Os equipamentos ajudaram a restabelecer as comunicações nos principais pontos da Defesa Civil e da Segurança Pública, em unidades de saúde, escolas e serviços públicos essenciais durante o período que perdurar a calamidade.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro