Qual o gosto de um vinho de 127 anos que vale mais de R$ 600 mil?

Esquecido em uma caixa, o Romanée-Conti de 1899 foi rastreado até a aristocracia francesa, recuperado por um colecionador atento e acabou na taça de alguns dos maiores nomes do mundo do vinho

Victória Anhesini

Freepik
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Especialistas de renome internacional se reuniram em uma sala exclusiva de um restaurante estrelado pelo Guia Michelin, na região centro-leste da França, para observar uma garrafa de aparência desgastada: um Romanée-Conti 1899, do Domaine de la Romanée-Conti (DRC), um dos vinhedos mais prestigiados da Borgonha.

Esse tipo de vinho, antes restrito à nobreza europeia, hoje movimenta fortunas entre bilionários — uma garrafa da safra 1945 já chegou a ser vendida por US$ 558 mil em leilão. Descrita como um “unicórnio”, a garrafa teve sua autenticidade confirmada pela marcação do ano na rolha, visível através do vidro, preservando a caligrafia original. Avaliada em cerca de € 100 mil, ela normalmente seria tratada como relíquia de coleção, não como bebida.

Mas o empresário e investidor de vinhos de Singapura Soo Hoo Khoon Peng decidiu abrir o rótulo 12 meses após comprá-lo, como presente de 50 anos. “Não é sobre status, e sim sobre aprendizado e conexão humana”, disse ele à CNN.

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A trajetória do vinho é tão rara quanto seu valor.

O exemplar remonta à aristocracia francesa, em especial à família Brou de Laurière, que adquiriu a garrafa diretamente do produtor original e a manteve por décadas em sua adega. Após a morte de um descendente, em 2011, o rótulo danificado não foi reconhecido em um leilão local e acabou vendido como parte de uma caixa genérica de “vinhos tintos do século XIX”, por algumas dezenas de euros. Só depois um colecionador atento identificou o Romanée-Conti 1899, que acabou chegando a Soo Hoo via Maison Pion.

Mais que um objeto de luxo, o vinho é um registro líquido de outra era. Produzido com uvas Pinot Noir de pé-franco — videiras que não foram enxertadas em raízes americanas — ele sobreviveu à devastação da filoxera, a duas guerras mundiais e a mais de um século em adega.

Só vinhos de altíssima qualidade e potencial de envelhecimento resistem por tanto tempo, e isso exige condições de armazenamento quase perfeitas. O ullage, espaço de ar no gargalo, ainda era compatível com um vinho em bom estado após 127 anos. Na taça, o grupo seleto convidado por Soo Hoo encontrou um líquido âmbar com reflexos alaranjados, aromas de chá, ameixa em conserva e flores secas.

William Kelley, editor-chefe do The Wine Advocate, observou à CNN que “aos 127 anos, a fruta primária desapareceu”, dando lugar a uma presença mais etérea e profunda. Olivier Pion, da Maison Pion, chamou o resultado de “um milagre”. Para Soo Hoo, o alívio foi simples e direto: “O fato de o vinho ainda estar vivo já é um alívio”.