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(SÃO PAULO) – Lembra quando todo mundo tinha medo da Microsoft e de como ela parecia estar controlando todo o negócio de computadores do mundo?
Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, a Microsoft foi acusada de usar seu domínio do mercado de software para esmagar competidores. Analistas e autoridades preocupavam-se que a companhia também controlasse a internet e softwares fundamentais.
Voltemos ao momento atual. A Microsoft perdeu novas oportunidades no mercado como pesquisa online e comunicação e comércio através de dispositivos móveis, ficando em segundo plano enquanto o PC se tornava um dispositivo cada vez mais pitoresco. Um dos maiores vencedores na era pós-Microsoft tem sido o Google, que lidera um enorme pedaço do mercado de busca.
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Uma semana atrás, detalhes e certa maneira condenatórios a respeito de uma investigação antitruste antiga da Comissão Federal de Comércio dos EUA sobre o Google vazaram nas mãos do Wall Street Journal. Digamos que o Google de hoje se parece com a Microsoft de ontem.
Os documentos da comissão, datados de 2012, confirmaram que o Google possui um monopólio em pesquisas online, com mais de dois terços do mercado dos EUA e cerca de 90% do mercado em algumas partes da Europa.
Mais importante que isso, a comissão descobriu que o Google não tinha vergonha de usar esse poder a seu favor. Alguns membros da comissão consideraram quatro práticas abusivas: o Google favorecia seus próprios resultados em buscas, em detrimento de rivais; intimidava sites como o Yelp, TripAdvisor e Amazon escondendo informações; ele impedia que anunciantes fizessem campanhas em outros mecanismos de buscas e que outros sites trabalhassem com seus rivais.
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No fim das contas, o FTC não processou o Google por abusar de seu monopólio e não encontrou nenhuma violação da lei. Mas a reportagem criou tanto falatório que a comissão lançou um comunicado essa semana, reiterando que não encontrou “nenhuma base legal para agir a respeito doa foco principal da investigação: pesquisa”. A presidente da FTC Edith Ramirez e as comissionarias Julie Brill e Maureen Ohlhausen disseram nesse comunicado: “como constatamos quando a investigação foi arquivada, a comissão concluiu que as práticas de pesquisa do Google não eram ‘comprovadamente anti-competitivas’”.
Mas tudo isso pode ser fugir do assunto. Se formos falar sobre o Google estar entre as companhias mais importantes e inovadoras de tecnologia daqui 10 anos, o desacordo a respeito das práticas antitruste do Google é algo a parte.
Jogar duro contra seus competidores em pesquisa não fez com que o Google se tornasse uma companhia líder nas áreas que importam agora a consumidores e anunciantes, como redes sociais, gadgets e, cada vez mais, mensagens.
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O Google não respondeu rápido às mudanças em comportamento de consumidores que estão fazendo com que a pesquisa online se torne cada vez menos relevante. Conforme a pesquisa tradicional na web se torna menos importante, o Google, uma companhia cujo nome se tornou sinônimo de pesquisa, também se tornará.
Com a erosão da pesquisa online, as redes sociais mudaram a maneira coam que descobrimos novos conteúdos – pense em notícias em tempo real no Twitter e acordos do Facebook para distribuir notícias em sua plataforma. Isso acontece mais especialmente em dispositivos móveis.
O rival do Facebook criado pelo Google, Google +, nunca fez sucesso. Mesmo o YouTube, comprado pelo Google e que tem uma base mensal de 1 bilhão de usuários, não tem o mesmo papel das redes sociais em distribuição de conteúdo. Não surpreende que o lucro do Facebook em anúncios móveis esteja crescendo a largos passos em um momento em que o crescimento dos lucros, no geral, está desacelerando.
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A tecnologia móvel, de maneira geral, está formatando-se de maneira a se tornar um novo ponto fraco para o Google. Quando pesquisamos em nossos celulares, geralmente usamos apps, não nossos navegadores de internet. Companhias como o Yelp, TripAdvisor e Amazon sofreram porque o Google reprime resultados de suas ofertas em pesquisas, mas casa uma dessas companhias também faz apps que se tornaram escolhas de usuários que querem comer, viajar ou comprar.
O Yelp, por exemplo, diz que foi profundamente prejudicado pelas práticas do Google. Ele também disse que seu app é uma fonte de força porque foge do intermédio de ferramentas de pesquisa como o Google.
Executivos do Google são inteligentes o suficiente para perceber que ser o número um em pesquisas não pode ser a única estratégia da companhia. Então eles fizeram acordos com companhias de telecomunicações para embutir apps do Google em celulares com o sistema operacional Android – a companhia também foi acusada de forçar fabricantes de celulares com Android a excluir apps de outras companhias. Mas usuários podem ignorar os apps de que não gostem. Pergunte à Apple que viu consumidores baixarem o Google Maps quando seu próprio aplicativo de mapas foi um desastre.
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O Android é o sistema operacional móvel mais usado ao redor do mundo, e permite ao Google ter uma janela com vista para o comportamento de usuários globalmente. O Google Maps não é apenas uma ferramenta popular, é uma plataforma sobre a qual outras companhias gigantes, como o Uber, construíram seus produtos. Mas rivais estão conspirando para enfraquecer esses negócios.
A Startup Cyanogen, que produz um sistema operacional móvel baseado em Android que, essencialmente, compete com o próprio Android, acumulou um orçamento de guerra de mais de US$100 milhões de investidores como Telefônica, Rupert Murdoch, Andreessen Horowits e Redpont Ventures.
A Samsung está fazendo uma parceria com a Microsoft (sim, a Microsoft) para embutir aplicativos em smartphones da coreana – gadgets que normalmente usam o Android. O Uber tenta se desvencilhar do Google Maps, e quer inclusive lançar seu próprio carro autônomo, que competiria com um produto que o Google vem desenvolvendo há anos.
É muito petulante dizer que o monopólio em buscas do Google não tem importância. Ele certamente tem importância para companhias que dizem que estão sendo prejudicadas pelas práticas do gigante. Se companhias como o TripAdvisor não podem ser encontradas em buscas, elas perdem um tráfego valioso de usuários.
Ainda assim, vemos novamente na indústria da tecnologia que grandes monopólios tornam-se irrelevante quando em meio a mudanças sísmicas (e as vezes inéditas) em como as pessoas e empresas utilizam a tecnologia. Tudo isso nos leva de volta à Microsoft.
Bem Thompson, da Stratechery, descreveu como a Microsoft (e a IBM) sofreram com esse fenômeno, e ele diz que acredita que o Google é o próximo na fila desse transtorno. Um dos perigos táticos em deter um monopólio é que, para manter um monopólio, você precisa focar sua atenção em suas ofertas mais dominantes, o que tira energias de mudanças econômicas e inovações que ocorrem em outras áreas fora de sua bolha lucrativa.
Em 2002 não era óbvio que a Microsoft precisava começar a pensar de maneira diferente sobre softwares, assim como não era óbvio ao Google em uma era pré-mobilidade que a indústria de pesquisa online poderia ser perturbada.
Reguladores europeus estão decidindo se vão agir contra o Google por atividade abusiva, e as preocupações recém-reveladas da FTC darão a essas autoridades um poder adicional para acusações antitruste contra a companhia. Uma ação legal provavelmente levaria a meses ou anos de apelos e recomendações que eventualmente terminariam em um acordo – assim como o julgamento antitruste da Microsoft que começou em 1998 e acabou em 2001.
Acusar o Google em tribunais provavelmente geraria poucas mudanças em seu modelo de negócios. Ainda assim, não importa o que aconteça na Europa, eu acredito que o Google continuará tendo um monopólio em pesquisa online. Isso não significa que ele seja um rival a ser temido.