“Não faz sentido comparar Brasil com Venezuela”, diz especialista sobre falta de produtos em supermercados

Vitor Tubino, especialista em práticas de distribuição e gestão de estoques da consultoria Protiviti, comentou sobre a crise de abastecimento de supermercados 

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SÃO PAULO – A paralisação de caminhoneiros já prejudica o abastecimento de alimentos, tanto perecíveis quanto não perecíveis, em supermercados de diversos estados brasileiros. Segundo a ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados), já são afetados cerca de 13 estados brasileiros.  

Imagens publicadas por internautas nas redes sociais mostram prateleiras de frutas, verduras e de itens básicos como leite e açúcar totalmente esvaziadas, o que tem levado os mesmos internautas a compararem a situação brasileira com a enfrentada pela Venezuela desde o ano passado, quando a crise de abastecimento teve início. Ao mesmo tempo, brasileiros “se preparam” para o pior e correm para os estabelecimentos para estocar o que for possível.

“Supermercado em Porto Alegre… ou seria na Venezuela?”, “Falta emprego e agora faltam alimentos no supermercado. A diferença para a Venezuela é que lá tem gasolina… e barata” e “As pessoas estão com medo de que faltem produtos alimentícios e estão antecipando suas compras” são alguns dos muitos exemplos de comentários nas redes sociais.

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A comparação entre a situação brasileira e venezuelana, entretanto, não faz nenhum sentido, explica o especialista em práticas de distribuição e gestão de estoques da consultoria Protiviti, Victor Tubino. É preciso lembrar que o problema brasileiro se dá nos transportes, não na produção de alimentos – ou seja: o produto está pronto para ser fornecido, mas existe um entrave na entrega.

“Pensando em um mecanismo, a gente pode dizer é que falta uma engrenagem, no caso o transporte, para fazer toda essa cadeia funcionar”, disse. Na Venezuela, a crise é se dá na produção desses alimentos.

Victor ainda explica que a crise de abastecimento foi agravada pela histeria de consumidores e as publicações “desesperadas” nas redes sociais.

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“O que nós geralmente temos nesse tipo de indústria é uma média de estoque, uma previsão de vendas. Existe uma demanda planejada. Quando temos uma crise que interrompe esse abastecimento, a expectativa é de que as pessoas continuem consumindo o que normalmente consomem, para que não faltasse nada. Mas com a euforia de compartilhar tudo na internet, houve uma exaltação dos consumidores e a demanda ficou muito mais alta do que o esperado”, disse o especialista. Esse aumento na demanda explica também o súbito aumento no preço dos produtos.

Onde comprar
A decisão de onde realizar as compras, seja nas grandes redes de supermercado ou no “mercadinho de bairro”, é do consumidor. O que Victor explica é que, em momentos como este, normalmente a primeira opção da população é ir aos mercados maiores, esperando que os estoques estejam em maior quantidade. Em algumas regiões, portanto, pode ser mais fácil encontrar prateleiras cheias nos pequenos mercados.

Previsões de normalização
No geral, é necessário cerca de um mês para que os consumidores voltem a ver os estoques e preços como eram antes da paralisação de caminhoneiros. Isso por conta dos alimentos perecíveis: como demandam uma cadeia maior de produção e distribuição, quando ela não é completa, ele estraga; a previsão de Victor e outros especialistas é de que a oferta de produtos perecíveis, especificamente esta, leve cerca de um mês para ter o abastecimento normalizado.

Quanto aos alimentos não perecíveis, a normalização fica mais simples e rápida. “Nesse ponto, as coisas ficam muito mais rápidas. Os centros de distribuição têm estoque, só precisa ser remanejada a questão de entrega para os supermercados e mercados. Eu diria que em quatro ou cinco dias a oferta dos perecíveis já esteja normalizada”, disse Victor, ressaltando que é possível que algumas regiões específicas de cidades e produtos sejam priorizados.