Montadoras usam manobra para inflar número de vendas, diz Fenabrave

Para presidente da entidade, na briga por maior participação no mercados, companhias incentivam o "rapel" nas concessionárias

SÃO PAULO – Números da Fenabrave revelam que, em dezembro de 2010, o número de veículos emplacados cresceu 29,97%,  na comparação com o mesmo mês de 2009. No entanto, para o presidente da entidade, Sérgio Reze, isso não significa necessariamente que as vendas no último mês do ano passado cresceram nesse percentual.

“Não tivemos nenhum fator real na economia do país que justifique esse expressivo aumento”, afirma o executivo, que completa: “algumas pessoas citam o 13º salário. Mas quem precisa do salário extra para comprar carro é o público com menor poder aquisitivo. Esse público compra carro de entrada, e a venda desse tipo de veículo caiu em dezembro. Subiu a venda de carros com valor acima de R$ 50 mil. Quem compra esses modelos não depende do 13º para efetuar a aquisição”.

Para Reze, apenas uma manobra das montadoras, com o objetivo de conquistar espaço no mercado, justifica tais números. “Mesmo as medidas de contenção do crédito anunciadas pelo Banco Central não levam a esses números. Se as pessoas decidissem comprar com medo do aumento do preço do financiamento, isso teria se refletido no início de dezembro e não no final. Pela minha avaliação, esses números são resultados de uma estratégia do mercado de emplacar carros que não foram vendidos, para ampliar seu espaço no mercado”.

Efeito rapel
Em entrevista coletiva, Reze explicou que, há alguns anos, a Fenabrave vem percebendo que algumas montadoras incentivam suas concessionárias a praticarem o rapel, emplacamento de veículos que ainda não foram vendidos e que, depois, são vendidos como carros usados.

“O que estimula esse comportamento é a briga pelo market share. Pelos números, percebemos que no final do mês os emplacamentos sobem muito e no início do mês a participação no emplacamento cai. Isso acontece porque, no início do mês, as concessionárias acabam vendendo os carros que emplacaram no final do mês anterior, e eles acabam entrando no relatório de vendas de veículos usados”.

O presidente afirma ainda que, embora infle os números, essa prática não traz às montadoras o efeito desejado. “Elas não conseguem o destaque que querem, pelo simples fato de que todas fazem a mesma coisa. Se uma só fizesse, com certeza se destacaria, mas não é o que acontece”.

Ainda segundo Reze, a prática do rapel acaba sendo prejudicial para o setor, que acaba amargando números menores – e nem sempre reais – nos meses seguintes. “ Para se ter uma ideia, há alguns anos, uma montadora emplacou no final do ano um número expressivo de veículos. Imediatamente, em janeiro e fevereiro, a participação dela no mercado caiu drasticamente”.