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(SÃO PAULO) – O crédito para a compra de veículos tem umas das maiores taxas de inadimplência do país e enrola a vida financeira de muitos brasileiros. Segundo dados do Banco Central, os financiamentos de veículo com atraso entre 15 e 90 dias somam R$ 12,9 bilhões. No último ano, mais de 1 milhão de pessoas foram parar em cadastros de inadimplentes como o da Serasa porque não conseguiram pagar as prestações do carro. E, desde o último mês de novembro, as pessoas com dificuldade em quitar as parcelas têm pouco tempo para reagir. Agora os bancos só precisam enviar uma carta registrada com aviso de cobrança ao consumidor, dando um prazo de cinco dias para que o débito seja quitado. Depois disso o banco já pode iniciar o procedimento de busca e apreensão do automóvel para depois leiloá-lo. Empresas que auxiliam os consumidores em dificuldade com o financiamento do veículo são muito populares no exterior. A americana CarMax, por exemplo, faturou US$ 16 bilhões em 2014 prestando esse tipo de serviço. Inspiradas nesse exemplo dos EUA, algumas empresas que ajudam o consumidor a quitar a dívida começam a ganhar corpo também no Brasil.
Esse é o caso da Kitar, cujo CEO, Luiz Barros, diz realizar a avaliação das dívidas de mais de 3.000 veículos por mês em São Paulo. A empresa estima o valor atual do veículo e compara com o saldo devedor do cliente. Caso o valor presente da dívida seja inferior ao preço de mercado do automóvel, a Kitar compra o veículo – e sua dívida – e já transfere a documentação em uma hora, quitando também outros débitos como multas e IPVA e evitando que o consumidor possa cair na lista da Serasa. Suponha, por exemplo, que um veículo custe R$ 20.000 pela tabela Fipe e que o valor presente do financiamento seja de R$ 15.000. Barros diz que a Kitar vai comprar o carro por cerca de R$ 17.000 (o valor exato depende, entre outras coisas, do estado do veículo), pagar a dívida de R$ 15.000 ao banco e devolver os outros R$ 2.000 ao antigo dono, que se livrará de seu problema. Já se o valor presente da dívida for superior ao preço de mercado do veículo, aí não haverá negociação com a Kitar. É comum que isso aconteça porque muitos brasileiros aproveitaram o crédito farto no começo desta década para financiar até 100% do veículo – o que aumenta o valor das prestações e a incidência dos juros. Outro problema é quando o carro usado tem baixo apelo de vendas. “Nem tem o que fazer se o cara comprou um carro chinês que não tem mercado. Dos 3.000 cadastros mensais no nosso site, a gente avalia com profundidade cerca de 300 e fecha a compra de uns 100”, diz.
O executivo explica que os bancos não negociam os valores das dívidas quanto o atraso é de até três meses. A instituição financeira simplesmente traz o saldo devedor a valor presente usando uma taxa de desconto de cerca de 1,1% ao mês – que é aproximadamente o próprio custo de capital do banco. Quando o atraso nos pagamentos for superior a três meses, a situação pode ser mais complexa. Em alguns momentos, os bancos se mostram mais interessados em negociar o valor da dívida, mas, muitas vezes, vão colocar o nome do devedor numa lista de inadimplentes e solicitar a apreensão do veículo para o posterior leilão. Muita gente que vive esse tipo de situação costuma esconder o carro para que ele não seja retomado pelo banco, mas isso, uma hora ou outra, acaba acontecendo. Algumas pessoas tentam vender o carro por conta própria ou deixam ele em uma revendedora à espera de um comprador. A diferença, segundo Barros, é que o negócio não é fechado no mesmo dia da vistoria como com a Kitar e não há negociação com o banco para tentar reduzir o valor da dívida de forma que sobre algo para o comprador do veículo.
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Barros defende que esse tipo de serviço é interessante para todas as partes. O banco não tem interesse em retomar um carro para leiloá-lo porque isso gera custos de estacionamento, leiloeiro, etc. Até mesmo a cobrança costuma ser terceirizada pelo banco para uma empresa especializada, que será remunerada quando obtiver sucesso em conseguir convencer o devedor a retomar os pagamentos. Já a Kitar ganha com a revenda do veículo que comprou por um valor um pouco superior ao que ela mesmo pagou. A empresa não tem loja e faz todas as negociações por meios de sites como o Webmotors. Um acordo também pode ser interessante para o devedor porque ele não tem dinheiro suficiente para quitar o carro à vista e fica sujeito a todo tipo de pressão dessas empresas especializadas em cobranças, além de ter o risco de ver seu automóvel apreendido e leiloado pelo valor da dívida ou menos, perdendo tudo que pagou. “Nosso cliente leva o carro para a vistoria e, se estiver tudo certo, em uma hora a gente liquida a operação. No dia seguinte o consumidor já está com o nome limpo”, diz Barros.