Entenda porque o Apple Watch não o libertará de seu smartphone

Usuários do relógio apenas estarão mais imersos no excesso de informações

Bloomberg

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(SÃO PAULO) – Ao descrever o apelo do Apple Watch, o CEO Tim Cook focou na palavra “pessoal”. Ter uma tela em seu pulso cria uma relação de intimidade sem precedentes com a sua companhia de tecnologia favorita. Alguns dos que são a favor argumentam que aproximar a Apple colocaria um fim no excesso de informações em um iPhone e tendências antissociais. Essas pessoas estão erradas.

O co-editor do TechCrunch Matthew Panzarino falou sobre a utopia do relógio inteligente em um artigo publicado esse mês. As pessoas que estão testando o relógio, ele diz, puderam conduzir uma quantidade crescente de seus negócios tecnológicos diretamente de seus pulsos, o que evitava “tirar o iPhone do bolso, desbloquear a tela e ser sugado ao vórtex sugador de atenção”. O Apple Watch não apenas registra a passagem do tempo, ele literalmente cria tempo!

Em 2013, o escritor de tecnologia Farhad Manjoo descreveu relógios inteligentes como “a melhor solução para uma possível catástrofe social mundial” (no caso, todos ficarem olhando seus celulares em público). “Se todos tivessem um smartwatch, o mundo seria um lugar muito melhor”, ele escreveu. “Todos estaríamos constantemente dando espiadinhas em seus pulsos, mas isso seria uma melhoria em comparação com a bagunça que vivemos hoje”. Manjoo estava falando sobre o Pebble watch, o qual ele disse que não funcionava bem o suficiente para libertar as pessoas de seus telefones. Ele está mais otimista sobre o Apple Watch.

Mas a Apple quer que seu novo produto seja muito mais do que um acessório de smartphone muito caro. A companhia quer que seus clientes usem o gadget para pagar por suas compras, ler as notícias do dia, fazer check-in em hotéis e enviar mensagens “escritas à mão”. Se o Apple Watch se tornar um dispositivo usado principalmente para ver notificações de celulares, ele terá sido uma falha.

Pense em nossos dispositivos como caminhos para a informação. A transição de computadores de mesa para smartphones foi como a de avenidas de duas faixas para estradas. Adicionar um smartwatch é como adicionar uma nova faixa. Houve um tempo em que pensava-se que a solução para evitar o trânsito intenso seria construir mais faixas. No fim das contas, construir estradas mais largas piora o trânsito, porque mais pessoas passam a dirigir.

O Apple Watch é uma maneira de adicionar a internet a partes da sua vida que os smartphones não podem alcançar, diz Daniel Levitin, psicólogo cognitivo e autor do livro The Organized Mind. É possível estar conectado através de seu telefone em quase qualquer situação, mas “é esse ‘quase’ que a Apple preencheu agora”, diz Levitin. “É um grande abismo”.

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Ainda na metáfora das estradas, os carros a mais seriam aplicativos mais agressivos. “Eu não acho que o Apple Watch vai libertar muito os usuários”, diz Ronald Rensink, professor associado de psicologia e ciência da computação da University of British Columbia. “E se de alguma forma acontecesse isso, eu tendo a acreditar que os fabricantes começariam a tirar vantagem da atenção livre até voltarmos ao nível anterior”.

Mesmo Panzarino, do TechCrunch, que prega o potencial de libertador de tempo do Apple Watch, diz que o gadget permite maior acesso aos usuários por parte de desenvolvedores. Notificações e mensagens no relógio aparecem apenas quando ele está sendo usado, o que significa que elas sempre serão vistas no momento em que forem enviadas. “Isso significa que você sabe exatamente o momento em que essas mensagens serão recebidas, o que significa que notificações que dependem do tempo certo tornam-se muito mais pertinentes”, ele escreveu. “Se você é um desenvolvedor que lida com notificações, você sabe como isso pode ser poderoso”.

É improvável que desenvolvedores serão contidos quando puserem as mãos nesse tipo de poder, considerando que seus modelos de negócios apoiam-se em chamar a atenção das pessoas. Mark Kawano, que já trabalhou na Apple ajudando designers a maximizar a usabilidade de seus apps para iPhone, diz que os melhores apps para smartwatches serão aqueles que ajudam as pessoas a comunicar-se usando apenas seus relógios. “Isso não é uma maneira de usar menos tecnologia”.

Ainda assim, nem tudo o que o relógio faz demanda atenção total dos usuários. Pagamentos móveis facilitam transações em lojas, e apps de saúde funcionarão em sua maior parte sem serem notados. Mas a tela é o que conta – e telas foram criadas para serem vistas. Kawano diz que a função que ele acha mais atrativa é um app de mensagens com o qual o usuário desenha uma mensagem no relógio e o receptor vê as linhas como se ela estivesse sendo desenhada em tempo real. Ambas essas ações exigem que o usuário esteja prestando atenção em seu pulso por tempo o suficiente para irritar alguém que esteja em sua companhia.

John Edson, presidente da companhia de design Lunar, também destacou essa função e diz que está ansioso para ver como nosso uso da tecnologia mudará se o relógio virar moda. “Estou interessado em descobrir o que são esses gestos, qual o significado de olhar para o seu pulso na próxima fase”, ele diz, “e quando as pessoas vão começar a dizer: ‘pare de olhar para o seu pulso! Converse comigo!’”